Verdades e mentiras sobre os Coronavírus

Notícias falsas se espalharam no mesmo ritmo que o crescente número de pessoas afetadas pelo 2019-nCoV.

Fonte: Nuria Valladolid, https://metode.cat/les-dues-cultures/coronavirus-wuhan-veritats-i-mentides.html, 2020.

Modelo do Coronavírus 2019 n-CoV. Center for Disease Control and Prevention (CDC), EUA. Mostra a morfologia do vírus. Este coronavírus foi identificado como a causa do surto de pneumonia detectada em Wuhan (China) no final de 2019. Crédito da imagem: Alissa Eckert, MS, Dan Higgins, MAM.

Em 31 de dezembro de 2019, as autoridades chinesas relataram à Organização Mundial da Saúde (OMS) uma série de casos de pneumonia desconhecida na cidade chinesa de Wuhan. Uma semana depois, em 7 de janeiro de 2020, a China identificou um novo coronavírus como a causa do surto.

Wuhan, China.

O 2019-nCoV faz parte de uma vasta família de vírus – os Coronavirus (CoV) -conhecida desde os meados dos anos 1960 e formada por vírus que causam desde um resfriado comum, até alguns mais virulentos, tais como:

  • O alphacoronavirus HCoV-NL63, importante causa de pseudo crupe (espamódica) e bronquiolite em crianças.
  • Os betacoronavirus HCoV-OC43 e HCoV-HKU1 e  o alphacoronavirus HCoV-229E que causam resfriados comuns, mas também infecções graves do trato respiratório inferior nas faixas etárias mais jovens e mais velhas;

E coronavírus zoonóticos (infectam outros animais) surgiram e causaram surtos em humanos, tais como:

  • a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV) que surgiu na China em 2002, um betacoronavirus, do subgênero Sarbecovirus. E na Coréia do Sul em 2015.
  • ou a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV), que surgiu na Arábia Saudita em 2012, um betacoronavirus, do subgênero Merbecovirus.

O 2019-nCoV foi relacionado a um grupo de casos de pneumonia em Wuhan, China e está relacionado geneticamente ao SARS-CoV. Os coronavírus humanos comuns causam infecções respiratórias brandas a moderadas de curta duração. Os sintomas podem envolver coriza, tosse, dor de garganta e febre. Esses vírus algumas vezes podem causar infecção das vias respiratórias inferiores, como pneumonia. Esse quadro é mais comum em pessoas com doenças cardiopulmonares, com sistema imunológico comprometido ou em idosos. O MERS-CoV, assim como o SARS-CoV, causam infecções graves.

Vírus com coroas?

Coronaviruses são virus de genoma de RNA de fita simples, de sentido positivo, envelopados, com a seguinte classificação:

  • Filo: Negamaviricota.
  • Ordem: Nidovirales.
  • Família: Coronaviridae (com 2 subfamílias, 5 gêneros, 24 subgêneros, 39 espécies).

Uma de suas características superficiais é seu virião ter uma aparência de coroa, vistos ao microscópio eletrônico, o que deu origem ao seu nome de origem do latim corona, significando coroa ou halo.

  • A subfamília Orthocoronavirinae é subdividida em 4 gêneros coronavirus (CoV): Alpha-, Beta-, Delta—e Gammacoronavirus. E o gênero Betacoronavirus é ainda separado em 5 subgêneros (Embecovirus, Hibecovirus, Merbecovirus, Nobecovirus e Sarbecovirus).

Eles podem infectar humanos e uma variedade de animais (incluindo pássaros e mamíferos).

As células epiteliais no sistema respiratório e trato gastrointestinal são suas células alvo primárias. Por causa disto, a disseminação viral ocorre por meio desses sistemas e a transmissão pode ocorrer por meio de diferentes rotas: alimentação, pelo ar ou por via fecal-oral.

Fakesnews, Desinformação, Racismo, Pânico

A disseminação do vírus foi acompanhada por notícias falsas e informações enganosas, o que provocou um certo estado de alarmismo entre os cidadãos.

Segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde, de 10 de fevereiro de 2020, temos:

Na China:

  • 40.235 confirmados
  • 6.484 severos (16%)
  • 909 mortes (2%)

Fora da China:

  • 319 confirmados em 24 países.
  • 1 morte.

O epidemiologista Juan Bellido Blasco, chefe do Centro de Saúde Pública de Castellón, ressalta que epidemias como a gripe causam muito mais mortes e passam despercebidas, já que nenhum cidadão é informado sobre elas da mesma forma que está sendo feito com 2019-nCoV. Bellido Blasco considera que o tratamento alarmista da situação não contribui para o controle da doença. Atualmente, cientistas de todo o mundo trabalham para encontrar uma vacina contra 2019-nCoV, e investigam sobre onde a doença pode surgir e se disseminar.

O que sabemos

É mais provável que esse surto de um novo coronavírus tenha sua origem em uma fonte animal primária como o morcego, e estudos como os das revistas científicas THE LANCET ou NATURE apontam que o genoma do 2019-Ncov está intimamente ligado aos coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS). A equipe de virologistas liderada por Zheng-Li Shi, do Instituto Wuhan de Virologia, estudou em dezembro 7 pacientes que apresentaram complicações respiratórias e descobriram que o genoma do coronavírus emergente se assemelha ao genoma do coronavírus que infecta morcegos.

No entanto, propõe-se que a transmissão tenha ocorrido através de um animal hospedeiro intermediário, mas no momento não se sabe qual. Conforme indicado por Alma Bracho epidemiologista molecular do vírus e pesquisadora da área de genômica e saúde da Fundação para a promoção da Saúde e pesquisa biomédica da Comunidade Valenciana (Fisabio), a análise de amostras ambientais do mercado de peixes da cidade de Wuhan, considerada o foco do surto do coronavírus, poderia ser fundamental na identificação das espécies envolvidas. O que sabemos, como explica Bracho, é que foi possível refinar a origem temporal desse coronavírus emergente, que seria em meados de novembro.

O principal meio de transmissão do vírus é o sistema respiratório e no período de incubação ainda não há sintomas. Entre os sintomas estão:

  • febre e fadiga,
  • tosse seca
  • possível dificuldade para respirar ou falta de ar.

Alarmismo, racismo e desinformação

Uma das consequências da difusão de notícias enganosas e do alarmismo gerado pelo coronavírus tem sido o surgimento de atitudes racistas contra os chineses ou com traços asiáticos. Esta situação foi denunciada por personalidades e ativistas como a cantora Chenta Tsai, conhecida como “Putochinomaricón”, que desfilou na Semana de Moda de Madri, em 2 de fevereiro, com uma mensagem pintada em seu peito: “Eu não sou um vírus“.

Campanha #NaoSouUmVirus lançada por descendentes asiáticos em países como Espanha, França e Itália.

O epidemiologista do Instituto de Salud Carlos III, Amparo Larrauri, acredita, de fato, que a China  está mostrando um importante efeito de ação e informação. O especialista destacou que uma semana após a confirmação dos primeiros casos, foi identificado o genoma do vírus, o que é “um sucesso na coordenação da saúde pública em todo o mundo“. Em relação ao nível de alarme da epidemia, Larrauri indicou que “se os protocolos estabelecidos forem estritamente aplicados, o risco do vírus é baixo”.

Mas é o alarmismo, precisamente, que está sendo feito nas redes sociais. E o problema é, também, que muitas vezes nem mesmo a mídia faz a divulgação adequada das informações científicas. Em 30 de janeiro, o cirurgião plástico – sem especialização nenhuma em vírus ou epidemias – Pedro Cavadas, afirmou em público do programa Espejo, Antena 3, que “não é necessário ser muito inteligente” pensar que o número de mortes e infectados pelo coronavírus é “dez ou cem vezes maior” do que o reconhecido pelas autoridades chinesas.

As informações que aparecem na mídia ou nas declarações de personalidades com prestígio público como o cirurgião Cavadas são recebidas pelos cidadãos como fontes confiáveis. Mas opiniões como essas encorajam o público a procurar uma espécie de verdade oculta, uma teoria da conspiração em torno do coronavírus e gerar suspeitas para com as autoridades.

  • Não é verdade que haja caso de coronavírus no Brasil.
  • Não é verdade que um médico ficou totalmente consternado durante uma operação em um paciente com coronavírus.
  • Não é verdade que gargarejar com água salgada evite o contágio.
  • Não é verdade que Bill Gates é o proprietário da patente para o novo coronavírus.

Alguns desses conteúdos das redes sociais apresentam imagens manipuladas, anúncios que parecem de instituições oficiais e até manchetes em jornais ou cortes em notícias falsas.

Essas informações falsas ou enganosas não fazem nada mais do que incentivar o pânico e, em muitos casos, o racismo, contra a correta disseminação científica, que se baseia na verificação e comprovação das informações, nas fontes e observação especializadas.