Uma revolução chamada ‘reparo tecidual’

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Ter, 02/07/2013 - 12:06

 Muitos agentes estão envolvidos no processo de reconstrução da pele quando uma pessoa se machuca. A pesquisadora da Uerj, Andréa Monte Alto, do Instituto de Biologia, estuda procedimentos com potencial para acelerar o processo de cicatrização de ferimentos mais graves.  

Quem vê um machucado na pele não imagina a quantidade de etapas envolvidas no processo de cicatrização. Mas existem pessoas especializadas nessa área de estudo, como a professora Andréa Monte Alto Costa, do Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Doutora em biologia celular e tecidual, ela coordena um grupo de pesquisa que analisa todo o processo de reparo tecidual que acontece no local da lesão, como ferimentos, cortes e queimaduras.

A pele humana representa de 15% a 20% do peso corpóreo e é formada por diversas camadas: a mais superficial chama-se epiderme. É justamente ela que fica enrugada durante o banho, porque uma de suas funções é não permitir que entre água no corpo. A epiderme também é o que descama quando alguém fica exposto ao sol sem proteção e é onde a melanina se encontra, aquele pigmento que diferencia os tons de pele. Logo abaixo dessa primeira camada está a derme, onde estão as rugas de idade, o pigmento da tatuagem, estrias e vasos sanguíneos. 

Quando alguém se machuca, o corte pode ser superficial e atingir apenas a epiderme. Nesse caso, as células desse primeiro tecido se proliferam para regenerar o local afetado. Mas e quando sangra? “Significa que o machucado foi mais profundo e atingiu os vasos”, explica a professora, detalhando que o reparo tecidual acontece em três fases: inflamação, formação de tecido de granulação e remodelamento da cicatriz.

É a partir do primeiro momento que várias células do corpo já se preparam para a reconstrução do tecido. Segundo Andréa, na primeira fase observa-se a formação do coágulo assim que o ferimento começa a sangrar, que, quando ressecado, transforma-se na tão famosa “casquinha” do machucado, que nada mais é do que uma proteção para o que está acontecendo embaixo dela e uma barreira para a entrada de bactérias . “Além disso, células de defesa conhecidas como neutrófilos e macrófagos migram para o local da lesão e várias substâncias são liberadas para estimular as fases seguintes, como os fatores de crescimento”, diz Andréa. 

Depois vem a formação de tecido de granulação, quando a pele começa a ser reconstruída. Os vasos danificados se regeneram, a partir de um processo chamado de angiogênese; os fibroblastos migram da região não machucada para a lesionada, se diferenciam em miofibroblastos e começam a produzir e depositar o colágeno. “Chamamos de matriz extracelular o tecido que preenche o espaço vazio entre uma célula e outra da pele, composta por colágeno, por exemplo. Ela é fundamental na hora da reconstrução”, afirma a pesquisadora.

 

Os fibroblastos - em azul - se abastecem com fatores de crescimento para se diferenciar em miofibroblastos. Já os pacman-macrófagos eliminam bactérias e restos celulares presentes na lesão. Autora: Thatiana Luiza Assis de Brito

 

A terceira e última fase, o remodelamento da cicatriz, é longa e pode durar um ano ou mais. A cicatriz recém-formada tende a ser mais vermelha e até um pouco alta em comparação ao restante da pele, como explica Andréa: “Aos poucos seu aspecto assemelha-se ao que era antes do machucado, mas nunca volta a ser o que era. É por isso que vemos muitas cicatrizes esbranquiçadas, com uma cor de pele diferente do que a pessoa tem.”
 
Os vilões e os mocinhos

Em seu trabalho, Andréa busca entender o que ajuda e o que atrapalha o processo de reposição do tecido. Na lista de situações que não trazem benefícios entra o estresse psicológico,  uma das linhas de pesquisa de seu grupo. Nas palavras dela, essa condição retarda o processo de cicatrização, o que a levou à busca de substâncias que conseguiriam reverter o quadro, como a nicotina, encontrada no cigarro. “Sozinha, a nicotina acelera a cicatrização, mas quando associada ao estresse ela não ajuda. Existem estudos indicando seu potencial para reduzir o estresse. Isso explica um pouco a necessidade da pessoa que fuma para desestressar.” Durante a pesquisa, eles aplicaram adesivos com nicotina, utilizados por pessoas que querem parar de fumar, em lesões de ratos e camundongos de laboratório submetidos a condições de estresse.

Dentro dessa linha, o grupo também estuda a aplicabilidade do mate em pó para acelerar a cicatrização. Os resultados apontaram uma parcial melhora quando a substância é ingerida em determinada quantidade. Segundo Andréa, há grandes chances de os antioxidantes do mate serem agentes importantes. “Eles já são conhecidos por atuarem no corpo humano prevenindo doenças e retardando o processo de envelhecimento”, destaca.

Quando o assunto é o que pode ajudar, a professora ressalta uma colaboração antiga com um grupo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp): um trabalho sobre a atuação do óxido nítrico no reparo tecidual que já rendeu três publicações. “O curioso é que ele deve ser usado em quantidade pequena, porque senão ele retarda o processo, ao invés de acelerar”, analisa. Uma aluna de mestrado do grupo vem estudando a ação de um filme de poliéster que fica de “molho” de dez a vinte minutos em uma solução contendo óxido nítrico. “Espera-se que isso venha a funcionar de forma semelhante ao bandaid. Ainda não temos resultados finais, mas acreditamos que uma das propriedades desse gás é ajudar durante a angiogênese, ou seja, na recomposição de vasos sanguíneos”, aponta Andréa. 

 

  

A pele é composta por diferentes tipos de células, tecido conjuntivo, pêlos, glândulas de suor, vasos sanguíneos e outros elementos. Na imagem, a parte rosa mais clara é a epiderme, seguida pela derme. É uma lesão de rato, com glândulas e folículos pilosos no corte. Fotomicrografia cedida pela Profa Andréa Monte Alto Costa.

Um outro trabalho de doutorado em andamento, do qual a professora é co-orientadora, envolve queimaduras de segundo grau, aquelas que atingem a derme e já são mais graves do que as de primeiro grau, quealcançam apenas a epiderme.  “Ele consiste em coletar amostras de sangue de um animal lesionado para obter a parte rica em plaquetas, os principais agentes da coagulação, a partir de um processo conhecido como centrifugação, o movimento de rotação contínuo da máquina de lavar. Nesse procedimento, o sangue se separa em camadas de hemácias, leucócitos - os agentes de defesa do corpo, plasma - a parte líquida do sangue, e numa outra com plaquetas”, explica a pesquisadora. A coleta é aplicada e coberta por um curativo durante cinco dias no animal, que fica em estado de observação junto com o grupo controle, que recebeu apenas o curativo.  

 
Para Andréa, os grandes desafios são os ferimentos mais graves, como escaras de pacientes acamados, pés de diabéticos que demoram muito a fechar, queimaduras profundas e mais extensas. Mas também existe um outro fator complicador: os estudos com animais se aproximam, mas estão longe das condições reais em seres humanos. Ainda assim, Andréa não desiste e ainda adverte: lavar com água e sabão é o segredo para qualquer machucado, assim como um curativo. “Mas não é qualquer lavagem, é daquelas bem feitas, que fazem bastante espuma. Arrancar a “casquinha”? Nem pensar! Senão volta a sangrar e o processo recomeça do zero. Ela vai cair sozinha quando a pele estiver 100% reconstruída.” Já queimaduras graves demandam tratamento médico, assim como ferimentos que doem muito. Caso ele tenha acontecido fora de casa, a professora ressalta a importância da vacina antitetânica. “É sempre bom revisar a carteira de vacinação e tomar a injeção mesmo que o machucado não tenha acontecido com elementos enferrujados.”

  

Para saber mais, veja as animações:

 

Wound Healing - sobre cicatrização (em inglês)

Processo de cicatrização de feridas (legendado em português)

 

 

Por Renata Fontanetto – Colaboradora de Jornalismo no Espaço Ciência Viva. Julho 2013