Malária: uma questão política

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Ter, 22/05/2012 - 11:18

Anopheles - mosquito transmissor da Malária

Considerada a doença parasitária mais importante que existe no mundo, a malária está presente atualmente em 99 países. A doença é transmitida pela picada de um mosquito do Gênero Anopheles, que se estiver com o parasito da malária poderá contaminar muitas pessoas. Assim como na dengue o vetor da malária representa o elo para a transmissão da doença entre uma pessoa infectada a outra não infectada.  O Plasmodium vivax e Plasmodium falciparum são os principais agentes patogênicos que se instalam inicialmente no fígado depois nas hemácias, provocando muitas febres, cansaço, calafrios e dores pelo corpo. Assim, o parasito só consegue sobreviver e se reproduzir se estiver instalado no corpo humano.

A relação do Plasmodium com o homem é antiga. Entre as populações africanas é possível identificar como o genótipo das populações foi em parte moldado pela relação com esse parasito.  Ao longo do tempo, ocorreram mutações tanto no parasito quanto no hospedeiro, neste caso o ser humano, de modo que existem grupos mais resistentes à infecção. 

Em parceria com o Espaço Ciência Viva, o Professor PhD do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, Ulisses Gazos Lopes, proferiu a palestra “Parasitos Sanguíneos de Humanos” e falou sobre a malária a alunos de escolas públicas e privadas que visitaram o museu no mês de maio. O pesquisador que também faz parte da pesquisa INPETam (Instituo de Pesquisa Translacional em Saúde e Ambiente na Região Amazônica), explicou aos alunos como a ocupação desordenada do solo pelo homem e o crescimento populacional podem impactar negativamente na saúde das populações que vivem nessa região, diminuindo a atividade econômica por afetar a capacidade laboral dos indivíduos.

Cerca de 50% da população mundial vivem em áreas endêmicas, isto é, locais em que o mosquito transmissor da malária circula. (fig1) O número de mortes no ano de 2010 foi de cerca 660 mil dos 219 milhões de casos estimados em todo o mundo sendo a maioria do continente africano e por lá as crianças são as maiores vítimas. No Brasil, as mortes ocorrem tanto em crianças quanto em adultos jovens na região da Amazônia Legal.

                       

Fig1 Malária, países ou áreas com risco de transmissão, 2009.

O tratamento da malária é complexo porque o parasito tem uma grande diversidade genética que o leva ao surgimento de cepas resistentes ao uso dos antimaláricos, não há vacinas, e o controle do mosquito é muito difícil.  Um dos principais sintomas é a febre terçã, que recebe esse nome por ter um ciclo de três dias em que rompem as hemácias e a pessoa infectada fica em um estado febril que causa muita tremedeira, impedindo-a de realizar as atividades do dia a dia, como trabalhar ou ir à escola.

E por que nós não ouvimos falar de casos de malária no Rio de Janeiro? Para haver a transmissão da doença é necessária a presença de uma tríade de fatores o mosquito do Gênero Anopheles, o parasito, e o hospedeiro neste caso o homem. Como 99% dos casos no Brasil se encontram na região da Amazônia Legal o parasito fica restrito a essas áreas, mas caso ocorram casos fora dessa região a ação da vigilância epidemiológica do Ministério da Saúde deve agir rapidamente para evitar que regiões onde esse parasito já foi eliminado voltem a ser focos de transmissão dessa doença. 

Os alunos que visitaram o ECV tiveram a oportunidade de conhecer de perto, pelo microscópio, as hemácias infectadas e as formas de prevenção da doença. O professor explicou que o diagnóstico, feito furando-se a ponta do dedo e fazendo o esfregaço na lâmina, é muito importante para o controle da malária porque ao se tratar a pessoa doente se diminui a chance de transmissão da doença.

Apesar de ser uma das doenças parasitárias mais graves do mundo, pouca importância é dada ao tratamento, prevenção e estudo da malária no Brasil. Para Ricardo Agum Ribeiro, um dos coordenadores do grupo de pesquisa em educação e saúde do INPETam (Instituto de Pesquisa Translacional em Saúde e Ambiente na Região Amazônica), a questão da malária no país é mais política que biológica.

“Depois de alguns anos trabalhando com a malária eu me convenço de que, no Brasil, a doença é mais política do que biológica”, afirmou Ricardo. “Uma doença que, no ano de 2011, fez mais de 300 mil casos não pode ser ignorada. Nosso sistema de notificação é bem estruturado, no entanto, temos que concordar que existe uma diferença entre boa estruturação e eficiência plena da ação”, criticou ele.

Entre os anos de 2003 a 2011 foram registrados mais de 4 milhões de casos da doença no Brasil. Em 2011, essa estatística diminuiu: foram pouco mais de 314 mil casos. Segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 99% dos casos ocorrem na região norte do país. Apesar de as taxas de mortalidade serem baixas, Ricardo acredita que o assunto não é tratado com a devida seriedade no Brasil. “Ainda estamos muito distantes de encarar a malária com a seriedade que deveríamos. Embora a taxa de mortalidade seja um importante indicador do problema a ser enfrentado, temos que pensar na perda da expectativa de vida de uma população que vive com a exposição constante à doença”, explicou.

Otimista com relação à atuação dos agentes de combate à malária, Ricardo destaca que é preciso agir cada vez mais rápido. “Acho que o atendimento, diagnóstico e tratamento estão evoluindo, no entanto, precisamos caminhar mais rápido.  As pessoas, onde quer que estejam, precisam encontrar um local ou agente que possa realizar o exame de forma rápida, além de oferecer o diagnóstico e possível tratamento no menor tempo possível”, disse o pesquisador.

Ainda de acordo com Ricardo, hoje em dia há um esforço tanto na melhora do diagnóstico da doença quanto na elaboração da vacina contra a malária. No entanto, as questões institucionais também são importantes para que a ciência possa colocar em prática suas descobertas. “Enquanto cientista social, minha preocupação não está embasada nas determinações biológicas, meu esforço está no sentido de entender minimamente os mecanismos da doença para visualizar uma forma de combate de maneira institucionalizada”, afirmou. “Precisamos melhorar os canais de contato entre população e governo para que as pessoas não sofram tanto com a doença. Um programa eficiente de controle e combate à malária tem que contar com um arcabouço institucional e governamental, capaz de reduzir o número de casos com a força dos instrumentos já existentes”, concluiu Ricardo Agum.

 

Por: Bartira Reis Cezar, Gustavo Corrêa e Ricardo Agum.