Tudo Pela Vitória?

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Qua, 09/09/2009 - 10:55
Maurren Maggi / Fonte: http://www.globo.com

Casos recentes no esporte brasileiro reacendem debate sobre doping no país

O ano era 2003. Uma das maiores esperanças do esporte brasileiro para as Olimpíadas do ano seguinte – que aconteceriam em Atenas – era a saltadora Maurren Maggi, detentora da melhor marca do planeta na época. No entanto, em abril desse mesmo ano, um exame antidoping indicou a presença da substância clostebol, a primeira na lista de substâncias proibidas da Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), em seu sangue. Era só o início de dois anos fora do esporte. Hoje, em 2009, passados seis anos do acontecimento, uma filha e um ouro olímpico em Pequim, a atleta virou um exemplo de superação no esporte brasileiro.

O caso de Maurren, sem dúvida, abriu os olhos do país para a questão do doping no esporte, até então, algo que parecia muito distante. Atualmente, notícias de atletas brasileiros pegos no exame antidoping viraram rotina nos grandes veículos de comunicação do país. A nadadora Rebeca Gusmão, os jogadores de futebol Dodô e Romário e, mais recentemente, a ginasta Daiane dos Santos são alguns exemplos de atletas punidos por suas respectivas federações. Porém, paralelamente ao aumento no número de casos, há um aumento proporcional no número de formas de burlar o exame, elaboradas por treinadores e, às vezes, pelos próprios atletas.

Raízes do doping

Substâncias usadas com o objetivo de melhorar a performance de atletas já eram comuns na China no século III a. C., onde o ópio era uma substância usada em larga escala com o intuito de relaxar quem o usasse. Na Grécia Antiga esse uso também era comum. As primeiras Olimpíadas da Era Moderna, datadas de 1896, em Atenas, teve como uma de suas mais marcantes características o uso de pastilhas estimulantes, muitas compostas por substâncias como a cocaína. Porém foi a partir dos Jogos de Berlim, em 1936, que houve um crescimento vertiginoso dos casos de doping, afinal era importante para o regime nazista alemão mostrar sua superioridade sobre as outras raças. Foi assim que o doping passou a funcionar também como um artifício político, ao mostrar a força dos atletas que usavam essas substâncias, como pode ser observado em larga escala nas Olimpíadas da chamada “Guerra Fria”, em que Estados Unidos e Rússia lutavam para mostrar sua supremacia através do largo uso de asteróides anabolizantes em seus atletas. Somente a partir da década de 60, o doping passou a ser pesquisado e condenado, como mostra a desclassificação de atletas usuários de estimulantes nas Olimpíadas de 1968, no México.

É possível que haja um fim para o doping?

A resposta para essa pergunta ainda permanece obscura, apesar dos avanços nas técnicas de rastreamento e controle de casos de doping, além do grande aumento no número de substâncias proibidas, o que mostra o avanço da ciência na descoberta do efeito dessas substâncias no corpo de um ser humano. Hoje em dia já existem cinco tipos de substâncias proibidas pelas federações esportivas do mundo inteiro, de acordo com duas entidades respeitadas no mundo esportivo, a Federação Internacional de Futebol (FIFA) e o Comitê Olímpico Internacional (COI). São elas: os estimulantes, usados para aumentar o estímulo dos sentidos, diminuir a fadiga e aumentar a atenção; os narcóticos, que diminuem a sensação de dor; os esteróides anabólicos, utilizados no aumento da massa muscular; os diuréticos, utilizados na diminuição de peso; e os hormônios peptídicos, que possuem diversas funções, acelerar o crescimento corporal e diminuir a sensação de dor. É importante ressaltar que suplementos alimentares, tão em voga ultimamente, não constituem doping, já que são formados por substâncias que são ingeridas numa alimentação comum e não influenciam o desempenho de um atleta a ponto de serem proibidos, de acordo com o médico oficial de controle de doping do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Rafael Trindade. Outras drogas, como a maconha e o álcool, e também técnicas de manipulação de resultados de testes como a Autohemotransfusão – injeção de sangue pouco antes de uma competição – também são proibidas.

Exemplo de esteróides anabolizantes

O que preocupa as autoridades do mundo esportivo não é somente a melhora na performance provocada por essas substâncias, mas também os danos à saúde que elas podem acarretar, como um aceleramento descomunal dos batimentos cardíacos ou um aumento na viscosidade do sangue, casos que podem levar à morte. O principal exemplo é o do ciclista dinamarquês Knut Jensen, vítima de uma dose fatal de anfetamina em plena corrida, nas Olimpíadas de Roma, em 1960. É nesse ponto que a discussão sobre a ética no esporte se junta com a preocupação com a saúde dos atletas. Foi nesse contexto que a Federação Internacional de Medicina Esportiva (FIMS) se posicionou da seguinte forma em seu boletim oficial, datado de 1998: “A FIMS apóia a proibição do doping para proteger os atletas de: 1) Uma vantagem desleal que pode ser obtida por atletas que utilizam substâncias ou métodos proibidos para melhorar o desempenho. 2) Os possíveis efeitos colaterais prejudiciais à saúde que algumas substâncias e métodos podem produzir”.

Esses são os principais motivos que levam o COI e federações do mundo inteiro a aumentarem o cerco ao doping. Além do número de substâncias listadas, que aumentou vertiginosamente a partir da década de 70, o controle e os exames são mais severos. No entanto, o trabalho das federações é mais árduo, na medida em que a questão passa para o campo jurídico e, muitas vezes, casos claros de doping são absolvidos na justiça por conta de argumentos que não seriam aceitos com base na ética esportiva, como mostra o caso de Daiane dos Santos, flagrada pelo uso da substância furosemida, um tipo de diurético, porém não imediatamente punida, afinal seu caso está em julgamento pela Federação Internacional de Ginástica (FIG). Já com o COI, nunca houve problemas, afinal suas decisões são soberanas e não passam por qualquer instância jurídica. Assim, os exames feitos durante as Olimpíadas têm seus resultados divulgados de forma rápida e precisa e as decisões não levam muito tempo.

O procedimento acontece da seguinte maneira: os vencedores das competições individuais e alguns atletas sorteados de equipes nos esportes coletivos são obrigados a permitir que sua urina seja analisada; o material é então divido em dois frascos, a prova e a contra prova. O resultado do exame é enviado, em envelope lacrado, ao presidente do Comitê Antidopagem do COI. Se esse resultado for positivo, o próprio presidente pede para o laboratório analisar a contraprova e, com a confirmação da presença de alguma substância proibida, o exame é divulgado e o atleta vai a julgamento por membros do próprio COI. Além dos atletas vencedores, o COI também realiza exames surpresa regulares nos principais atletas do mundo.

Rebeca

Apesar desses inquestionáveis avanços, o futuro aponta também para um desenvolvimento das técnicas de dopagem. Atualmente, já existem diversas maneiras de burlar os exames antidoping realizados pelo COI. A mais recente é a “dopagem genética”, ainda em fase de testes. Essa dopagem consiste na injeção de vírus ou proteínas geneticamente modificadas no organismo de um atleta, com o objetivo de induzi-lo a produzir hormônios que aumentem sua resistência ou força.

A partir desse pensamento no futuro, o esporte passa a se confrontar com uma questão ética. O uso de substâncias que modificam a performance esportiva e intelectual de indivíduos passou a ser objeto de estudo de pesquisadores e estudiosos do mundo inteiro, na medida em que esse uso passou a significar uma vantagem desproporcional para seus usuários, deixando de lado o talento natural. Um exemplo claro dessa preocupação é a reportagem “Turbinando o cérebro”, publicada pelo Jornal O Globo de 20 de junho de 2009, mostrando os perigos do uso da ritalina, utilizada para aumentar os níveis de concentração de quem a usa. No esporte, a preocupação com a ética também se mostra clara. A propagação de diversas campanhas milionárias divulgando a transparência e o jogo limpo, como o “Fair Play”, veiculada pela Fifa, e trabalhos elaborados por pesquisadores do mundo inteiro visando a difusão de um ideal esportivo mais saudável e limpo são claros exemplos dessa prática.

Rafael Pinto Soares – estagiário de jornalismo científico