Vírus Ebola

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Ter, 16/09/2014 - 14:59

Virus Ebola e o surto no Oeste da África em 2014

Entrevista com a Dra. Clarissa Damaso, Chefe do Laboratório de Biologia Molecular de Vírus do Instituto de Biofísica Carlos Filho – UFRJ, realizada em 06 de setembro de 2014. (Para saber mais, veja os links sugeridos no final desta entrevista)

Dra. Clarissa Damaso Instituto de Biofísica - UFRJ

ECV- O que é a doença do vírus Ebola?

É uma doença de origem viral causada pelo vírus Ebola. Até bem pouco tempo era chamada de febre hemorrágica do Ebola, mas o nome foi mudado, uma vez  que nem todos os casos da doença se manifestam com quadros hemorrágicos.

ECV - Que vírus é esse?

O vírus Ebola pertence ao gênero Ebolavirus da família Filoviridae. São vírus com envelope lipoproteico, morfologia filamentar e genoma constituído de RNA fita simples não segmentado com aproximadamente 19 kb. No gênero Ebolavirus existem 5 espécies virais, sendo que quatro delas causam doença no homem e foram detectadas, até o momento, apenas no continente Africano. Dessas 4, as mais virulentas são o vírus Ebola Zaire e o vírus Ebola Sudão. O vírus Ebola Zaire é que causa o surto recente no  Oeste da África.

ECV - O que causa a infecção por esse vírus?

A infecção pelo vírus Ebola causa uma doença grave que se manifesta por febre alta (acima de 38,5oC), dor abdominal, fraqueza, vômitos e diarreia. Em cerca de 40% ou menos dos casos, há manifestações hemorrágicas como petéquias e equimoses por todo o corpo. Em poucos casos ocorre hemorragia extensa por mucosas, ouvidos, trato gastrointestinal, entre outras regiões do corpo. O período de incubação dura de 2  a 21 dias quando não há sinais ou sintomas. Como o início dos sintomas, o quadro evolui entre 6 a 15 dias, podendo levar ao óbito normalemente em 50-70% dos casos, algumas vezes alcançando 90%.

ECV - Como é transmitido o vírus Ebola?

A transmissão somente ocorre com o início dos sintomas. O vírus pode ser transmitido por todo e qualquer fluido corporal, ou seja, lágrimas, suor, fezes, vômitos, secreções em geral. No caso dos homens, após a recuperação, o vírus ainda pode persistir no semen por cerca de 80 a 90 dias. Portanto, é fundamental o uso de preservativos ainda nesse período pós-recuperação. Acredita-se que algumas espécies de morcegos são os reservatórios para o vírus Ebola e a doença é fatal também para macacos, chimpazés e gorilas. Há transmissão do vírus pelo contato com esses animais, caso estejam infectados. O vírus não é transmitido pelo ar, nem pela água ou alimentos cozidos.

 

Virus Ebola

Virus Ebola: Microscopia eletrônica, colorida digitalmente. Ampliação: aproximadamente 60.000 vezes.

Esta imagem foi obtida a partir de células cultivadas em laboratório e infectadas com virus Ebola obtidos de uma pessoa infectada em 1976. Foi a primeira vez que o virus foi visualizado e por isso é muito divulgada. Na verdade, virions Ebola tem fomato e comprimento extremamente variados, sendo constituídos de filamentos flexíveis com um diâmetro de 80 nm (80 nanômetros). Autor: FA Murphy, Universidade do Texas, Galveston, EUA.

Fonte: http://www.utmb.edu/virusimages



ECV - Como é o tratamento para essa doença? 

Até o momento, não há vacinas nem terapias antivirais para combater o vírus Ebola. As pesquisas com possíveis vacinas e drogas antivirais estão em fase bem inicial de testes clínicos, porém há um empenho da comunidade científica, da Organização Mundial da Saúde e dos órgão regulamentadores de priorizar e acelerar os testes devido à gravidade da situação atual. O tratamento dos pacientes é basicamente sintomático para manter seu bem-estar e a normalidade de parâmetros clínicos, além de comabter infecções secundárias. É fundamental que o paciente receba esse tratamento intensivo desde o início da sintomatologia. Quanto antes receber o tratamento, maiores são as chances de um desfecho favorável.

ECV - Então o vírus Ebola é altamente contagioso?

Não. É importante ter em mente que o vírus Ebola não é altamente contagioso, porém é altamente infeccioso. Isto significa dizer que, comparado a outros agentes virais, como o vírus do sarampo ou poliovírus, por exemplo, o vírus Ebola apresenta uma baixa taxa de transmissão a partir de uma pessoa infectada (essa taxa é conhecida como R0 ou número de reprodução básico). Contudo, uma vez entrando em seu hospedeiro, ele tem alta capacidade de infectar e causar uma doença devastadora, sendo, portanto, altamente infeccioso e altamente virulento. Esses conceitos são importantes porque indicam que o controle da transmissão é mais simples de ser realizado do que se o vírus Ebola fosse transmitido pelo ar, como o vírus do Sarampo, por exemplo. Além disso, com o início dos sintomas, a pessoa infectada rapidamente fica bastante debilitada, sem condições de se locomover muito, trabalhar ou interagir socialmente. Este fato em si já reduz as chances de transmissão para outras pessoas. No caso do vírus Ebola, é preciso evitar o contato com fluidos corporais de uma pessoa infectada.

ECV - Se ele não é altamente contagioso, porque este surto tão extenso e fora de controle no oeste da África?

É importante saber que o surto atual progride em países de baixos recursos com longo histórico de conflitos socio-políticos e econômicos, principalmente Guiné, Libéria e Serra Leoa. A infra-estrutura de atenção à saúde é das mais precárias, faltando não só profissionais da área em número adequado, bem como material descartável e condições de controle de infecção nos postos de saúde e hospitais. Além disso, falta equipamentos de proteção indivdual (máscara, luvas, botas e jalecos descartáveis) para os médicos e enfermeiros. Somado a esse quadro de elevada pobreza, há crenças e costumes diversos, muitas vezes particulares dos diversos grupos étnicos da população, que dificultam o entendimento e o cumprimento de normas de quarentena, de evitar complementamente o contato com pessoas infectadas vivas ou mortas, de não comer animais silvestres como macacos e morcegos, além de não ter contato com a carcaça desses animais. É fundamental haver o enterro seguro dos corpos de pessoas mortas pela doença do vírus Ebola por pessoas especializadas. Não pode haver o contato, como por exemplo para lavar o corpo, vesti-lo ou mesmo tocar. Esse é um ponto de maior dificuldade para a população rural desses países, não porque sejam ritos exóticos (nós também lavamos os corpos, vestimos e muitas vezes beijamos os mortos), mas porque há dificuldade de convecê-los de que esta é uma maneira de adquirir o vírus.

Para evitar a progressão dos surtos é fundamental o isolamento de contato das pessoas infectadas e quarentena e isolamento de todos os contatos dessa pessoa. Portanto, traçar os contatos e colocá-los em isolamento em quarentena é um trabalho detetivesco e fundamental! Também essencial é o uso de equipamentos de proteção individual pelos agentes de saúde e qualquer pessoa a lidar com casos suspeitos, além de medidas de controle de infecção nos postos de saúde e hospitais. A falha nesses procedimentos certamente leva à continuidade da epidemia. É o que aconteceu em meados de Agosto na Nigéria quando uma pessoa em isolamento em Lagos, fugiu e se hospedou em um hotel em Port Harcout. Nesse hotel foi atendido por um médico que então se infectou com o vírus Ebola e faleceu posteriormente. Contudo, até falecer teve contato com diversas pessoas em seu trabalho, em casa e no hospital. As equipes que trabalham no surto na África estão tentando encontrar e isolar os 200 contatos a partir desse caso. Ou seja, se não tivesse ocorrido o escape em Lagos, a infecção provavelmente estaria contida na Nigéria em pouco mais de 10 casos em Lagos.

Para saber mais:

Palestra dos professores Clarissa Damaso e Amilcar Tanuri (ambos da UFRJ) no Portal do Espaço Alexandria

Site a Organização Mundial da Saúde - OMS/WHO (em Ingles)

Site do Centro de Controle de Doenças - CDC - EUA (em Ingles)

Site da Fundação Oswaldo Cruz - Brasil

Artigo no Blog da Sociedade Brasileira de Imunologia