A Sexualidade na medida de Kinsey

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Ter, 04/12/2007 - 15:41
Alfred Kinsey / Fonte: http://noticiasprofamilia.blogspot.com

Tudo bem, já sabemos que a sexualidade é um atributo bastante natural entre os animais, mas desde que o Homem se entendeu por “Gente”, que seu comportamento sexual foi culturalmente despido da roupagem biológica e tornou-se imbuído de fatores místicos, morais e religiosos. Outrora, acreditou-se por exemplo que a masturbação pudesse levar à loucura, e que as más-formações dos bebês seriam conseqüências dos pensamentos pervertidos dos pais durante o ato sexual. Esse foi o principal tipo de pensamento que regeu nossa sexualidade até mais ou menos a virada do século XX, época em Sigmund Freud introduziu a sexualidade humana no campo das pesquisas científicas. Esse pontapé inicial deu origem a um grande cientificismo sobre a conduta sexual de homens e mulheres, chegando a estrondoso ápice com a abordagem absolutamente empírica do biólogo norte-americano Alfred Kinsey - fundador do Instituto de Pesquisa sobre Sexo na Universidade de Indiana, em 1947, atualmente chamado Instituto Kinsey para Pesquisa sobre Sexo, Gênero e Reprodução.


Antes dos anos de 1920, o estudo acadêmico sobre a sexualidade humana era praticamente restrito à investigação do que era considerado exótico, curioso, neurótico, violento ou ilícito. Foi nessa época que surgiu um grupo de pesquisadores interessados pelo cotidiano sexual de pessoas consideradas “normais”, ou seja, sujeitos da classe média sem precedentes criminais, sem histórico psiquiátrico, com escolaridade relativamente alta, perfeitamente encaixados nos preceitos da sociedade norte-americana tradicional daquele momento. Essa geração de pesquisadores foi precursora de uma metodologia de trabalho baseada na amostragem científica, no uso de questionários, na apresentação de dados em tabelas e estatísticas, recursos estes que nortearam as conclusões de Kinsey sobre o sexo em sua sociedade.


Considerado o criador da sexologia como disciplina acadêmica, Kinsey conseguiu que a renomada Fundação Rockefeller financiasse, a partir de 1935, um longo projeto científico com o qual ele procurava saber como era a rotina sexual de seus compatriotas. Questões como masturbação, homossexualidade, orgasmo, sexo pré-matrimonial e adultério foram estudadas por meio de entrevistas feitas a milhares de americanos por todos os cantos do país. Mais tarde, sua equipe realizou também dezenas de filmagens sobre práticas sexuais, todas com o consentimento dos voluntários filmados. Este trabalho resultou nos Relatórios Kinsey, condensados nos dois livros O comportamento sexual do homem (1948) e O comportamento sexual da mulher (1953), além de render a Kinsey o rótulo de ser “uma das personalidades mais polêmicas do século XX”.


Com os Relatórios Kinsey, o mundo acabava de descobrir que existia uma enorme disparidade entre as posturas públicas e o que de fato acontecia na privacidade dos americanos. Masturbação, sexo pré-conjugal e homossexualidade eram, por comprovação estatística, muito mais freqüentes do que era exibido socialmente. Sob uma ótica extremamente naturalista, Kinsey concluiu que grande parte dessas condutas sexuais surgiram no decorrer do processo evolutivo dos mamíferos, e que o Homo sapiens, nesse caso, se distinguiria de seus parentes “animais” apenas no que diz respeito às regras culturais impostas para nossa espécie. Nesse âmbito, suas conclusões sobre a variedade de gêneros na espécie humana talvez tenham sido as mais estarrecedoras. Kinsey advogava que a categorização dos seres humanos em “heterossexuais versus homossexuais” seria um erro, pois, segundo ele, entre um estado e outro existiria um continuum de sexualidades que ele representou em uma escala de zero a seis. Para Kinsey, essa escala representaria a diversidade da natureza, de forma que o posicionamento em qualquer ponto dentro dela seria bastante natural.