Dengue em todas as estações do ano

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Sex, 07/11/2008 - 15:17
Dra. Claire Kubelka

Entrevista com Dra. Claire Kubelka, pesquisadora do Departamento de Virologia da Fiocruz, realizada em 2008

Claire Kubelka lidera o projeto que analisa a reação imunológica às manifestações da Dengue no organismo de pacientes infectados. O estudo, que faz parte do Programa Dengue e Virologia da Fiocruz e conta com o apoio do CNPq e da Faperj, se baseia também no teste de fitoterápicos contra a doença. Embora ainda sejam realizados in vitro, estes testes já trouxeram uma pequena esperança para a pesquisadora, que desde os anos 90 estuda a biologia da doença e do vírus a partir da análise de campo com pacientes.
“O projeto segue três linhas de pesquisa: o entendimento da doença no paciente; a análise dentro do laboratório, a partir do modelo com células; e o teste dos fitoterápicos in vitro”, afirma Claire Kubelka. Segundo a especialista, o foco da pesquisa é saber quais fatores estão relacionados com a causa de determinadas reações no organismo de pacientes, tanto os que têm o tipo brando da doença como os com a forma grave, aquela que em alguns casos leva à morte.
“Não se sabe ainda porque uns têm o tipo grave da Dengue e outros a forma mais branda. Sabe-se apenas que as pessoas infectadas com o vírus passam a ter distúrbios de coagulação, aumento da permeabilidade vascular e queda de pressão, aquilo que chamamos de fatores reacionais ou inflamatórios. Tais fatores levam o doente do tipo grave ao choque; que pode ser tanto na forma de desmaio, hemorragia e até derrame pleural. Este estudo busca determinar como e onde surgem tais respostas inflamatórias, e se uma pessoa tem mais de um fator inflamatório quando está com a dengue mais grave ou produz menos fatores quando está com o tipo mais brando”, explica Claire.
“As pesquisas revelam que tais fatores reacionais são produzidos pelas citocinas inflamatórias. Ou seja, o vírus entra nos monócitos, células do sistema imunológico que infectadas liberam citocinas inflamatórias – moléculas envolvidas na emissão de sinais entre as células durante o desencadeamento da resposta imune. São as citocinas que produzem reações no organismo do paciente como o aumento da permeabilidade vascular, levando ao extravasamento de fluídos para vários órgãos e baixa da pressão sanguínea, e a distúrbios de coagulação, devido a redução do número de plaquetas”, completa a pesquisadora.
Através de pesquisas in vitro, Claire, e o grupo de pesquisadores que a acompanham, tentam simular em laboratório aquilo que acontece dentro do organismo dos pacientes, reproduzem os fatores reacionais que acometem os indivíduos e os detectam nas culturas de células. O método ajuda o grupo a entender os mecanismos do vírus nas células e a buscar os parâmetros do tipo grave da Dengue. Além de ser utilizado também para o teste com fitoterápicos.
“A pesquisa com fitoterápicos já conseguiu atingir um alvo, ou seja, inibiu um fator reacional importante. Mas o sistema imunológico é algo complicado, é um quebra-cabeça; tem que se estudar para saber se este é o melhor alvo para acabar com o vírus dentro das células. Só após juntar as peças deste quebra-cabeça poderemos achar as drogas que agem nos locais cruciais”.
Enquanto a pesquisa não chega ao fim, Claire Kubelka dá algumas dicas de como se prevenir da doença. Além de não deixar água limpa e parada em recipientes sem tampa, a pesquisadora lembra do uso de repelente como uma saída para evitar picadas do mosquito Aedes aegypty. Manter o corpo hidratado, fazendo uso de água de côco, bebidas isotônicas e soro caseiro é também determinante para uma boa recuperação do paciente. A especialista aponta ainda para o acompanhamento médico como ação fundamental para evitar que a doença evolua para o tipo mais grave: “Depois da primeira semana, em que a febre foi embora, muitas pessoas tendem a achar que já estão livres da Dengue. Pelo contrário, este é o momento em que a doença pode vir a se tornar mais grave. O paciente deve ficar atento e estar, desde os primeiros sintomas, fazendo controle médico adequado”.