Pesquisa, mobilização e engajamento em atenção à saúde pública no Brasil

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Dom, 12/03/2017 - 08:25

Mais de 50 pesquisadores da FIOCRUZ, UFRJ, UFF, UENF, IFRJ, FGV e ECV , sob a coordenação do Prof. Ricardo Lourenço (IOC/Fiocruz), elaboraram em rede o “projeto Aquisição de conhecimentos, tecnologias e informação para subsidiar a prevenção e controle vetorial e o tratamento da dengue, Zika e chikungunya”, que foi aprovado pela FAPERJ no início de 2016.

Vamos então falar aqui sobre o controle vetorial e a importância da participação social no combate à tríplice epidemia que se alastra pelo país: dengue, Zika e chikungunya. A ideia é discorrer sobre ações e iniciativas realizadas por alguns desses pesquisadores da Rede de Arboviroses. Quais os avanços obtidos até agora? A expertise acumulada pelos integrantes da Rede 2 já gerou a publicação de diversos artigos, registros de patente, ampliação do projeto Wolbachia (que visa a introdução de mosquitos infectados com a bactéria do gênero Wolbachia em locais específicos do Rio de Janeiro), além de campanhas de comunicação e aumento do número de eventos de capacitação, informação e divulgação junto a ações de saúde pública.

O Prof. Pedro Oliveira do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis/UFRJ concentra seus esforços de pesquisa em bioquímica e biologia de vetores de doenças, com ênfase no estudo de metabolismo de insetos hematófagos (que chupam sangue), colaborando com o avanço dos estudos do Aedes aegypti, transmissor da dengue, Zika e chikungunya. Ele mantém aproximadamente 15.000 mosquitos da espécie A. aegypti, em suas diversas fases do ciclo de vida, em um insetário anexo ao laboratório principal para testes científicos. Como esse mosquito se alimenta? Em que quantidades? Quais os principais nutrientes? Voltado especificamente para a digestão do mosquito, os trabalhos apresentados pela equipe do laboratório chefiado pelo Prof. Pedro vêm contribuindo para gerar nova tecnologia, capaz de se transformar em novas formas de controle do vetor.  Recentemente, por exemplo, foi patenteado (registro no INPI) o processo de controle seletivo de populações de artrópodes hematófagos, usando inibidores das enzimas do metabolismo do aminoácido tirosina.

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Prof. Pedro Oliveira com mosquitos Aedes aegypti no laboratório da UFRJ

 

Entretanto, como estratégica básica preventiva, o Prof. Pedro alerta a população para a importância, principalmente nos meses do verão, da prática de ações simples para o controle físico do Aedes.

- Todos devem “dar uma geral” em suas casas periodicamente, como por exemplo, vistoriar e vedar a caixa d’água, deixar os baldes virados com a boca para baixo a fim de evitar a formação de criadouros de mosquitos – recomenda o professor.

Outro pesquisador integrante da Rede 2, Prof. Rafael Maciel de Freitas atua no Laboratório de Transmissores de Hematozoários  do IOC/Fiocruz, lidando principalmente com a biologia de vetores, em especial aqueles envolvidos na transmissão de doenças como dengue e malária, e como parâmetros da biologia desses insetos influenciam sua capacidade vetorial e, consequentemente, a dinâmica de transmissão das doenças por eles veiculadas.   Rafael enfatiza a importância do trabalho de interface entre a bancada de laboratório e o campo.  Uma de suas principais contribuições é sua participar ativamente no projeto Wolbachia, onde ele já esteve na coordenação de liberação e soltura, em áreas pré-determinadas, dos mosquitos infectados com a bactéria do gênero Wolbachia. O objetivo desse trabalho - que já apresentou resultados eficazes nos testes iniciais feitos em Tubiacanga, na Ilha do Governador - é substituir, gradativamente, as populações naturais de Aedes aegypti (sem Wolbachia) por mosquitos infectados com a bactéria, que não são mais capazes de transmitir o vírus da dengue. Para aumentar a abrangência da investigação, os testes agora já foram ampliados para outras áreas, como Jurujuba, em Niterói, e diversos bairros do município do Rio de Janeiro. O projeto propõe uma abordagem sustentável, de médio e longo prazo, pois, após o estabelecimento de Aedes aegypti com Wolbachia no ambiente, a bactéria passa a ser transmitida naturalmente para as gerações seguintes de mosquitos, sem trazer danos à saúde humana.  

- Toda essa estratégia, que se propõe a reduzir a incidência da dengue, liberando mais mosquitos infectados com Wolbachia no meio ambiente, requer também a conscientização e o apoio da população local através do diálogo constante dos pesquisadores com representantes das associações de moradores, lideranças comunitárias, igrejas e escolas – afirma Rafael. 

Já a Prof. Ana Cristina Bahia Nascimento do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho/UFRJ possui experiência nas áreas de Biologia Celular e Molecular, Imunologia e Microbiologia, e, assim como outros pesquisadores da Rede 2, também vem se preocupando com a administração dos recursos - até então escassos - para dar continuidade aos trabalhos em andamento. No laboratório, ela e seus orientandos se debruçam sobre a influência da microbiota na susceptibilidade de mosquitos vetores ao vírus dengue. O foco é identificar e isolar fungos, por exemplo, que podem bloquear o desenvolvimento do vírus da dengue no mosquito transmissor.

- A nossa atuação está voltada para descobrir formas para inibir ou impedir o desenvolvimento do vírus no sistema imunológico do mosquito – garante a professora.

Como estamos todos lidando com uma questão emergente e urgente de saúde pública, a expectativa é que os esforços coletivos aliados à imediata liberação de verbas destinadas à pesquisa científica consigam encurtar caminhos para encontrar soluções sustentáveis nesta luta contra o Aedes.

Denise Valle, pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Flavivírus do IOC/Fiocruz, fala de diferentes aspectos das doenças transmitidas pelo Aedes e enfatiza a importância da sensibilização, da mobilização social, do papel do cidadão no combate ao mosquito.  Organizadora e uma das autoras do livro Dengue: teorias e práticas, Denise afirma que o controle químico tem a sua parcela de eficácia – apesar do desenvolvimento da resistência do Aedes aegypti por uso indiscriminado de inseticidas - porém ela faz a seguinte ressalva: “Não podemos esquecer que cerca de 80% dos criadouros dos mosquitos encontram-se dentro das casas das pessoas. O controle físico ou mecânico é, então, imprescindível.”

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Prof. Denise Valle: peça da campanha “10 minutos contra o Aedes”


O caminho passa, sim, pela cidadania, pela disseminação eficaz do conceito de “10 minutos contra o Aedes”.  Conforme preconiza a campanha, com apenas uma ação semanal de curta duração, é possível interromper o ciclo de vida do mosquito – impedindo que os ovos se transformem em mosquitos adultos, capazes então de transmitir os vírus da dengue, Zika e chikungunya . É claro que o controle do Aedes também depende de outras ações coletivas governamentais, como a coleta regular do lixo e o abastecimento adequado de água. É necessário, pois, unir todas as forças de cunho político, científico e social, bem como parcerias estratégicas em prol do combate ao vetor e, consequentemente, na redução dos casos das doenças e suas respectivas sequelas.

- É preciso olhar para essa situação com objetividade, reunir esforços e investir mais e mais na sensibilização e na comunicação com os diversos setores da sociedade em busca de comprometimento e engajamento - reforça a pesquisadora.

Dentre o conjunto de ações e iniciativas coordenadas por Denise, em parceria com o setor de comunicação do Instituto Oswaldo Cruz, destacamos o desenvolvimento e a disseminação dos “10 minutos contra o Aedes” de modo a privilegiar a ideia de conceito/conduta; atualização das “vídeoaulas dengue”, incluindo práticas de vigilância, controle e prevenção; formação de multiplicadores (‘dengue training’) como jornalistas, gestores escolares, professores e líderes comunitários; e palestras voltadas para grupos específicos.  A fim de promover agilidade e acesso à informação de fonte científica, permitindo ainda o diálogo entre os integrantes da Rede Arboviroses, um novo site com conteúdo gerado a partir das diretrizes do projeto - publicações, vídeos, protocolos, jogos educativos e material multimídia relacionado à prevenção e ao tratamento da dengue, Zika e chikungunya  - está em construção e, em breve, será lançado.

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Beatriz Lemos: apresentação do jogo Aedes aegypti no ECV

 

O Espaço Ciência Viva (ECV) também é instituição participante da Rede 2 e atua fortemente no eixo de temático da “comunicação, educação e informação com ferramentas para a prevenção e controle”. Entre os diversos módulos e atividades elaboradas para atendimento a grupos escolares e ao público em geral, nos Sábados da Ciência, o Cantinho do Aedes, Vida de Aedes aegypti, Ciência e Arte sem Dengue são sempre lembrados pelos visitantes do museu.  Insetos é uma das áreas de conhecimento bastante explorada no ECV, onde se concentram as oficinas que permitem crianças e adultos observarem ao microscópio lâminas com as diferentes fases do mosquito (ovo, larva, pupa e adulto), identificarem os principais criadouros do Aedes, discutirem sobre formas de prevenção, especificidades, sintomas e possíveis sequelas das doenças. A proposta envolve ainda encenação, desenhos e pinturas e montagem de protótipos de insetos para manter vivo o interesse pelo tema, sensibilizando um número crescente de pessoas. Como exemplo, podemos citar a seguinte atividade realizada no ano passado: mediadores vestidos de “Aedes aegypti fêmeas” contendo o vírus da dengue picavam visitantes. Em seguida, estes eram convidados a entrar no interior de um vaso sanguíneo (uma grande instalação em 3D) e a detectar o vírus, abrindo a discussão sobre a infecção viral e seus principais efeitos na circulação sanguínea.

Com a intenção de estreitar ainda mais os laços entre pesquisa e divulgação de qualidade, Beatriz Lemos, mestre em Ecologia e também integrante da Rede 2, sob a orientação das Profs. Eleonora Kurtenbach (UFRJ) e Tânia Goldbach (IFRJ), convidou alguns pesquisadores da Rede para contribuir na melhoria do conteúdo do jogo que está desenvolvendo sobre a biologia e o comportamento do Aedes aegypti.

Em 2016, diversos professores, entre eles pesquisadores da Rede 2 já citados aqui - Pedro Oliveira, Ana Bahia, Eleonora Kurtenbach e Tânia Goldbach, por exemplo, atuaram como mediadores dos Sábados da Ciência, eventos temáticos promovidos mensalmente pelo Espaço Ciência Viva. Eles levaram aos visitantes do museu, via atividades lúdicas e interativas, conhecimento atualizado e orientações-chave para o controle dos insetos transmissores da dengue, Zika e chikungunya.

No sábado, 18 de março, das 14h às 18h, o Espaço Ciência Viva abrirá suas portas para o primeiro Sábado da Ciência de 2017 “Entendendo ConsCiência”, que integrará a Semana Nacional do Cérebro.  Neste dia, um grupo de graduandos e pós-graduandos, também sob a coordenação das professoras Eleonora e Tânia, apresentará ao público uma oficina-atividade focada nas implicações existentes na tríade Aedes-Zika-Cérebro. Vale conferir!