O céu ao alcance de todos

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Qui, 08/08/2013 - 15:20

 

 Sérgio Lomonaco Carvalho apresenta o telescópio.

 

O telescópio é uma invenção que nos ajuda a descobrir mais sobre cantos misteriosos do universo. O tema do Sábado da Ciência do mês julho, no Espaço Ciência Viva, “Desvendando a ótica e a matemática”, nos motivou a entender mais sobre um aparelho que diz muito sobre a evolução do conhecimento humano: o telescópio. Excelente observador de planetas, estrelas e eventos cósmicos, ele nos revela aspectos e curiosidades de diferentes áreas do conhecimento.

Conversamos com Sérgio Lomonaco Carvalho, que integra o grupo de astronomia do Espaço Ciência Viva. Confira!

 

Espaço Ciência Viva: Quais facilidades a invenção do telescópio trouxe à humanidade?

Sérgio Lomonaco Carvalho: O uso inicial dos telescópios foi principalmente militar, pois oferecia vantagens a quem conseguisse detectar o inimigo mais cedo.  O primeiro uso astronômico parece ter acontecido pelas mãos de Galileo Galilei (1564-1642), mas as imagens eram tão precárias que foram necessários muitos anos até que os estudiosos da época conseguissem realmente avançar sobre o conhecimento do universo.  Mesmo assim, o telescópio ofereceu uma revolução na forma de encarar o firmamento, já que, desde os primórdios da civilização, contávamos somente com os olhos para tentar entender o cosmo.  Mais do que aumentar o tamanho das imagens, o telescópio nos oferece a possibilidade de ver objetos cujo brilho é muito tênue para sensibilizar nossos olhos.  Tal como um funil que se utilize para coletar a água da chuva, quanto maior for a "abertura", isto é, o diâmetro da lente ou o espelho apontado para o céu, maior será a quantidade de luz que vai entrar.  Assim, a imagem de objetos celestes obscuros pode ser intensificada o suficiente para ser detectada por nossas retinas através do aparelho.

 

ECV: De quando datam os primeiros experimentos?

SLC: A astronomia considera que a introdução do telescópio data de quatrocentos anos atrás, mas é certo que já se fabricava lentes na Europa desde o século XIII.  Ninguém sabe a quem ou quando ocorreu a ideia de combinar lentes para formar imagens, mas devemos levar em conta que para formar imagens com clareza a superfície das lentes é fundamental, bem como a homogeneidade do vidro.  Tão difícil quanto polir superfícies adequadas em cada uma delas, é garantir que a "massa" do vidro tenha densidade uniforme.  A ótica precisou de muitos séculos até dominar a técnica de produção de "vidros óticos" e de superfícies rigorosamente polidas para a obtenção de imagens de boa qualidade.  Ainda utiliza-se um aparato para a análise de superfícies, desenvolvido pelo físico francês Léon Foucault, em 1850, que garante que elas coincidam com as esferas, parábolas ou hipérboles necessárias para a formação de imagens.  Neste aspecto, estamos falando de precisão de fração de nanômetros, isto é, o milionésimo de um milímetro!

 

 

Grupo da Astronomia participando do Sábado da Ciência.

 

ECV: Do que esse equipamento é feito?

SLC: Os telescópios refratores utilizam lentes para convergir a luz e construir imagens.  Mas a refração da luz por lentes implica, como já foi dito, na construção de pelo menos duas superfícies muito precisas nas faces das lentes e que a massa dos vidros seja muito uniforme.  Soma-se a isso a dificuldade em garantir que lentes de grande diâmetro não se deformem sob o próprio peso quando colocadas na posição horizontal ou vertical.  A mínima flexão desse material, apoiado apenas pelas bordas, modifica as curvas das superfícies e destroi a imagem. Por causa disso, os astrônomos passaram a preferir o uso de espelhos para refletir e convergir a luz dos astros.  Até meados do século XIX, os espelhos metálicos eram amplamente utilizados e chegavam a quase um metro de diâmetro: medida impensável para a construção de qualquer lente. Eles eram chamados de "speculum" e precisavam ser polidos com certa frequência para continuarem sendo úteis.  Somente no final do século XIX desenvolveram-se espelhos em vidro, onde se deposita uma finíssima camada de prata para a reflexão da luz.  Atualmente, além de vidros especiais com baixíssima taxa de deformação em função das variações de temperatura, o alumínio é usado como camada refletora nos espelhos.  Apesar de ser um pouco menos eficiente do que a prata para refletir a luz, ele oxida mais lentamente e custa bem menos que a prata! Com essa tecnologia toda, os espelhos dos telescópios astronômicos já chegam a ter dez metros de diâmetro.

 

ECV: Existe algum experimento que as pessoas possam fazer em casa que "simule" a observação proporcionada por esse aparelho?

SLC: Sempre dizemos às pessoas que apesar de ser um instrumento maravilhoso, que não requer pilhas, gasolina, eletricidade, corda, vapor, álcool ou qualquer outro tipo de combustível, além de estar sempre pronto a nos mostrar o universo quando a meteorologia permite, o telescópio precisa ser apontado para pontos muito específicos do céu para maravilhar a pessoa comum. Todas as estrelas, mesmo quando vistas sob o mais potente telescópio já construído, mostram-se apenas como "pontinhos de luz".  O bom uso do telescópio pressupõe um conhecimento mínimo do firmamento para que aponte objetos celestes visualmente interessantes, o que deve sempre ser acompanhado de uma descrição daquilo que se observa.  Por esta razão, não se recomenda o investimento na compra de um telescópio, qualquer que seja, se a pessoa não tiver um conhecimento mínimo da "cartografia" celeste.  Muitas cidades do Brasil dispõem de grupos de astrônomos amadores ávidos por oportunidades de compartilhar o entusiasmo pelo universo e que colocam seus telescópios à disposição do público em eventos especiais. 

 

ECV: Quais são as ciências que podemos encontrar dentro de um telescópio?

SLC: A construção e o funcionamento do telescópio envolve algum conhecimento de física e de geometria, mas seu uso nos proporciona o aprendizado de matemática, história, química, geografia e todos os ramos do conhecimento humano que se beneficiam do entendimento da natureza e do universo.  Aos poucos, a astronomia vai se aproximando da biologia quando fornece informações sobre as condições químicas e climáticas existentes em outros mundos e especula sobre a existência de algum tipo de vida em outros pontos do universo.

 

Ficou curioso e gostaria de admirar com seus próprios olhos? O grupo de astronomia do museu recebe o público interessado em olhar o céu todas as quartas-feiras, a partir das 19h. Estamos esperando por você! 

  

 Por Renata Fontanetto – Colaboradora de Jornalismo no Espaço Ciência Viva. Agosto 2013.