Circulando pelo Sangue

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Sex, 14/10/2011 - 14:34

Entrevista realizada por Bartira Reis Cezar

Você sabe como se forma o nosso sangue? Ou como funciona a doação de medula?  Nós do ECV fomos entrevistar  Drª Eliana Abdelhay, pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer (Inca), chefe do departamento de laboratórios do Centro de Transplantes de Medula Óssea (CEMO), que nos contou um pouco sobre a importância da doação de medula e as últimas pesquisas nesta área.  Vamos juntos?

 

ECV: Como funciona a medula óssea? Qual é a sua função no nosso organismo?

Dra. Eliana Abdelhay: No final da gravidez as células que dão origem ao sangue migram do fígado fetal para a medula onde elas vão se localizar, no que a gente chama de nicho hematopoiético, que fica próximo ao osso. Essas células, chamadas células-tronco, que têm a capacidade de se autorrenovar durante toda a vida do indivíduo e de se proliferar e diferenciar nas diversas células do sangue. Então, na verdade, a medula óssea é um nicho específico para a proliferação e maturação de células hematopoiéticas.

 

ECV: O que é a leucemia?

Dra. Eliana Abdelhay: É um nome geral para um conjunto de doenças, que nós dizemos que ela é clonal. O quê quer dizer clonal? Quer dizer que começam numa única célula. Ela é um erro que ocorre em uma célula bem precoce, célula-tronco, que vai afetar a formação de uma linhagem do sangue. As leucemias podem ser divididas em crônicas ou agudas, podendo afetar linhagens linfóides ou linhagens mielóides. Quando se faz um exame de sangue vem lá escrito a série vermelha e a série branca, que são os leucócitos e os eritrócitos que é um final de diferenciação de uma célula mielóide. Um linfócito B ou um linfócito T, que formam anticorpos, é um estágio final de diferenciação de uma linhagem linfóide. Então, no sangue há um processo de diferenciação da célula-tronco até se ter todos os tipos de células do sangue. Dependendo do erro que houver na célula-tronco ela vai parar a diferenciação bem no início (leucemia indiferenciada) ou vai parar no progenitor linfóide ou mielóide.

 

 leucemia_mieloide_agudaECV: Quais os tipos mais comuns?

Dra. Eliana Abdelhay: Uma leucemia crônica é aquela que consegue ir mais longe na diferenciação, onde ainda se formam as células para o sangue funcionar, mesmo formando muitas células. Uma leucemia que ataque uma célula bem precoce é uma leucemia aguda porque não consegue nem formar a célula diferenciada do sangue periférico para o organismo funcionar normalmente. As leucemias agudas são as mais graves. Temos várias leucemias as do tipo mielóide e linfóide. Temos pelo menos quatro tipos de leucemias. A mais típica da infância é a leucemia linfoblástica aguda (LLA). Na população mais velha os tipos mais comuns são a leucemia linfóide crônica (LLC) ou a leucemia mielóide crônica (LMC). E a leucemia mielóide aguda (LMA) é muito frequente em qualquer idade.

 

 

ECV: Quais as demais doenças que afetam a medula óssea?

Dra. Eliana Abdelhay: Além das leucemias, temos vários tipos de anemias, como a anemia megaloblástica que também afeta a medula e que não são neoplásicas (cancerígenas) e também as imunodeficiências que afetam algumas linhagens do sangue. Se você não consegue formar linfócitos T não terá imunidade. Se o organismo não consegue formar célula NK não terá imunidade inata contra vírus e bactérias, por exemplo.

 

Medula óssea

ECV: Quando começou a ser adotado o procedimento de transplante como tratamento das doenças da medula óssea?

Dra. Eliana Abdelhay: Quando o transplante começou há 50 anos, ele foi indicado inicialmente para anemias aplásticas ou para a leucemia mielóide crônica. Tentávamos primeiro o tratamento convencional, com quimioterapia, e não havendo resposta optava-se pelo transplante. Aqui no INCA, onde já fazemos transplantes de medula há quase 30 anos, no início transplantávamos muito nos casos de anemias aplásticas e de leucemia mielóide crônica (LMC). O nosso primeiro transplante foi para anemia aplástica severa, que é uma doença da medula óssea.

 

ECV: Em quais casos o transplante de medula é indicado?

Dra. Eliana Abdelhay: O transplante não é a primeira opção de tratamento, é a última opção no tratamento por não ser um procedimento simples. No caso, por exemplo, da leucemia mielóide crônica (LMC) por ter sido a mais estudada, de conhecermos bastante da sua genética e por ela derivar de uma única mutação, todos que desenvolvem a LMC têm o mesmo tipo de mutação genética. Por conta disso, foi desenvolvido o primeiro medicamento desenhado especificamente para combater uma doença, o Gleevec, que é um inibidor de tirosino quinase. Grande parte dos pacientes tratados com ele responde ao tratamento. Para aqueles que não respondem, a alternativa é o transplante. Com isso deixamos de ter como prioridade transplantar casos de LMC, e hoje transplantamos muitos casos de LMA e LLA. Os resultados não são tão bons quanto tínhamos com a LMC, porque a doença é muito grave e o paciente já chega muito debilitado. Mas para a LLA (típica da infância) a criança responde muito melhor. Atualmente o transplante tem sido mais indicado para leucemia mielóide aguda e leucemia linfoblástica aguda. Para a leucemia mielóide crônica é menos indicado. E o transplante continua sendo indicado para a mielodisplasia, anemia aplástica, doenças de imunodeficiências.

 

ECV: Em termos numéricos, qual o percentual de leucemias que são indicados para transplantes?

Dra. Eliana Abdelhay: Cerca de 10% dos casos têm indicação de transplante.

 

ECV: Como são os métodos utilizados para a retirada da medula óssea?

Dra. Eliana Abdelhay: Existem diferentes fontes de células para o transplante: a medula óssea, localizada nos ossos da bacia, e o sangue periférico que é retirado com uma medicação, a depender da indicação.  O sangue de cordão umbilical é mais utilizado para crianças ou em adultos de baixo peso. O INCA, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), está montando uma rede de banco de cordão umbilical. Nós temos inaugurado um banco público e começamos a congelá-los, desde 2001 no Brasil. O projeto é termos 17 bancos de cordão espalhados pelo país para fazermos a coleta em maternidades públicas com consentimento das mães, e isso ficará guardado para toda a população. São feitos todos os testes de qualidade, depois são congelados e as informações do material genético ficam registradas no banco de dados chamado Brasilcord (Rede de Bancos Públicos de Sangue de Cordão Umbilical). E quando existe um paciente precisando de transplante ele busca no banco brasileiro de doadores, que atualmente tem 2,5 milhões de doadores cadastrados, procura-se no banco do REDOME (Registro Brasileiro de Doadores de Medula Óssea) e do Brasilcord. Hoje em funcionamento nós temos quatro bancos de cordão funcionando. O do INCA aqui no Rio de Janeiro, o do Hospital Albert Einstein, em Ribeirão Preto e em Campinas. E no ano passado foi inaugurado no Pará, Recife, Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Rio Grande do Sul, Paraná. Temos ainda o dos estados do Amazonas, Mato Grosso que devem ser inaugurados até o final de 2011. Serão 17 bancos com uma capacidade de armazenamento de 200 mil cordões armazenados para disponibilização. O Brasil é o terceiro país do mundo em registro de doadores de medula óssea. E nós fizemos um convênio com o banco americano, onde nós podemos buscar doadores no Brasil e nos EUA ao mesmo tempo. Com isso mais de 70% dos pacientes brasileiros encontram material aqui para o transplante e uns 15% encontram lá fora, e os outros 15% quando não encontram é porque esses pacientes têm alelos muito raros e difíceis de serem encontrados no mundo inteiro inclusive no Brasil.

 

ECV: Por que estes 15% não encontram doadores compatíveis?

Dra. Eliana Abdelhay: E esse é um dos problemas que estamos tentando atacar, que foi a tese de doutorado do diretor do Centro de Transplantes, em que nós comparamos a frequência de alelos do banco de doadores (e do banco de cordão), com o banco de receptores para vermos o porquê que alguns pacientes têm mais dificuldade de encontrar um doador compatível. E o que nós sabemos é que quanto maior for a mistura étnicas mais diversas serão as combinações alélicas, o que significa que a combinação genética desse paciente pode ser mais rara. O nosso maior trabalho agora é tentar descobrir a localidade de origem desses indivíduos, porque provavelmente foram lá que aconteceram essas misturas. Nós já vimos que nas tríplices fronteiras há mais misturas de pessoas de origem europeia, africana, indígena, árabe. Então precisamos fazer campanhas de doação específicas nessas regiões para tentar aumentar a cobertura da nossa população.

 

ECV: Como funciona a doação de medula?

Dra. Eliana Abdelhay: Qualquer hemocentro do país aceita doação. Quando você vem doar sangue eles perguntam se você quer doar sangue e plaquetas. São retirados dois tubinhos de sangue que vai para o laboratório para a tipagem do DNA do sangue do doador. Quando encontra-se no banco, doadores compatíveis nós prosseguimos com uma série de exames a fim de se comprovar essa compatibilidade. Quando se tem a certeza da compatibilidade nessa fase de testes, nós convocamos o doador e o receptor para uma nova coleta de sangue e se faz aquilo que é chamado de teste confirmatório, que é um teste de alta resolução, que é o sequenciamento do DNA que fazemos aqui no INCA.

 

ECV: Quais são as chances de se encontrar um doador compatível?

Dra. Eliana Abdelhay: A chance de se encontrar um doador compatível entre irmãos é de 25 a 30%. O transplante aparentado tem um melhor resultado do que o de não aparentado. Por isso é tão importante ampliar o nosso banco de doadores. Fora da família é de 1 a 30 mil, dependendo da combinação de alelos que o paciente tenha. Nós já sabemos que tem 10% de alelos que cobrem 80% da população. Quanto mais doadores tivermos cadastrados, maiores serão as chances de um paciente encontrar um doador compatível. Os EUA têm um banco de 7 milhões de doadores, a Europa 3 milhões e em terceiro lugar está o Brasil com 2,5 milhões de doadores cadastrados.

 

ECV: Quais são as chances de cura do transplantado?

Dra. Eliana Abdelhay: Depende da doença, com os linfomas e mielomas o índice é de 90%. No caso da leucemia mielóide crônica temos de 70% a 80%  de chance, quando você faz um transplante aparentado para a leucemia aguda a chance é de 60%, quando é o não aparentado diminui para 40%. As chances do paciente aumentam à medida que conseguimos encontrar um doador com o maior grau de compatibilidade possível.

 

ECV: Quais são as principais pesquisas com medula óssea têm sido desenvolvidas no Inca?

Dra. Eliana Abdelhay: De forma geral aqui no INCA a gente trabalha em duas abordagens: fazendo pesquisa básica para tentar entender por que um transplante é bem sucedido e outros não. Trabalha-se tentando analisar se a doença de base tem influência, se isso depende dos medicamentos tomados antes, do estado inflamatório dos pacientes. Acompanhando o paciente desde antes do transplante até um ano depois, em termos de células que ela vá apresentar, os fatores inflamatórios que estão no plasma do sangue do paciente, se há diferenças moleculares no plasma. Tentamos identificar qualquer fator que possa nos mostrar se determinado paciente vai ou não ter rejeição ao transplante. Atualmente 70% das nossas pesquisas têm a ver com a doença em si e não com o transplante. É outro caminho que percorremos buscando conhecer a genética dos vários tipos de leucemia e pré-leucemia. E tentar com isso ver como ocorreu a mutação original e como ela modificou a biologia da célula, se comunica com as demais células da medula, pois com essas informações teremos algum alvo preferencial para desenvolver novas drogas. Já que conseguimos fazer isso com a leucemia mielóide crônica que já podemos tratar com medicamento, temos esperança de que conseguiremos o mesmo com os outros tipos de leucemia. Temos aplicado as técnicas de biologia celular, citogenética,  genômica e proteômica, a fim de conhecer bem a doença, qual foi a mutação original inicial. Em alguns casos nós conhecemos as mutações, mas não sabemos se elas foram iniciais ou não, porque existem leucemias que não têm um defeito cromossômico e que não se consegue dizer o quê está causando aquela doença. Então, se conseguirmos estudar a biologia geral da célula, saber tudo o que ela está expressando, todas as proteínas que ela está fazendo, e comparar no quê que ela é diferente da célula normal, começaremos a identificar as guias de sinalização que se modificaram ao compararmos a célula normal da célula leucêmica.

cartaz doação de medula óssea

 

ECV: Há uma estimativa do aumento de transplantes se aumentarem o numero de doadores?

Dra. Eliana Abdelhay: O gargalo para o transplante agora está no número de leitos. O número de leitos não é suficiente para a quantidade de pessoas que estão na fila como receptores.

 

ECV: O tempo médio de espera....

Dra. Eliana Abdelhay: O tempo médio é de seis meses, mas isso também depende da gravidade da doença, que vamos estabelecer as prioridades. Atualmente nós temos umas mil pessoas na fila do transplante.

 

ECV: Como reconhecer os sintomas da leucemia?

Dra. Eliana Abdelhay: No caso da leucemia, os sintomas clássicos são a anemia, fadiga e infecções de repetição.

 

ECV: O que é a mais importante no diagnóstico ou prevenção da leucemia?

Dra. Eliana Abdelhay: O que eu posso dizer para os jovens e os adultos também é que façam exames de sangue regularmente.

 

Se você quiser saber mais sobre a doação de medula e o quê precisa fazer para se tornar um doador, venha participar das atividades do Espaço Ciência Viva. Nós te convidamos a participar e circular pelo sangue com a gente. Vamos juntos?