Violência e Sexualidade:Um coquetel cultural, hormonal e cerebral

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Sex, 14/12/2007 - 15:14
Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam

A busca da ciência por correlações entre a agressividade e os hormônios sexuais é bastante antiga, uma vez que em todos os animais, incluindo humanos, os machos costumam ser mais agressivos que as fêmeas. A primeira conquista nesse sentido aconteceu em 1849, quando foi descoberto que a castração de galos acarretava a inibição do canto e dos comportamentos agressivos, sendo que o reimplante dos testículos levava à reversão desse quadro. A partir de então, diversos estudos vêem sugerindo que os hormônios esteróides desempenham um importante papel na modelagem de comportamentos sexuais e agressivos. Dentro deste cenário, a testosterona é apontada como um dos principais promotores da masculinização e da agressividade na maioria dos vertebrados.


Desde sua descoberta, em 1935, sabe-se que a testosterona atua como androgênico e anabolizante. No primeiro caso, ela promove o desenvolvimento do sistema reprodutivo masculino e dos caracteres sexuais secundários e, no segundo caso, estimula a fixação de nitrogênio, o que aumenta a síntese protéica e, conseqüentemente, a massa muscular. No geral, este hormônio é mediador de caracteres masculinos como o tom grave da voz e a presença de calvície, além de intermediar as habilidades musicais, verbais e visuo-espaciais dos homens. Já o estudo com mulheres é mais complexo e até agora seus resultados são bastante controversos. Devido a essa grande diferença entre os sexos, a testosterona chegou a ser batizada como “The He Hormone” (isto é, O Hormônio Ele), conforme descreveu o The New York Times Magazine: “O Hormônio Ele… tem se tornado uma metáfora da natureza masculina… ele afeta todos os aspectos de nossa sociedade, desde os altos índices de divórcios e a violência entre garotos adolescentes, até a explosão da cultura do bodybuilding…”.


Os estudos empíricos sobre a relação entre hormônios sexuais e a agressividade ganharam especial interesse no início da década de 1970, quando um grande conjunto de trabalhos sugeriu que criminosos violentos apresentam maiores níveis de testosterona que o normal. Estas observações levaram muitas pessoas a concluírem que a castração dos autores de grandes violências poderia impedi-los de cometer novos atos de assassinato, estupro e abuso sexual contra crianças, além de permitir que os mesmos pudessem ser reintegrados normalmente à sociedade.


Paralelamente, o crescente uso de anabolizantes (hormônios esteróides anabolizantes androgênicos - EAA) entre os jovens, como estratégia para apressar a “explosão” muscular e afirmação da virilidade, vem preocupando as comunidades médica, científica e desportiva. Tudo isso porque os EAA, na literatura biomédica, são considerados drogas psicoativas, com inúmeros efeitos adversos decorrentes de seu abuso como as flutuações de humor e a irritabilidade.


Diante desses fatos, tanto as ciências sociais quanto as biomédicas têm se esforçado em desvendar as bases biológicas do comportamento agressivo. Seguindo este propósito, estudos foram feitos em pássaros, anfíbios, peixes e mamíferos, e todos mostraram um conjunto comum de regiões cerebrais que são ativadas durante comportamentos agressivos. Isto sugere que osmecanismos neuroendócrinos que regulam a agressividade são homólogos entre os vertebrados. Descobriu-se ainda que uma enzima chamada aromatase converte a testosterona em estrógeno no Sistema Nervoso Central, sendo que diversos indícios sugerem que é esse estrógeno resultante que modula biologicamente os comportamentos sexual e agressivo. Essa curiosa informação nos faz pensar que os conceitos de estrogênico e androgênico devem ser revistos, uma vez que o papel do estrógeno, nesse e em outros contextos como a regulação da espermatogênese, são identificados muito mais com a classificação de androgênico que de estrogênico.


Em humanos, por sua vez, a experimentação por métodos invasivos é extremamente limitada. Por isso, grande parte das investigações biomédicas sobre a atuação hormonal na sexualidade, na agressividade e nas emoções são restritas à dosagem dos níveis de hormônios circulantes, geralmente no plasma ou na saliva, versus o comportamento observado e/ou relatado. A partir desse tipo de estudo, foi sugerido que baixos níveis de testosterona em homens podem desencadear depressão, insônia, libido baixa, fadiga, falta de motivação e de energia, baixa vitalidade psicológica, irritabilidade, ansiedade, fraqueza, baixa performance no trabalho e em atividades físicas, dificuldade de concentração e queda de memória. Por outro lado, a administração de testosterona exógena pode (mas não necessariamente) levar a uma maior irritabilidade e agressividade em casos como o uso de anabolizantes e a terapia de reposição hormonal.


Um problema metodológico desses trabalhos é que a medida da quantidade ou da concentração de testosterona nos fluidos corporais é apenas um passo na enorme cascata de ações, desde a produção dessa substância até seus efeitos biológicos finais. Além disso, as amostras para dosagem hormonal não são coletadas durante as interações socialmente agressivas, e diversos fatores parecem atuar como moderadores da atividade da testosterona, tais como a idade e o grau de desenvolvimento biológico do indivíduo, o nível de cortisol circulante, as variações circadianas, a constituição corporal, a dieta alimentar, o consumo de álcool, a pressão do ar e, principalmente, o contexto social. Vale ainda lembrar que a medida de agressividade, feita a partir do auto-relato, pode mascarar os resultados, enquanto a observação de casos clínicos não garante que os dados obtidos se apliquem à população saudável. Variações em qualquer um destes fatores podem acarretar dados controversos, o que significa que a medida do nível de testosterona é uma informação bastante limitada a respeito dos eventos fisiológicos e neurais nos quais ela está envolvida.


De um modo geral, os cientistas concordam que a produção de hormônios sexuais, o comportamento e o contexto social são mutuamente interferentes. No entanto, diversos autores advogam que a testosterona por si só não poderia induzir um ser humano a um ato de violência, mas sim, apenas aumentar a probabilidade da pessoa agir violentamente perante um conjunto de estímulos internos e externos. Sendo assim, basear-se no fato de que existe uma relação entre a testosterona e agressividade para explicar a origem de crimes violentos pode ser uma justificativa muito simplória, levando a interpretações deturpadas e perigosas.


Bases Neuroendócrinas da agressividade


Em mamíferos, a atuação da testosterona sobre as estruturas encefálicas – e, portanto, sobre o comportamento – ocorre com maior intensidade em duas fases:

 

  • Durante os períodos embrionário e neonatal, quando concentrações altas de testosterona influenciam a transformação de um cérebro inicialmente indiferenciado para um cérebro sexo-específico;

  • No início da puberdade, quando ocorre o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários.


No Sistema Nervoso Central, uma enzima chamada aromatase converte a testosterona em estrógeno. Há diversos indícios de que é esse estrógeno resultante que modula os comportamentos sexual e agressivo, regulando a atividade de alguns setores neurais, especialmente dos núcleos hipotalâmicos e das áreas límbicas. É interessante notar que o nível de estrógeno plasmático é extremamente baixo, sugerindo que o estrógeno necessário para a modulação de comportamentos deve ser produzido no próprio cérebro.


É possível que a divergência entre os trabalhos que tentam correlacionar hormônios e agressividade deve residir no metabolismo diferencial de testosterona no cérebro, particularmente sua conversão para estrógeno. Portanto, diferenças cerebrais quanto à atividade da aromatase, à expressão dos receptores de estrógeno e de moléculas relacionadas devem conferir diversidade entre indivíduos em seu potencial à agressividade. Mais do que isso, há evidências de que a experiência social desempenha importante papel na produção encefálica de estrógeno via aromatase, revelando como o contexto ambiental poderia influenciar o engajamento do indivíduo à agressividade. Há sugestões, por exemplo, de que a experiência sexual prévia aumenta a atividade da aromatase e modula a ação dos receptores de estrógeno no cérebro. Nesse sentido, é interessante notar o quanto os comportamentos sexual e agressivo estão fortemente relacionados.