Um mal invisível mas onipresente

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Qua, 29/08/2012 - 13:45
Cartilha sobre Desreguladores endócrinos

Desreguladores endócrinos: um mal invisível mas onipresente

Cientistas alertam sobre o perigo de substâncias tóxicas

 

Bisfenol-A, ftalatos, flavonóides, metilmercúrio. Essas substâncias, desconhecidas para a maioria das pessoas, são alguns dos poluentes ambientais que interferem no sistema endócrino, os “desreguladores endócrinos”. Um dos estandes da Cúpula dos Povos da Rio+20, montado no Aterro do Flamengo pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) de 15 a 22 de junho, teve por objetivo justamente conscientizar a população com distribuição de fôlderes educativos. Os desreguladores vão desde inseticidas e pesticidas a iodo e metais pesados (mercúrio, chumbo, zinco), e são encontrados em plásticos, agrotóxicos, telhas de amianto, tintas de parede, colchões, produtos de limpeza, cosméticos e até medicamentos. A exposição a essas toxinas pode causar doenças sérias como diabetes, obesidade, câncer de mama, de próstata, disfunção ovariana, infertilidade e problemas na tireoide.

Denise Pires de Carvalho

 

Segundo Denise Pires de Carvalho, diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, o que é grave no desregulador é que ele não depende da dose. “A exposição aguda causa efeitos maléficos e pode ser fatal, mas a exposição crônica, de doses baixinhas, leva a efeitos que sequer percebemos”, alerta. Os estudos epidemiológicos é que determinam a correlação entre a exposição à substância e a existência da doença. Assim, é preciso começar as experiências em modelos animais para traçar um perfil da enfermidade, e só depois analisar humanos contaminados e compará-los a grupos de controle. No caso, experimentos em ratos e camundongos comprovam os efeitos nocivos dessas substâncias.

No laboratório de fisiologia endócrina do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, são feitos experimentos com o bisfenol-A (BPA), ftalatos e metilmercúrio. Os dois primeiros são encontrados no plástico e o último, em águas poluídas. “O bisfenol-A não foi banido do Brasil ainda, mas já é ilegal na Europa e nos EUA”, afirma a diretora. Ele é uma das maiores preocupações, já que sempre que se esquenta plásticos, o BPA é liberado. “O uso de plásticos em microondas e garrafas d’água em um país quente como o nosso são fatores agravantes, pois uma vez que o bisfenol-A é liberado, não adianta resfriar o recipiente que ele não volta.” De acordo com a cientista, o BPA inibe algumas enzimas relacionadas ao metabolismo energético. “Isto é claramente percebido em laboratório.”

Isso vale também para latinhas de refrigerantes, que têm a substância em sua composição para impedir a oxidação do alumínio, e até para chupetas e mamadeiras. Para a pesquisadora, as duas únicas soluções são ou usar plástico livre de BPA ou voltar a usar garrafas de vidro. Segundo ela, os plásticos livres de BPA podem ser encontrados em redes de supermercado estrangeiras e não são muito mais caros que os comuns. Por enquanto, no Brasil, ainda não há uma regulamentação que obrigue a identificação nos plásticos da presença ou não de bisfenol-A, mas a SBEM está lutando por isso e pela erradicação da substância.

 

                                              

Laboratório de Fisiologia Endócrina do Instituto

 

Já o metilmercúrio em exposição aguda causa transtornos neurológicos semelhantes à paralisia cerebral, como visto no famoso caso de Minamata no Japão. Na Amazônia, o Inpetam (Instituto de Pesquisa Translacional na Amazônia) avalia o nível do metal presente nas populações ribeirinhas, cuja alimentação é a base de peixe, principal detentor da substância. As pesquisas feitas na Amazônia visam não só verificar as taxas de mercúrio e seus efeitos, mas conscientizar essas pessoas a respeito de quais peixes têm menores concentrações de mercúrio. “Há peixes e peixes. A concentração de toxinas varia de acordo com a posição que o animal ocupa na cadeia alimentar. Os peixes maiores têm mais mercúrio armazenado que os menores”, explica Denise.

A exposição crônica das populações amazônicas ao metilmercúrio vem se correspondendo a alguns casos de câncer e à predominância de crianças com dificuldade de aprendizado. “Foram levados equipamentos de última geração para examinar os habitantes da região e constatamos problemas de equilíbrio, na mobilidade dos olhos e perda auditiva”, constata a cientista, que levou 12 horas em um barco para alcançar uma população ribeirinha isolada, contaminada pela substância. “É complicado lidar com essa situação porque, se orientarmos suspender o consumo de peixes, introduziremos a desnutrição.”

Além do peixe, que contém metilmercúrio por conta da contaminação das águas, as carnes vermelhas, de porco e frango possuem estrogênios – hormônios injetados pelo homem – e as plantações estão cheias de agrotóxicos e pesticidas. “Não tem como fugir”, lamenta Denise. Apesar do aumento de vegetais orgânicos, estes continuam mais caros e inacessíveis à população em geral, e a maioria das pessoas se questiona se os orgânicos no Brasil são efetivamente “limpos” e se há um controle de qualidade. “Precisamos de uma política forte de fiscalização e incentivos do governo para que os alimentos orgânicos se tornem, de fato, uma realidade.”

A onipresença dos desreguladores endócrinos é preocupante. “O Rio de Janeiro foi apontado como o estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil. Coincidentemente ou não, é também um dos estados com maior incidência de câncer de mama”, provoca a cientista. Segundo ela, a Rio+20 não se trata apenas de um evento acerca de mudanças climáticas, mas de luta pela vida. “É a busca pelo progresso sem que você se autodestrua. A gente está introduzindo substâncias no meio ambiente sem ter idéia do que podemos provocar a nós mesmos.” Para Denise Pires de Carvalho, o maior legado que podemos carregar da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável é a conscientização, o aprendizado.

 

Assista aos vídeos da SBEM-SP: Campanha “Diga não ao Bisfenol-A, a vida não tem plano B”

 

 

 

Por Isabelle Lopes e Janine Justen – Estudantes de Jornalismo na Escola de Comunicação – ECO/UFRJ