Gêmeos Quiméricos

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Seg, 19/02/2007 - 15:57
Esquema sobre fecundação

1 óvulo + 2 espermatozóides: Isso é possível?

É verdade que todo ser humano surge a partir da união de um óvulo com um único espermatozóide, certo? Hummm, talvez! Até pouco tempo atrás essa sentença seria incontestável. No entanto, em abril de 2007 a revista The Journal of Human Genetics publicou um caso extraordinário de gêmeos semi-idênticos, levando a crer que o fato pode ter sucedido a partir da fecundação de um óvulo por dois espermatozóides. Isso explicaria o fato dos irmãos serem idênticos quanto à herança genética materna, mas parcialmente distintos quanto aos genes paternos. Por enquanto isso é ainda uma forte especulação, mas a partir deste raríssimo caso, não podemos mais negligenciar a possibilidade de que este tipo de fecundação também ocorra naturalmente.


 Para entendermos melhor o que pode ter acontecido no caso dos gêmeos semi-idênticos, vamos primeiro refrescar nossa memória sobre as etapas da fecundação, ou seja, a fusão de um espermatozóide com um óvulo. Em primeiro lugar, vamos relembrar que a célula reprodutora contém um exemplar de cada cromossomo constitutivo, mais um cromossomo sexual (X ou Y), totalizando assim 23 cromossomos em cada gameta. Da união de um óvulo e um espermatozóide, surge o zigoto com 46 cromossomos, sendo 23 vindos do pai e 23 da mãe. Esta é a primeira célula do novo indivíduo que está sendo gerado, e todas as outras subseqüentes serão oriundas dela ou de suas filhas. É por isso que TODAS as células de uma pessoa possuem exatamente os mesmos genes, pois todas vêm do mesmo zigoto. Durante a primeira divisão do zigoto, os cromossomos maternos e paternos são misturados e, portanto, a bagagem genética do filho é uma combinação dos genes de ambos os genitores.


Acontece que apesar de o homem disponibilizar cerca de 300 milhões de espermatozóides a cada ejaculação (vide artigo Um por todos e todos por um), tão logo o primeiro espermatozóide consegue ultrapassar a camada mais externa do óvulo (a corona radiata), as camadas mais internas do gameta feminio (zona pelúcida e membrana plasmática) se modificam de tal maneira que nenhum outro espermatozóide consegue penetrá-lo. É por isso que dizemos que cada indivíduo vem da união de UM ÚNICO óvulo e UM ÚNICO espermatozóide. No caso dos gêmeos idênticos (monozigóticos ou monovitelinos), o que acontece é que após a multiplicação do zigoto, o conjunto de células filhas se separa em duas partes, desencadeando o desenvolvimento de dois embriões. Lembre que como os irmãos idênticos vieram dos mesmos gametas, sua carga genética é a mesma.


No caso de gêmeos fraternos (dizigóticos ou bivitelinos), a mulher disponibilizou extraordinariamente dois (ou mais) óvulos no mesmo período e, por isso, cada óvulo é fecundado por um espermatozóide diferente. Nesta situação, os irmãos são gêmeos porque se desenvolvem simultaneamente, porém suas cargas genéticas são distintas, já que cada zigoto vem de um par diferente de gametas. De fato, a cada ciclo menstrual, o normal é que a mulher só libere um óvulo, mas recentemente a ocorrência de ovulações múltiplas tem sido cada vez mais freqüente, devido ao fato de muitas mulheres estarem recorrendo a técnicas de estimulação artificial para a ovulação.


Muito bem, como então dois irmãos poderiam ser semi-idênticos? Os gêmeos divulgados pelo The Journal of Human Genetics possuem 46 cromossomos em suas células corporais, como qualquer pessoa normal, porém parte de suas células são XX e parte XY, provavelmente porque um óvulo foi fecundado por dois espermatozóides, tendo um deles o cromossomo X e o outro Y. Assim, os filhos gerados são quimeras, com proporções entre células XX e XY variáveis entre os dois irmãos. Como resultado deste mosaico celular, um dos gêmeos é aparentemente um garoto normal, mas o outro é um hermafrodita verdadeiro.


Conforme dissemos no início deste texto, a fecundação de um óvulo por dois espermatozóides é apenas uma hipótese, por enquanto a mais plausível para o caso dos gêmeos quiméricos. Se isso for confirmado, é possível que esse tipo de fecundação exista na natureza com muito maior freqüência do que imaginamos, contudo as ocorrências podem acabar passando despercebidas caso não exista nenhuma razão óbvia para serem notadas. Na história relatada aqui, o motivo para tal investigação foi o fato de um dos irmãos ser um hermafrodita verdadeiro, o que fez com que a pesquisadora Dra. Vivienne Souter e seus colaboradores procurassem pistas que justificassem a origem de tal anomalia. Isso nos traz uma lição muito importante sobre a ciência, que é nunca fecharmos os olhos para novas formas de enxergar e julgar um fenômeno biológico!


Quer conhecer o texto original sobre este trabalho?


Leia o artigo A case of true hermaphroditism reveals an unusual mechanism of twinning, de Vivienne Souter e colaboradores. O trabalho foi publicado pela revista The Jornal of Human Genetics (121: 179 - 185, 2007).


E para saber mais a fundo sobre fecundação e outras coisinhas...


Leia os capítulos sobre Fertilização e Gravidez Múltipla do livro Embriologia Básica (Editora Guanabara), da autora Keith L. Moore.