Ciência e educação para uma sexualidade consciente e responsável

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Qui, 21/12/2006 - 14:50
Fonte: http://www.gineco.com.br

“Sexualidade é uma dimensão fundamental de todas as etapas da vida de homens e mulheres, envolvendo práticas e desejos relacionados à satisfação, à afetividade, ao prazer, aos sentimentos, ao exercício da liberdade e à saúde. A sexualidade humana é uma construção histórica, cultural e social, e se transforma conforme mudam as relações sociais. No entanto, em nossa sociedade, foi histórica e culturalmente limitada em suas possibilidades de vivência, devido a tabus, mitos, preconceitos, interdições e relações de poder”.


Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (2003)


Desde a Pré-história, as mudanças tecnológicas sempre afetaram a organização social, cultural e econômica dos povos de todo o mundo, principalmente ao longo das últimas décadas. Diariamente, saem dos laboratórios de pesquisa descobertas que sacodem os valores e o comportamento de nossa sociedade, mexendo inclusive com o que há de mais íntimo, como os aspectos relacionados à sexualidade humana. Quem diria, por exemplo, que o surgimento de métodos contraceptivos permitiria ao homem dissociar o desejo, o amor e o prazer da função reprodutiva? E quem imaginaria então que uma simples reposição hormonal seria capaz de modificar as previsões fisiológicas da natureza, abrindo um leque de possibilidades antes inexistentes?


A interferência da tecnologia na rotina das pessoas, entretanto, não desencadeia necessariamente a compreensão dessas mudanças por parte de cada um. Inseminação artificial, bebê de proveta, barriga de aluguel, clonagem, teste de DNA, pílula anticoncepcional são termos cada vez mais comuns em qualquer esquina do planeta, mas ao mesmo tempo tão obscuros para a população dita “leiga” quanto um buraco negro. Essa desinformação culmina em conseqüências catastróficas, como o desconhecimento do próprio corpo, os altos índices de gravidez não-planejada, a disseminação desenfreada de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), o medo, o tabu, o preconceito e a falta de zelo com a própria saúde.


A tragédia do desconhecimento da qual estamos falando é muitas vezes traduzida em números e estatísticas, fazendo com que o peso desse problema salte aos nossos olhos. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, entre 1996 e 2006, os índices de gravidez na adolescência subiram de forma alarmante, em virtude da maior fecundidade entre jovens de 15 a 17 anos. Considerando que as responsabilidades de uma gestação precoce é, na maioria das vezes, assumida somente pela mãe do bebê, não é difícil entender por que muitas dessas meninas são levadas a abandonarem os estudos e a entrarem precocemente no mercado de trabalho. Este fenômeno traz à tona também questões fundamentais em relação às necessidades de emprego, especialização educacional, cultura, lazer e comportamento, exigindo das esferas públicas a implantação de políticas sociais específicas.


Outro fator inquietante neste contexto é a forte disseminação das DSTs, em especial da AIDS. Dados do Ministério da Saúde de 2005 indicam que a principal forma de transmissão do HIV é através das relações heterossexuais, seguida das drogas injetáveis. Do total de jovens que já iniciaram suas relações sexuais, 48% não usam ou só usam preservativos às vezes. Vale ressaltar que na atual sociedade, cabe geralmente ao homem decidir quando e como terão relações sexuais, se usarão ou não o preservativo, além de serem eles, normalmente, os que possuem maior poder nos âmbitos econômico, doméstico e afetivo. Em virtude desse papel de dominação que nossa cultura ainda permite aos homens, as mulheres tornaram-se ainda mais vulneráveis à AIDS e outras DSTs.


Além das relações sexuais desprotegidas, o medo e o tabu também derrubam diversas ações de preservação da saúde sexual, como a realização de exames clínicos preventivos e a higiene corporal. Conforme relata o Instituto Nacional do Câncer (INCA), de todos os tipos de câncer, o de próstata é o segundo mais comum na população masculina brasileira, enquanto o de mama é o que mais causa óbitos dentre as brasileiras. Em virtude do preconceito, há negligência dos exames de rotina necessários para a detecção precoce dessas doenças, dificultando o tratamento e diminuindo as chances de cura. O INCA informa que o potencial de cura do câncer do colo do útero, por exemplo, chega perto de 100% quando diagnosticado precocemente. Inevitavelmente, essa notícia nos faz indagar, com perplexidade e indignação, por que tantas mulheres ainda morrem deste mal?


Certamente, um dos principais motivos de toda essa problemática é que o tema sexualidade sempre foi assunto muito polêmico, considerado “sujo”, “feio” e “proibido”. As maiores dificuldades que se apresentam são: constrangimento; falta de informação; preconceito; a limitação de abordar o tema imposto por algumas religiões e a orientação sexual nas escolas vista como não saudável, pois muitos acreditam que estimularia precocemente a sexualidade das crianças. É preciso ainda levar em conta que o Brasil é um país de moral conservadora. Do ponto de vista da orientação sexual, ainda há muita gente que acha que o adolescente não é um indivíduo com direitos e que precisa ser tutelado. No entanto, sabemos que quanto mais ele se apropriar do conhecimento sobre o assunto, mais terá uma atitude auto-preservativa.


Em virtude desses fatos, a orientação sexual passou a ser um dos temas transversais previstos nos Parâmetros Curriculares Nacionais desde 1999. Hoje, sexualidade é um tema multidisciplinar que pode e deve ser abordado por diversas disciplinas e ciências. Mais do que isso, o constrangimento dos pais em tratar do assunto faz com que a escola venha se tornando o principal espaço de orientação sexual, embora nem sempre esteja preparada para assumir este papel. Isso torna necessária a atuação de medidas paralelas à escola para que, em um processo de cooperação, problemas como a gravidez na adolescência e a disseminação de DSTs sejam aplacados.