O Grande Cometa de 2013

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Dom, 17/03/2013 - 18:03
do Cometa Panstarr, tirada em março 2012 pelo astrônomo japonês Minoru Yoneto

Preparam-se, no final de 2013 vamos ter a aparição de um cometa brilhante no céu.  Trata-se do cometa ISON, descoberto ainda em 2012, mas que deverá passar bem perto do Sol no final de 2013.  Prevê-se que o cometa fique muito brilhante!

Ninguém mais do que os astrônomos profissionais e amadores de todo o mundo sonham com um grande e brilhante cometa no céu!Mas embora seja muito precisa em vários aspectos, a astronomia baseia suas previsões, muitas vezes, em comparações feitas com o comportamento de objetos semelhantes que já passaram pelo nosso firmamento.  Assim, estima-se a aparência do cometa em sua distante posição atual, calcula-se a sua trajetória futura e imagina-se a intensidade da sua evaporação quando exposto à intensa radiação solar.  Já estudamos muitos cometas e podemos traçar um comportamento mediano, mas não podemos ter certeza de que o tal cometa ISON seja como os outros até que ele comece de fato a “ferver” quando estiver mais perto do Sol.

Cometas são como grandes bolas de lama congelada, ou seja, muita água e terra misturadas e congelados pelo frio intenso do espaço.  Como permanecem quase o tempo todo nos confins do sistema solar, preservam-se por bilhões de anos até que se aventurem pelo sistema solar interior.  Ao mergulhar em direção ao Sol, e o ISON ainda está tão distante quanto Júpiter, a radiação solar que faria o gelo derreter, pelo simples fato de o cometa estar viajando no vácuo, faz com que a água passe do seu estado sólido diretamente para o estado gasoso, sem passar pelo estado líquido.  Esta passagem direta, chamada sublimação, provoca um imenso aumento no volume ocupado pela água.  Um aumento quase explosivo!  Por isto, ao se aproximarem do Sol, os cometas emitem fortes jatos de vapor que envolvem o núcleo do cometa e são soprados para longe pela radiação solar.  É por isto que vemos uma pela cabeleira difusa, que na verdade é o halo de vapor que envolve completamente o núcleo e uma longa cauda que aponta sempre na direção oposta ao Sol e que é o vapor soprado para longe.  A parte sólida do cometa levada para longe pela quase explosão do gelo, é deixada para trás, mas não é levada pela radiação solar.  Fica espalhada ao longo da órbita já percorrida pelo cometa, como se fosse um rastro de pó.  Dependendo da posição em que o cometa se apresenta no céu, é possível observá-lo com duas caudas distintas: uma de vapor apontando na direção oposta ao Sol e outra de poeira, mostrando o caminho já percorrido pelo cometa.  A foto recente do cometa Panstarr, tirada em março deste ano pelo astrônomo japonês Minoru Yoneto, mostra bem as duas caudas.

Eventualmente, quando a Terra passa por estes rastros de pó deixados pelos cometas, o choque desta poeira com a nossa atmosfera pode ser vista como uma chuva de meteoros!  Estes pequenos grãos, do tamanho de grãos de arroz, vaporizam-se na alta atmosfera terrestre e os vemos como estrelas cadentes.  A maioria das chuvas de meteoros conhecidas e para as quais existe um calendário bem estabelecido, está associada ao caminho percorrido por cometas que já passaram pelo firmamento.

As curvas de previsão do brilho do cometa ISON parecem realmente impressionantes, mostrando que o cometa brilhará mais do que a Lua cheia!  Mas a maioria das fontes jornalísticas omite o detalhe de que o cometa estará na mesma direção do Sol nesta época, ou seja, brilhará intensamente, mas também será completamente ofuscado pelo Sol!

Quer dizer que não veremos o cometa?

Não! Quero dizer que teremos que acompanhar o cometa ainda em sua aproximação ao Sol, observando seu brilho crescer madrugada após madrugada assim como diminui sua distância aparente ao Sol.  A partir de determinado momento, mesmo que brilhe intensamente, o cometa estará ofuscado pelo clarão do dia.

A imagem abaixo mostra o horizonte leste no Rio de Janeiro, pouco antes do Sol nascer (já considerando o horário de verão).

Uma boa madrugada para começar a acompanhar o cometa ISON será o amanhecer do dia 15 de outubro, quando o cometa passará bem perto de Marte.  O planeta vermelho se destacará pelo brilho amarelado e será o único objeto brilhante no céu um pouco à esquerda da direção do nascente, quase trinta graus acima do horizonte.  A partir desta madrugada, será fácil acompanhar o crescimento e o deslocamento do cometa.

Cada ponto no desenho corresponde a um intervalo de dois dias, assim, no dia 24 de novembro o cometa já estará muito baixo sobre o horizonte da alvorada para continuar sendo observado.

No dia 28 de novembro o cometa passará a apenas 110.000 quilômetros da superfície do Sol e se sobreviver, iniciará uma longa jornada aos confins do sistema solar e além, pois sua órbita tem uma trajetória parabólica que o levará para o espaço interestelar.  Mas depois de alguns dias, o cometa já estará se afastando do Sol e poderíamos tentar vê-lo ainda sublimando o gelo de sua superfície de forma explosiva.  Infelizmente, a geometria da órbita e nossa posição geográfica fará com que o cometa se desloque paralelamente ao horizonte na mesma altura do Sol, portanto completamente ofuscado.

 

Note que na figura acima, ainda que se mostrem estrelas no céu, o Sol já nasceu e são 7 horas da manhã!  Não se pode esperar ver o cometa nestas condições!

Aqui no Rio, e no hemisfério Sul de um modo geral, só nos resta acompanhar a aproximação do cometa durante o mês de outubro, antes do Sol nascer, mas a imprensa, certamente estará festejando o cometa todos os dias, pois no hemisfério Norte o cometa provavelmente dará um verdadeiro show!  Basta comparar as ilustrações da visibilidade do cometa nos mesmos períodos para a cidade de Paris, na França.

 

No inverno de Paris, o dia ainda não clareou às 8h00m da manhã.  Faz um frio terrível, mas haverá um grande cometa brilhando no céu na manhã de Natal...

 

Nota: O nome do cometa ISON refere-se ao International Scientific Optical Network, um conjunto de telescópios de pesquisas.  O telescópio que descobriu este cometa encontra-se na Rússia e tem um espelho principal com 40cm de diâmetro.  O mesmo tamanho de alguns dos telescópios construídos pelo Grupo de Astronomia do Espaço Ciência Viva.  A diferença de desempenho acontece porque o telescópio na Rússia está instalado bem longe das luzes urbanas e a observação não é feita com olhos humanos olhando através das lentes, mas dispositivos eletrônicos ultra-sensíveis capazes de detectar objetos muito tênues no céu.