Xifópagos: Uma alma com dois pensamentos...

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Ter, 17/04/2007 - 16:03
Exemplos de Gêmeos Xipófagos

Lembro-me perfeitamente da forte sensação que me causou quando vi, pela primeira vez na TV, dois irmãos unidos fisicamente. Confesso que na época não acreditei muito. Achei que fosse montagem, truque sensacionalista para aumentar o Ibope do programa. Mas o fato é que era real. Irmãos com corpos interligados existem sim, são conhecidos como xifópagos ou siameses, e são um tipo muito, mas muito raro mesmo de gêmeos idênticos. Dois irmãos se desenvolvem interligados quando não há uma separação completa da massa celular que dá origem a dois embriões monozigóticos, mas não se sabe ao certo por que isso acontece. Estes irmãos podem nascer unidos de diversas formas e com graus variáveis de compartilhamento das porções corporais. Às vezes, as duas crianças têm o mesmo nível de desenvolvimento, mas em outras, uma das crianças se desenvolve bem menos que a outra, tornando-se uma espécie de “parasita” do irmão maior; Neste caso, pode haver ainda uma condição extrema em que um dos fetos se desenvolve dentro do corpo do outro, o que denominamos fetus in fetu.

Fonte: http://saude.hswuol.com.br
Na matéria 1 óvulo + 2 espermatozóides: Isso é possível?, vimos a diferença entre a formação de gêmeos idênticos e gêmeos fraternos. O que não mostramos no artigo anterior, mas que agora é fundamental para compreendermos a origem dos xifópagos, é que os gêmeos monozigóticos são sempre gerados dentro da mesma placenta e do mesmo saco coriônico, porém cada um tem seu saco amniótico. Raramente, pode acontecer de os dois irmãos crescerem dentro do mesmo âmnio, e é justamente neste tipo de situação que há chance de ocorrer a gênese de xifópagos, caso não haja separação completa dos embriões. A separação da massa celular que dá origem a dois irmãos idênticos pode ocorrer em distintos estágios do desenvolvimento inicial. Quanto antes ocorrer essa divisão, mais independentes serão os irmãos e a chance do saco amniótico ser individualizado é bem alta. Ao contrário, se a separação for tardia, há grande chance dos irmãos compartilharem o mesmo âmnio e, talvez, também algumas estruturas corporais.


 Dependendo do tipo de ligação, os xifópagos são classificados em três grupos, os quais também são subdivididos, de forma que ao todo temos 11 tipos de siameses, além dos chamados “parasitas”. Irmãos interligados na parte corporal inferior, ou que apresentam dois corpos na porção superior e apenas uma parte inferior são os teratacatadídimos, subdivididos em pigópagos (ligados pelas nádegas), isquiópagos (unidos pela região pélvica), dicéfalos (um corpo com duas cabeças) e diprosopos (um corpo, uma cabeça e duas faces); Aqueles ligados na porção corporal superior, ou que apresentam apenas a parte superior do corpo e duas porções inferiores são os terataanadídimos, que podem ser cefalópagos (ligados pela cabeça), sincéfalos (ligados pelo rosto), cefalotoracópagos (unidos pela região facial e pelo tórax) ou dípigos (somente um corpo superior e porção inferior dupla); Já os terataanacatadídimos são aqueles interligados em alguma parte na porção medial do corpo, tais como o tórax, o abdômen e as costas. Estes últimos podem ser toracópagos (unidos pelo tórax), onfalópagos (unidos pelo tórax e/ou abdômen) ou raquípagos (unidos pelas costas).


Os “parasitas” surgem quando um dos gêmeos se desenvolve bem mais que o outro. Como conseqüência, o que se observa geralmente é o aparecimento de um membro acoplado a alguma região corporal do irmão maior, como uma perna no meio das costas. Nesses casos, é possível remover cirurgicamente o membro extra e o indivíduo “hospedeiro” (como é chamado o irmão maior) continua levando uma vida completamente normal. No entanto, há situações em que o gêmeo pouco desenvolvido se encontra literalmente dentro do irmão “hospedeiro”, o que chamamos de fetus in fetu. Não é tão raro que médicos reportem o aparecimento de aglomerados contendo ossos, dentes, gordura, músculo, cabelos e outros tipos de tecidos no abdômen de crianças ou adultos. Estas massas de tecidos são chamadas teratomas, mas só são consideradas fetus in fetu se apresentarem tronco e membros identificáveis, e podem também ser cirurgicamente removidas. Esses “parasitas” podem permanecer por meses ou anos no corpo do “hospedeiro”, e sua descoberta normalmente toma o indivíduo de grande susto, especialmente ao saber que aquele bolo celular significa, na verdade, um irmão gêmeo seu.


Por ser uma situação rara, geralmente complexa e chocante, os siameses sempre despertaram muita curiosidade.


 A História relata alguns casos que ficaram famosos, muitos deles porque os irmãos interligados acabaram atuando em exibições públicas, tais como circos, museus e até mesmo no showbusiness. Dentre eles, talvez os mais destacados até hoje tenham sido os irmãos Eng e Chang Bunker. É justamente por causa deles que os xifópagos são também conhecidos como siameses, já que os irmãos nasceram na região de Sião, atual Tailândia. Nascidos em 1811, eles viveram interligados até os 63 anos de idade. Unidos fisicamente, viajaram pelo mundo, trabalharam na América e na Europa, tornaram-se celebridades e ainda se casaram com as irmãs Sally a Adelaide Yates. Conta-se que juntos, os dois casais tiveram 21 filhos e surpreendentemente moravam em duas casas! O mais incrível é que o casamento, a intelectualidade, o trabalho e uma série de outros aspectos relacionados a uma vida normal estão presentes na história de diversos xifópagos, demonstrando que as crianças que vivem interligadas apresentam uma espetacular capacidade de adaptação a um cotidiano convencional.


A taxa de sobrevivência dessas pessoas, no entanto, é bastante pequena. Dados estatísticos sugerem que cerca de 60% delas já nascem mortas, e 35% só sobrevivem por aproximadamente um dia. Para os pais, decidir quanto à separação de seus filhos xifópagos não é muito fácil, pois quando órgãos vitais são compartilhados, a separação torna-se dificílima ou mesmo inviável por comprometer a sobrevivência de um, ou de ambos os gêmeos. Já no caso de “parasitas”, ou quando a maioria dos órgãos internos não são compartilhados, a intervenção cirúrgica costuma ser bem mais simples e há grande chance dos resultados serem positivos, permitindo uma vida independente e normal a cada um dos irmãos.