Afinal, o que é hermafroditismo?

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Qua, 12/09/2007 - 15:48
Aprodução dos gametas ocorre durante a Meiose, um processo de divisão celular no qual as células geradas passam a ter metade dos cromossomas das células que deram origem a elas. Assim cada óvulo ou espermatozóide apresentam um cromossoma sexual. Da união destes gametas, surge então uma célula chamada zigoto, que possui um cromossomo sexual paterno (X ou Y) e outro materno (X).

É menino ou menina, doutor? Garanto que esta é uma das primeiras perguntas feitas pelos futuros papais e mamães após descobrirem que um(a) filhinho(a) está a caminho. A menos que o feto esteja em uma posição que “esconda” sua genitália, esta curiosidade pode ser dissolvida por volta dos 4-5 meses de gestação. Neste momento, ao anunciar o sexo do bebê, o médico está apenas dizendo que a criança possui um pênis ou uma vagina, o que quer dizer que o bebê é um menino, no primeiro caso, ou menina, no segundo. Pois bem, isso é o que ocorre na maioria das vezes, mas em uma minoria de situações, a morfologia da genitália é dúbia ou completamente discordante com o sexo genético e, nesses casos, a resposta correta para a pergunta “é menino ou menina?” pode chegar apenas muitos meses ou anos após o nascimento da pessoa. Essa é parte da história de um hermafrodita, também chamado andrógino ou indivíduo intersexual, como veremos adiante.


O hermafroditismo é uma condição que decorre do desenvolvimento sexual embrionário irregular, podendo apresentar-se sob vários graus de sexo intermediário. Essa anomalia pode surgir tanto de erros na determinaçãosexual quanto na diferenciação sexual. Dizemos que a determinação sexual - ou seja, a definição do sexo genético de uma pessoa - ocorre durante a fecundação, e depende do tipo de cromossomo sexual (X ou Y) presente no espermatozóide (veja a figura acima). Assim, se o gameta masculino tiver o cromossomo X, o sexo do bebê será feminino (XX - isto é, um X materno e outro paterno); mas se o cromossomo sexual do espermatozóide for Y, o bebê será um menino (XY - isto é, um X materno e um Y paterno). Quando há erros neste processo de determinação sexual, forma-se um hermafrodita verdadeiro. Estes indivíduos apresentam tanto tecidos das gônadas femininas (ovários) quanto das masculinas (testículos), que podem estar amalgamados em um mesmo órgão chamado ovotéstis, ou apresentar-se como órgãos separados. Nessas pessoas, geralmente os dois cromossomos sexuais são femininos (XX), e a fisionomia pode ser tanto de homem quanto de mulher, porém com genitália ambígua.


Por outro lado, se o problema ocorrer posteriormente, durante a diferenciação das gônadas sexuais, temos a formação de um pseudo-hermafroditamasculino (com testículos apenas) ou um pseudo-hermafrodita feminino (com ovários apenas). Na espécie humana, as gônadas começam a se diferenciar a partir da 7ª semana gestacional, e o produto deste processo vai depender do sexo genético do indivíduo. O dimorfismo das gônadas determina o que chamamos de sexo gonadal, que é gerado pela ação conjunta dos cromossomos sexuais. Assim, a presença do cromossomo Y induz o desenvolvimento de uma gônada em testículo, enquanto a ausência do Y faz com que esta mesma gônada se torne um ovário. O tipo de gônada, por sua vez, vai determinar a morfologia da genitália, pois é a testosterona - hormônio sexual masculino produzido pelos testículos - que induz a formação da genitália externa masculina (pênis), enquanto a ausência deste hormônio abre caminho para a feminilização da genitália externa (vagina). Resumindo, podemos dizer que o que determina a diferenciação das gônadas (e, consequentemente, da genitália), é a presença ou ausência do cromossomo Y: se não houver Y, o plano básico de desenvolvimento será formar ovários e vagina; se o Y estiver presente, os genes contidos neste cromossomo reprimem o plano básico anterior e induzem o desenvolvimento dos testículos e do pênis.


O desenvolvimento de pseudo-hermafroditas femininos geralmente decorre de um distúrbio denominado hiperplasia fetal congênita das glândulas adrenais (supra-renais). O que acontece nesta situação é uma deficiência na produção de certas enzimas sintetizadas na parte cortical das adrenais, as quais são necessárias para a produção de hormônios esteróides. O pouco fluxo destes hormônios resulta em um aumento da liberação de ACTH (hormônio corticotrófico) que, por sua vez, leva à superprodução de andrógenos (hormônios masculinos). Conseqüentemente, isso leva ao desenvolvimento sexual precoce nos homens, e masculinização nas mulheres (pseudo-hermafroditismo feminino). Estas mulheres possuem dois cromossomos sexuais femininos (XX), e geralmente não apresentam anormalidade ovariana. Porém, devido à excessiva produção de andrógenos durante a vida fetal, a genitália externa fica masculinizada ou ambígua.


Já no pseudo-hermafrodita masculino, o problema normalmente vem da produção inadequada de hormônios masculinizantes. Essa inadequação pode ser tanto com relação à quantidade insuficiente de hormônios fabricados, quanto com relação ao período deslocado de produção dos mesmos. Isso porque existe uma janela de tempo durante o qual os primórdios da genitália ficam sensíveis à ação da testosterona. Caso a atividade do hormônio apareça após essa janela, a formação dos caracteres sexuais masculinos primários será prejudicada. Em casos extremos, pode acontecer ainda de o indivíduo possuir testículos que secretam normalmente testosterona (no tempo e na quantidade certos), contudo os primórdios da genitália são insensíveis à ação deste hormônio. Neste caso, o indivíduo - um pseudo-hermafrodita masculino – se parecerá com uma mulher normal, contudo portadora de testículos.


A ocorrência de hermafroditas verdadeiros é extremamente rara! O tipo mais comum de hermafroditismo é a hiperplasia fetal congênita das glândulas adrenais, cujo tratamento depende bastante do re-equilíbrio das funções destas glândulas. Além da hormonioterapia, às vezes uma intervenção cirúrgica para correção dos genitais pode ser necessária, e o acompanhamento psicológico é sempre muito bem-vindo! É importante saber que, com o tratamento adequado, muitos hermafroditas podem levar uma vida normal e até se reproduzir quando atingem a idade adulta! Por fim, vale ressaltar que hermafroditismo não é a mesma coisa que homossexualidade ou bissexualidade; assim como qualquer outra pessoa, um indivíduo intersexual pode ser tanto homo- quanto bi- ou heterossexual, mas isso já é uma outra história...