Epidemia

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Qui, 06/11/2008 - 11:29
Mosquito da Dengue (Aedes aegypti) / Fonte: www.iurdangola.net

Quando falam em Dengue - o governo, os jornais, a televisão, as revistas - falam muito do mosquito. Não se fala das pessoas; como se elas pudessem escolher "estar fora", como Eric gostaria. E esquecem do mais importante para conseguir parar uma epidemia: o fato de que são os doentes que alimentam os mosquitos com o vírus! Veja só: um mosquito, tendo o vírus da Dengue nele, passa o vírus adiante quando pica uma pessoa... Mas onde foi que ele pegou esse vírus? De onde ele chupou este vírus? Essa é uma boa pergunta, pois é a pergunta que nos permite descobrir de onde vem o vírus que faz novas pessoas adoecerem, que faz o número de pessoas doentes se multiplicar e a doença virar epidemia!


Para iniciar a cadeia de transmissão da Dengue é necessário que uma primeira pessoa tenha o vírus no seu sangue. É dela que os mosquitos vão levar o vírus e transportá-lo (sendo ‘vetor’) para o sangue das pessoas que picarão depois – e muitas pessoas serão picadas já que cada mosquito vive durante várias semanas e continua picando por aí. Qualquer pessoa doente com o vírus no sangue e acessível aos mosquitos é uma fonte de propagação da doença. Agora, imagine uma ilha onde nenhuma pessoa tenha Dengue. E nesta ilha vivem vários tipos de mosquitos, entre eles alguns chamados Aedes aegypti, o mosquito que transmite a Dengue – esse mosquito existe em quase todos os países tropicais!


Imagine agora um visitante com Dengue chegando nessa ilha, tomando banho de mar e depois deitando-se na praia tomando sol no meio da gente da ilha. Uma festa para os mosquitos! Todos eles chupando sangue com o vírus da Dengue. Se dois mosquitos picam esse visitante e cada um desses mosquitos pica dez pessoas ao longo de uma semana, quantos novos portadores do vírus teremos no fim desta semana? Contando nos meus dedos, já temos um surto com 20 doentes!


Não é hora de perguntar como parar a epidemia ainda no seu início? Sabendo tudo que você acaba de ler... o que você faria ao descobrir que você foi picado e infectado pelo vírus? E como você não está sozinho na sua ilha, não se perguntaria como proteger todos os outros da doença que você já tem? Não seria uma boa idéia se você e todas as outras pessoas que estão doentes se retirassem do banquete dos mosquitos? Se o sistema de saúde da sua região conseguir detectar as primeiras pessoas que estão contaminadas com o vírus, teríamos uma possibilidade de parar o desenvolvimento do surto, não é?Os médicos e sanitaristas da ilha chamada Cuba têm resposta para estas perguntas. Enquanto hoje, o Estado do Rio de Janeiro anuncia dezenas de milhares de casos de Dengue, Cuba tem nenhum, mesmo quando todas as outras ilhas do Caribe têm Dengue. Por que será?


Houve surtos de Dengue em Cuba, em 1981 e 1997 e em outubro de 2006, mas foram interrompidos em pouco tempo. Por isso a vigilância sanitária cubana recebeu as felicitações da Organização Mundial da Saúde. O último surto, em outubro de 2006, registrou um total de 28 pessoas com o vírus, e não houve uma a mais. Por quê? O sistema de saúde de Cuba assim que detecta as pessoas portadoras do vírus apela para elas "se esconderem" dos mosquitos em clínicas ou debaixo de mosquiteiros, enquanto os vizinhos entram em campanha coletiva para eliminar lugares onde a água parada possa acumular e atrair as fêmeas dos mosquitos para botarem seus ovos.
Conclusão: para interromper uma epidemia de Dengue não basta apenas matar mosquitos. É muito mais eficaz não deixar que eles se alimentem de sangue com vírus. É essencial evitar que os mosquitos se aproximem das pessoas que já estão doentes! É essa pessoa doente que deve colocar repelente e ficar debaixo de um mosquiteiro até sarar, evitando que os mosquitos possam picá-la e se alimentar do vírus. A pessoa doente precisa ser isolada do mundo dos mosquitos! Só assim podemos garantir a interrupção da cadeia multiplicadora da doença!


É inútil achar que vamos conseguir proteger todas as pessoas sãs! É muito mais eficaz se preparar para que as pessoas doentes fiquem inacessíveis aos mosquitos! Se os mosquitos não tiverem a oportunidade de ficarem doentes não vão contaminar as pessoas sãs!
Nesta altura surge uma pergunta: você vai aceitar a responsabilidade de não oferecer-se em banquete aos Aedes aegypti? Você aceitaria ficar debaixo do mosquiteiro sem ir à festa de aniversário do seu amigo? Se você houvesse recebido sua educação na sociedade cubana com sua ideologia socialista, você veria isso como uma responsabilidade social evidente - como sua contribuição à saúde de todas as outras pessoas da sua ilha e dos países vizinhos.


No Brasil, constatamos que a forma de organização da nossa sociedade não consegue reconhecer o indivíduo doente como um responsável na transmissão da Dengue. Nossa medicina olha o indivíduo como 'vitima' passiva, como se ele não estivesse inserido num coletivo de pessoas com responsabilidades mútuas. Enquanto se enxerga apenas os direitos individuais, falta a verdadeira solidariedade social, falta o respeito aos direitos humanos da coletividade. Assim, aqui no Brasil, se torna impossível reconhecer a participação das pessoas na epidemia de Dengue; o pensamento liberal vê o isolamento do doente como uma violação de direitos individuais.
Em Cuba a vontade política, a responsabilidade social, a consciência de todos e todas fazem com que se consiga evitar ter vítimas durante furacões, e interromper um surto de Dengue em poucas semanas. Os cubanos não precisaram designar o 27 de novembro de 2007 como "Dia Nacional contra a Dengue" como fez o governo brasileiro, ou proclamar um "Dia D" em março de 2008 como fez o Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em desespero, os políticos brasileiros apelam para as forças armadas numa produção teatral que apenas revela o vazio de responsabilidade social que eles próprios orquestram.


Maurice Bazin. Educador. Primeiro Presidente do Espaço Ciência Viva, Rio de Janeiro.