O Tempo do Recorde

Compartilhe
Qui, 12/11/2009 - 11:21
Fonte: http://minimoajuste.blogspot.com

Em 1948, foi lançada aos nadadores de ponta a sunga de Lycra, em oposição à sunga de algodão utilizada anteriormente. Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, a inovação foi a touca impermeável da Speedo, que ficou famosa na cabeça de Mark Spitz e na sua quebra de Recorde mundial dos 100 metros. De 52 segundos e dois décimos, cravado por Michael Wenden para cinqüenta e um segundos e vinte e dois centésimos. Queda inacreditável de praticamente um segundo.

Com ao aperfeiçoamento dos tecidos sintéticos, houve um dos maiores avanços da História do esporte na confecção de roupas: a famigerada Pele de Tubarão. Utilizada pelos atletas olímpicos de 2008, em Pequim, esta gerou polêmicas homéricas em relação ao seu uso. Alguns críticos insinuaram que a pele poderia ser uma espécie de “doping científico”, algo da ordem do inumano. Fato é que Phelps ganhou oito medalhas e pulverizou sete recordes, tornando-se assim o maior medalhista olímpico numa mesma edição de Olimpíadas.

Tal observação pode ser feita também no Atletismo. Além de tecidos sintéticos que absorvem o suor, as sapatilhas que os atletas usam são cada vez mais leves. Isto, em longo prazo, acaba por definir o limite dos novos recordes.

É nesta nova realidade, onde a tecnologia se apossa da magia do esporte que cabem simples perguntas. Qual é a relação entre o tempo do recorde e o limite humano? E mais, o limite humano já não teria sido superado?

Talvez os gregos antigos já estivessem com a resposta para a segunda pergunta. Para evitar que dispositivos não se convertessem em vantagem para os atletas, por mais simples que fossem, como roupas, era expressamente proibido nos jogos olímpicos da idade clássica usar qualquer vestimenta, fosse para se proteger das pequenas pedras do chão, para otimizar a temperatura do corpo ou ainda se proteger do sol do mar Mediterrâneo, que costuma ser cruel no verão.

Porém não desfrutamos da mesma estrutura lógica dos fundadores do pensamento ocidental. Para nós, é perfeitamente aceitável que um atleta use roupas para aumentar a sua temperatura muscular e seus músculos funcionem a pleno vapor. Para isso existem os shorts térmicos. Acharíamos o cúmulo ver um corredor aparecer descalço num estádio olímpico. Ou não, visto que o etíope Abebe Bikila, em 1960, em Roma correu 42 quilômetros descalço e venceu a maratona! No entanto, isto era pobreza e o seu condicionamento a correr desta maneira. Não excentricidade.

Mas não é exatamente a radicalidade das olimpíadas helênicas que chamam a atenção, e sim seu método de raciocínio. O que havia nas antigas olimpíadas era um modo de assegurar a legitimidade do campeão olímpico, que de fato tinha o melhor corpo dentre os demais. Será que o tempo dos recordes realmente expressa a capacidade humana ou um par conjugado entre formas humanas e órgãos aperfeiçoados pela ciência?

A segunda opção parece a mais correta. Isso porque os conglomerados de material esportivo, patronos da ciência entre os atletas, agraciam alguns competidores aos quais julgam mais capacitados e conferem à eles o já citado doping científico. Sem contar que há, nos dias de hoje, empresas especializadas em dopings. O que estes laboratórios fazem é simplesmente desenvolver novos processos de doping que não sejam pegos no exame. A matéria de Rafael Soares atesta maiores detalhes da evolução da trapaça em competições oficiais. E para falar de doping científico, Francisco Jardim faz uma análise detalhada dos novos equipamentos que as empresas de material esportivo vêm fazendo. Assunto este último que converge para um terceiro assunto, a potência máxima da capacidade física humana e o auxílio das faculdades científicas para a chegarmos à “superação” dos limites.

Talvez o limite humano tenha se perdido pelos idos de 1945, quando a partir daí o uso de tecidos sintéticos passaram a fazer a diferença no desempenho dos atletas. Porém, antes disso, o que nós tínhamos eram materiais que atrapalhavam o alcance dos limites humanos, sendo impossível, antes do ano de 1945, precisar o quanto de capacidade humana era desperdiçada por falta de tecnologia. Assim, nunca saberemos, na atual condição do Atletismo, medir o que é superação do atleta e o que é logro científico.

Apesar do regime ao qual a vida atlética tem se subordinado, confinando os esportistas em verdadeiros QGs de treinamento, não podemos ignorar o ganho de tempo que os materiais esportivos proporcionam. Como dado positivo desta nova rotina de treinamento, atletas paraolímpicos chegam aos limites do até então inconcebível pela imaginação humana. Atletas paraolímpicos assistidos por cientistas que conseguem desempenhos melhores que os supostos normais. Exemplo célebre do velocista sul africano Oscar Pistorius, um corredor que, acreditem não tem metade das duas pernas. Com dois aparelhos mecânicos de fibra de carbono, este vencedor conquistou índice olímpico para disputar os jogos de Pequim. Com os detalhes desses heróis, Débora Ribeiro Coelho tem os detalhes do logros do esporte Paraolímpico.

É possível inferir, com uma boa dose sofística, que o humano e o não humano caminham lado a lado para assim produzir emoções, adulando ídolos biônicos. Estes que talvez estariam fadados ao fracasso, caso praticassem esses mesmos esportes em outras condições. Com tais avanços, os recordes continuarão baixando rumo à marca do cientificamente possível. E o verdadeiro limite humano só será conhecido quando os complexos tecnológicos-industriais se despirem de seus artifícios. Só desta forma se verá a naturalidade com que a ciência gera a fisiologia humana, a ponto de apenas se preocupar com a nutrição e técnica dos atletas. Este regime ao qual os atletas se sujeitam, foi um assunto muito bem abordado por Igor Costa.

Todas as polêmicas envolvendo esportes olímpicos, invariavelmente, denotam a entrada de um novo fator no cenário da competição: o desafio intelectual. De fato, hoje há cientistas que perdem o sono tentando converter seus conhecimentos bioquímicos e físicos em décimos de segundos a menos. Dedicam-se a surpreender a humanidade. “Peles de tubarão”, dietas enriquecidas e até mesmo produtos ilícitos não são compostos apenas daquilo que se imagina. São compostos também por tecidos neurais, compostos por cérebros, por assim dizer. São essas olimpíadas paralelas que fazem dos equipamentos um espetáculo à parte. Um espetáculo em que se é agregado em cada molécula um traço de inteligência e esmero humano.