“Proteoma da Dengue”: a esperança que vem das proteínas

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Ter, 08/04/2008 - 15:21
Dr. Ronaldo Mohana Borges

Entrevista com Ronaldo Mohana Borges, doutor em química biológica e professor adjunto da UFRJ, realizada em 2008

O doutor Ronaldo Mohana Borges coordena o grupo de estudos do Laboratório de Genômica Estrutural, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho - UFRJ. Um dos projetos desenvolvidos em seu laboratório utiliza técnicas bioquímicas avançadas para estudar as células infectadas pelo vírus da Dengue do tipo 2. Atualmente a equipe do Professor Mohana Borges está mapeando as proteínas das células humanas que sofreram alterações devido a presença do vírus. Ao término desta etapa, os especialistas vão comparar as proteínas “alteradas” com as do banco de dados do Genoma Humano. Em termos práticos, isso significa que dentro de alguns anos os pesquisadores poderão identificar as proteínas celulares envolvidas no ciclo de replicação do vírus e qual o papel destas proteínas em cada um dos estágios da infecção. “Poderemos predizer a virulência do vírus e assim fazer o diagnóstico precoce da doença”, conta com animação Ronaldo Mohana. A pesquisa tem o apoio financeiro da Faperj, Finep e Genoprote; além da colaboração dos professores Andréa Thompson Da Poian, Russolina Benedeta Zingalli, Paulo Mascarello Bisch e Mônica Montero-Lomeli.


ECV - O que é o “Proteoma de Células Infectadas pelo vírus da Dengue”?
Dr. Ronaldo - Primeiramente, o Proteoma é uma técnica que já existia na área da química e bioquímica. Ao invés das ferramentas clássicas que analisam proteína por proteína, o Proteoma estuda o conjunto de proteínas do organismo. A técnica possibilita, assim, o estudo comparativo entre células infectadas e não infectadas.


ECV - Como é feita esta comparação?
Dr. Ronaldo - Um programa de computador, software, é quem nos ajuda a fazer esta comparação. A partir dessa primeira análise, e com a ajuda de um revelador - uma espécie de corante - o pesquisador pode fazer um estudo quantitativo para saber qual proteína apareceu em determinada célula e qual não apareceu. É dessa maneira que vemos o efeito que a infecção viral causa sobre a expressão das proteínas nessas células.


ECV - Explique passo a passo como se dá este processo em Laboratório.
Dr. Ronaldo - Primeiro, as proteínas das células infectadas pelo vírus da Dengue passam pela “Fita de Focalização Isoelétrica”, aonde elas são separadas de acordo com as suas cargas elétricas. Depois elas seguem para o “Gel Bidimensional”, que as separa de acordo com seu tamanho. Logo em seguida, um scanner especial digitaliza a imagem das proteínas no gel e um programa de computador realiza a comparação. É ele quem mostra os efeitos que a infecção viral provocou em cada proteína. Quais spots – amostras com proteínas – tiveram o volume alterado, quais aumentaram, quais diminuíram.
Aí é que a gente entra na etapa de identificação das proteínas. Ou seja, sacamos do “Gel” cada proteína que observamos que são diferentes, a fim de isolar o material a ser estudado, e colocamos em um aparelho chamado “Espectômetro de Massa”, que vai medir o peso molecular exato das moléculas que formam a proteína. Em verdade, pegamos um peptídeo, - escala menor da proteína – o fragmentamos em aminoácidos e depois um programa de computador decifra esses fragmentos e os coloca em ordem.
Sabendo a seqüência exata dos aminoácidos, descobrimos que proteína é aquela. Isto é, montamos o quebra-cabeça. Logo, basta apenas comparar a proteína com as do banco de dados do Genoma Humano para identificarmos que parte do nosso corpo produz aquela proteína e qual é o papel dela na infecção. Esta informação é fundamental para que nós, pesquisadores, possamos prever a virulência do vírus da dengue no organismo das pessoas infectadas.


ECV - Quais são as próximas etapas do Projeto?
Dr. Ronaldo - Ainda estamos na fase de mapeamento dessas proteínas. Após concluirmos este estágio, entraremos no estudo clínico, onde a pesquisa é feita a partir da análise do comportamento das células dos próprios pacientes. E depois o projeto deve seguir para o estudo dos outros tipos do vírus da Dengue – 1,3 e 4.


ECV - Quais são as dificuldades encontradas pelos pesquisadores que estudam a Dengue no Brasil?
Dr. Ronaldo - Há duas dificuldades. A primeira com relação às características do próprio vírus, que exige o trabalho com várias linhagens de células infectadas, já que dependendo das células em cultura temos respostas diferentes.
Mas a questão principal é a dificuldade de troca de informações entre os pesquisadores. Entretanto, esta realidade vem se modificando aos poucos com a rede do Proteoma, que além de ligar os institutos do Rio de Janeiro, conectam pesquisadores de outras partes do Brasil, como Santa Catarina, Pernambuco, São José do Rio Preto entre outros.