Quais são os tipos de hepatite e o que elas causam?

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Seg, 27/05/2013 - 11:07
Dra. Luísa Hoffamann

 

Para responder essa e outras perguntas, fomos ao Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho – IBCCF/UFRJ, conversar com a pesquisadora e colaboradora do ECV, Luísa Hoffmann. Luísa é pós doutora em Biologia Molecular e atualmente trabalha no Laboratório de Metabolismo Macromolecular Firmino Torres de Castro, onde pesquisa especialmente Hepatite C.

 

Fizemos também um panorama animado de um tipo de hepatite muito peculiar e com alto grau de incidência na Região Norte do país: a hepatite Delta ou D que, diferente de todas as outras, manifesta-se somente em caso de infecção simultânea com o patógeno da hepatite B. As informações para os slides foram fornecidas pelo pós-doutor em Biologia Molecular pela University of Massachusetts e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Edson Rondinelli. Clique aqui para conferir os slides!

 

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ECV: O tema do último Sábado da Ciência foi: Hemomania: os enigmas do Sangue, qual a relação das hepatites com a temática do evento?

Luísa Hoffmann: Grande parte dos casos de hepatite ocorre pelo contato com sangue contaminado com um dos vírus causadores, principalmente o B e o C.

ECV: Por que há hepatites diferentes? Elas têm alguma ligação entre si?

Luísa Hoffmann: Hepatites tem em comum sua definição: são inflamações no fígado. Entretanto, os fatores que provocam tais infecções podem ser bem distintos como vírus, medicamentos ou reações do sistema imune. As hepatites nomeadas por letras de A até E tem origem viral e diferem das demais também por sua evolução e manifestação clínica.

ECV: A doença pode manifestar-se de formas diferentes dependendo das condições do organismo?

Luísa Hoffmann: Sim. Estudos genéticos e clínicos demonstram que tanto fatores inerentes ao vírus quanto ao sistema imunológico do paciente influenciam na manifestação da doença Além disso, alguns elementos podem favorecer a progressão para cirrose hepática como, por exemplo, as coinfecções com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) ou da hepatite B (HBV). Sabe-se também que jovens, mulheres e pessoas sem histórico de consumo alcoólico apresentam menor risco de progressão para cirrose ( observadas as mesmas condições de infecção).

ECV: A cirrose hepática, no senso comum, é diretamente associada ao consumo excessivo  de álcool, entretanto, segundo dados do Ministério da Saúde 43% dos casos estão ligados à forma crônica da hepatite C. O que a cirrose causa no organismo e porque o vírus da hepatite C é capaz de provocá-la?

Luísa Hoffmann: A cirrose é uma condição anormal do fígado com a presença irreversível de cicatrizes. Advém da destruição do tecido hepático saudável e substituição por tecido cicatrizado (fibroso) um bloqueio da passagem de sangue pelo fígado que influencia diretamente  em  suas funções orgânicas.

Os vírus da hepatite C (HCV) e hepatite B (HBV) são capazes de provocar cirrose, pois o dano e inflamação que causam ao fígado são constantes, assim como as lesões que decorrem do álcool. Reforça-se, logo, a recomendação de que pacientes com hepatite não consumam bebidas alcoólicas sob risco de agravar o quadro da doença.

ECV: Por que há vacina apenas contra os vírus das hepatites A e  B?

Luísa Hoffmann: O vírus da hepatite C apresenta uma alta variabilidade genética sendo classificado em sete tipos (genótipos), mais de 50 subtipos e ainda em quasi-species, isto é, diferentes populações virais de um mesmo tipo viral.

O vírus da hepatite C possui um genoma de RNA e a enzima responsável pela replicação do mesmo não corrige eventuais erros de replicação. Essas falhas geram altas taxas de mutação e dificultam tanto a eliminação do vírus pelo sistema imune do paciente quanto  o desenvolvimento de uma vacina eficiente.

ECV: Hepatite C tem cura? Qual o tratamento mais eficiente?

Luísa Hoffmann: Cura é um termo controverso em hepatite C. Prefere-se o termo resposta virológica sustentada que ocorre quando se confirma a eliminação viral seis meses após o término do uso de recursos terapêuticos.

Atualmente o tratamento considerado mais eficaz é a tripla terapia- com as drogas padrão interferon,  peguilado e ribavirina (PEG-IFN/RBV)- associada a um inibidor de protease (telaprevir ou boceprevir) já aprovado para uso clínico pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Contudo, de acordo com o protocolo de tratamento do Ministério da Saúde, publicado em 2013, a utilização de inibidores de protease exige alguns requisitos básicos, entre os quais estão: a monoinfecção com o vírus da hepatite C (HCV), a infecção com HCV genótipo um, fibrose hepática avançada, doença hepática compensada e ausência de tratamento prévio com inibidor de protease.

ECV: Mas, o que posso fazer para não ter essas doenças?

Luísa Hoffmann: A prevenção é realmente essencial. Evitar a hepatite A requer ter higiene pessoal e investimento público em condições de saneamento básico, uma vez que a transmissão é oral-fecal (contato inter-humano ou água e alimentos contaminados). Lavar os alimentos, não comer alimentos crus ou mal passados e lavar as mãos antes das refeições mostram-se, portanto excelentes medidas profiláticas.

Já a transmissão do vírus da hepatite B (HBV) se faz por via parenteral - de mãe para filho - e, principalmente, pela via sexual fato que caracteriza a hepatite B como uma DST (doença sexualmente transmissível). Para preveni-la podemos: usar preservativos em relações sexuais de qualquer tipo, não compartilhar drogas injetáveis, tomar as vacinas contra hepatite B no período correto (distribuída gratuitamente pelo SUS para pessoas até 29 anos), além verificar a esterilização de utensílios (ou uso de materiais descartáveis) nos serviços de manicure, colocação de piercings e tatuagens. A hepatite C como também é transmitida principalmente pelo sangue (e um menor número de casos pela via sexual) tem medidas preventivas análogas as da hepatite B, com exceção, é claro, da vacinação.

 

Por Daiane Cardoso – Estagiária de Jornalismo no Espaço Ciência Viva