Esporte e tecnologia: uma combinação polêmica

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Sex, 02/12/2011 - 11:06

O Doping Tecnológico em discussão

As inovações tecnológicas no mundo do esporte têm sido alvo de muita discussão, tanto entre profissionais da área como entre pessoas comuns. Essas inovações são cada vez mais comuns, em vários esportes diferentes. O que tem preocupado, no entanto, é que se torna cada vez mais tênue a linha entre o ponto em que a tecnologia ajuda o atleta a melhorar seus resultados e o ponto em que ela é essencial para se conseguir classificações e brigar por medalhas.

Da gigantesca lista de inovações que têm surgido, destacam-se, por exemplo, um tênis desenvolvido pela Adidas, que aposta na assimetria para alcançar melhores resultados. A companhia desenvolveu o tênis Lone Star Spikes para o atleta Jeremy Wariner, campeão mundial dos 400 metros rasos em 2005 e em 2007. O que ocorre é que as pistas de corrida dos Jogos Olímpicos são ovais, de forma que o atleta faz curvas apenas para a esquerda, o que faz com que os seus pés tenham diferentes funções durante o trajeto. O pé esquerdo é utilizado para estabilidade, enquanto o direito é usado para propulsão. Pensando nisso, foi desenvolvida uma sapatilha que canaliza a energia criada no pé direito, para que a propulsão penda para o lado esquerdo.

A concorrente Nike investiu numa tecnologia que representa não um novo modelo de sapatilha, mas uma nova engenharia na construção de tênis e sapatilhas, chamada Flywire. Os calçados feitos utilizando-se essa tecnologia possuem uma estrutura que se apoia não em tiras de tecido costuradas umas às outras, mas em fios que sustentam o calçado. Para explicar esse novo conceito, a empresa cita como inspiração as pontes suspensas por cabos de ferro, como a Golden Gate Bridge, em São Francisco. Nos novos calçados, longos filamentos de uma fibra chamada Vectran são conectados a pontos do calçado, dando sustentação para o tecido que preencherá as colunas. Com essa estrutura, as novas sapatilhas e tênis tornam-se extremamente leves e encaixam-se com mais perfeição ao pé do atleta. Um exemplo dessa tecnologia é a sapatilha Zoom Matumbo, que pesa apenas 93 gramas e foi desenvolvida para provas rasas, como a dos 100m.

Mas as inovações no atletismo não se limitam aos pés. A Adidas lançou recentemente o Tech Fit Power Web, traje que melhora a aerodinâmica e diminui a perda de energia do atleta. A roupa comprime a musculatura, diminuindo a fricção do ar com as dobras do corpo. Além disso, a roupa ajuda o atleta a estabilizar os músculos, de forma que ele não desperdice tanta energia na arrancada inicial, podendo guardar mais para os metros finais, o que aumenta em 5,3% o desempenho do atleta e diminui em 1,1% o tempo gasto. 

Já a Nike aposta no Nike Swift System of Dress, que oferece peças separadas que podem cobrir pernas, braços, costas e busto dos corredores, e que diminui em até 19% o atrito com o ar.

Entretanto, a nova tecnologia que vem causando mais polêmica vem da natação. Trata-se do maiô LZR Racer, da Speedo. O maiô combina painéis de poliuretano colados conforme as medidas do atleta, comprimindo seu corpo e, assim, “diminuindo” a superfície de contato na água. O material não aumenta a potência do atleta, mas melhora a sua hidrodinâmica, comprimindo as dobras da pele e diminuindo o atrito e, dessa forma, a energia que seria utilizada para vencê-lo é utilizada para braçadas maiores. Além disso, o maiô possui um estabilizador na base da cintura, que ajuda o nadador a manter a posição ideal do corpo. Juntando tudo isso, a Speedo diz que o traje melhora em até 4% o desempenho do competidor e em 5% a eficiência de oxigênio. Porém, mais do que porcentagens, explicações teóricas, especulações, o sucesso do maiô pode ser explicado dentro da água. Em 2008, dos 49 recordes quebrados em diferentes modalidades, 44 deles foram alcançados por atletas que utilizavam o maiô.

A polêmica em volta do maiô continua. Alguns dizem que ele não é determinante para resultados, como é o caso do medalhista olímpico Gustavo Borges. Em entrevista ao Globo Esporte, o nadador disse que “A roupa não nada sozinha. A tecnologia vem para ajudar e, se ela consegue te dar um centésimo, é claro que motiva. No aspecto psicológico, pode até fazer o nadador evoluir um pouco”. Por outro lado, a Federação Internacional de Natação (Fina) decidiu que o maiô se trata de “doping tecnológico” e no último dia 24 de julho restringiu o uso de maiôs. A partir de 1 de janeiro de 2010, as peças não poderão superar a cintura e o joelho nos homens e os ombros e joelhos nas mulheres. Além disso, o índice de flutuabilidade máximo, que era de 1 newton, passou para 0,5 newton, além da espessura, que agora pode ser de no máximo 0,8 milímetros, contra o 1 de antes.

O novo presidente da Fina, o uruguaio Julio Maglione, disse que o objetivo de tais proibições é que “o corpo humano recupere o papel de protagonista” nas provas de natação, de modo a evitar que o foco das atenções nas competições esportivas sejam as novas tecnologias.

Francisco Jardim - Jornalista