Superar e Inovar

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Qua, 10/03/2010 - 10:39
Exemplo de atleta paraolímpico

Como as Paraolimíadas se relacionam com as novas tecnologias

A tecnologia mudou os paradigmas do esporte e fez suscitar questionamentos a respeito da linha tênue que separa o desempenho dos atletas e o papel dos mecanismos tecnológicos na superação dos limites impostos pelo corpo. Os jogos paraolímpicos, de modo especial, traduzem bem o que vem ocorrendo nos esportes. O que era associado a uma atividade de lazer, reabilitação ou busca por bem-estar, tornou-se algo profissionalizado e campo para o desenvolvimento de tecnologias.

As primeiras Paraolimpíadas ocorreram em Roma, em 1960, logo após os XVI Jogos Olímpicos. Depois de uma série de iniciativas isoladas de estímulo ao desenvolvimento de atividades esportivas para pessoas com necessidades especiais, realizava-se uma série de jogos que reuniriam 23 países competindo em oito modalidades. O Brasil, entretanto, só participaria em 1972, na Alemanha. Desde então, muitas foram as mudanças. Cada vez mais países enviam seus atletas, foi ampliado o número de modalidades e sofisticado o suporte técnico das competições. Se na década de 60 só eram utilizadas cadeiras de roda de madeira, hoje elas são de fibra de carbono ou alumínio; o tempo de um velocista cego era de mais de 16 segundos e agora não passa de 12. Vivemos num momento de tempos recordes, de quebra de expectativas, em que as Paraolimpíadas ganham destaque na mídia e no público.

Dentro desse processo surgem as polêmicas: até que ponto a tecnologia é superação? Quando ela começa a representar vantagens de um atleta sobre o outro? A história do velocista sul-africano Oscar Pistorius é um ótimo exemplo dessas indagações. O atleta, conhecido como “blade-runner”, corre com duas próteses de fibra de carbono nas pernas e obtém ótimos resultados. Registrou recordes impressionantes para atletas deficientes nos 100 metros (10,91 segundos), 200 metros (21,58 segundos) e 400 metros (46,34 segundos).

Pistorius teve sua participação nos Jogos Olímpicos de Verão de 2008 vetada pelo conselho da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) porque suas próteses trariam benefícios por serem mais flexíveis e potentes que a perna humana. Foram realizados estudos que constataram que o atleta teria um desempenho 25% melhor que seus concorrentes. Ele recorreu da decisão sob a alegação de que suas desvantagens não haviam sido avaliadas: a perda de energia ou geração de força pelas articulações do joelho e dos quadris e o impacto da amputação sobre o ponto de contato entre a prótese e a perna.

O velocista só teve sua participação liberada quando apresentou um relatório baseado nos estudos de sua própria equipe de cientistas. O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) permitiu que o sul-africano competisse na prova dos 400 metros nas Olimpíadas convencionais em Pequim desde que obtivesse uma marca mínima, mas poderia participar do revezamento 4 x 400 metros, independente do seu tempo. Pistorius, no entanto, garantiu apenas o terceiro lugar nos 400 metros com o tempo de 49seg25 enquanto o índice olímpico para a prova é de 45seg95.

Uma das principais preocupações que giravam em torno do caso de Oscar Pistorius era a possibilidade de que ele ultrapassasse, inclusive, os maiores velocistas do mundo em decorrência do uso das próteses. "Não me vejo como um deficiente”, disse o loiro que se recusa até a estacionar em vagas reservadas para deficientes. "Não há nada que os atletas normais façam que eu não possa fazer".

Ao mesmo tempo em que a tecnologia se apresenta como geradora de polêmica é indiscutível que ela viabiliza grande parte das modalidades paraolimpícas. Um bom exemplo disso é o futebol para cegos ou também chamado futebol de cinco (five-a-side football), que estreou nas Paraolimpíadas recentemente, em 2004. Para que o esporte alcançasse o dinamismo necessário e garantisse segurança aos competidores, foram realizadas algumas adaptações na quadra, na bola e nas próprias regras.

Os atletas que disputam essa modalidade pertencem apenas à classe B1, possuem grau de visão muito próximo ou igual a 0%. Mas para evitar disparidades entre os participantes provocadas por possíveis resíduos visuais, todos utilizam um tampão oftalmológico recoberto por uma venda. Com a exceção do goleiro, que não possui deficiência e nem utiliza venda. Mas para que não influa na partida, sua área de atuação é reduzida a uma pequena zona retangular de 2 por 5 metros, próxima ao gol. O futebol de cinco é praticado em uma quadra de futebol de salão adaptada com uma banda lateral, conjunto de compensados de madeira de um metro e meio de altura que percorre toda a lateral da quadra. A bola, então, só sai de jogo pela linha de fundo.

Há algumas peculiaridades como a presença de um guia (chamador) posicionado atrás do gol adversário que orienta os jogadores de ataque de sua equipe. Mas a grande inovação fica a cargo da bola utilizada, que foi especialmente produzida para o futebol de cegos. Ela tem a superfície recoberta por gomos dentro dos quais são acondicionados e costurados guizos de ferro. Quando a bola está em movimento, esses guizos balançam no seu interior e o som produzido orienta os atletas. O silêncio no estádio, portanto, é um elemento fundamental.

No início, quando não havia o material especializado que se tem hoje, era comum que os deficientes visuais utilizassem garrafas plásticas com pedrinhas dentro. Depois se percebeu que uma bola comum envolta em um saco plástico fazia barulho em seu deslocamento e permitia uma maior mobilidade dos jogadores. No entanto, esta técnica esbarrava na falta de durabilidade das sacolas. Foram feitas tentativas mais ousadas, como prender os guizos fora da bola, o que não deu muito certo. Houve, então, uma grande evolução até chegar à bola atual que é, inclusive, produzida no Brasil.

No âmbito dos esportes voltados para pessoas com necessidades especiais, a tecnologia viabiliza a prática de modalidades como futebol de cinco, o basquete em cadeira de rodas e a vela adaptada. Realiza um papel fundamental de inclusão social. Entretanto, quando os aparatos técnicos e as inovações começam a favorecer um ou outro atleta é sinal de que está na hora do break. Seja nas Olimpíadas convencionais ou nas Paraolimpíadas, a competição deve ser justa, dentro dos limites da ética que rege os desportos.

Débora Ribeiro Coelho – Estagiária de Jornalismo Científico