Orquídeas, por que te quero?

Capa: as orchidáceaes da janela, da esquerda para a direita, Cattleya harrisoniana, Cattleya harrisoniana, placa de xaxim com Laelia purpurata tipo, vaso de xaxim com Oncidium flexuosum (chuva de ouro) florido e Cattleya forbesii.

Autor: Roberto da Silva (mediador voluntário Espaço Ciência Viva, 2020). Revisor: Paulo Henrique Colonese.

#fiqueemcasacomaciencia , #paCTopelaVida

Para construir mundos melhorados pela paz
Envolta no brilhante orvalho da manhã,
Ela expressa a vida de novo
Que sai da terra sob seus pés
Ela é uma flor que cresce
com a habilidade do amor
Ela é a feminilidade.
Orquídea Negra,Stevie Wonder.

O mediador Roberto da Silva compartilha conosco sua paixão pelas orquídeas.

Biólogo e orquidófilo Roberto Silva e seu orquidário caseiro.

Os primeiros contatos com as Orquídeas

Eu conheço orquídeas desde criança, pois na casa em que morei tinha algumas nas árvores do jardim, mas só comecei a me interessar pelas mesmas quando ao sair do exército, fui passar uma temporada no sítio de um tio.

Lá, comecei a trabalhar como lenhador retirando tabebuias (Tabebuia cassinoides, árvores cuja madeira era usada na época para fazer tamancos (portugueses) e também na marcernaria. São conhecidas também como pau-de-tamanco, tamancão e tamanqueira pela sua utilização na produção de tamancos.

Tabebuia cassinoides. Alex V. Popovkin. 2008, Wikipédia.

A árvore fornece madeira branca, levemente rosada, própria para a marcenaria fina. Atualmente, já não se usa mais essa madeira nessa produção.

E foi no tronco dessas  árvores que encontrei muitas orquídeas. E, para não jogá-las fora, então, eu comecei a levá-las para a casa no próprio pedaço de madeira, visto que a maioria vegetava no alto da árvore e essa parte era fina e não aproveitável na indústria.

Eu as coloquei em um canto, começando, assim, a formar uma pequena coleção. Até cheguei a vender algumas para outros interessados. Em seguida, fui embora, e as plantas acabaram ficando para trás…

Um segundo encontro com as orquídeas.

AS TRÊS ORQUÍDEAS
As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não veem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E aspira sobre elas a gentileza igualmente frágil,
a gentileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.
Cecília Meireles. In Dispersos, agosto de 1964.

Depois disso, só voltei a ter contato com as orquídeas, muitos anos depois quando já estava casado e sai do Rio a trabalho e fui morar em Itatiaia, um lugar de muitas orquídeas. E comecei novamente a montar uma pequena coleção. Mas, nesse momento, ainda não me aprofundava em estudá-las.

Ao retornar ao Rio de Janeiro, eu não cuidava mais das plantas, pois não tinha um local apropriado. Acabei levando a maioria para a casa de uma vizinha amiga e lá ficaram, mas com o tempo morreram, ficando somente duas espécies, um Dendobrium nobile e um Oncidium flexuosum , que vivem até hoje em casas de dois amigos, e já contam com cerca de quarenta anos de vida!

O meu interesse voltou novamente quando comecei a treinar Karatê, quando durante um treino, tomei conhecimento que o professor também gostava de orquídeas. Com um duplo interesse – karatê e orquídeas, começamos a frequentar exposições e adquirir novas espécies.

Isto tornou necessário preparar um local para o cultivo. Assim, consegui adaptar a minha área, e montar um pequeno orquidário começando assim uma nova coleção.

Desta vez, resolvi me aprofundar estudando essas belas plantas, adquiri alguns livros e revistas sobre o assunto, e a coleção aumentou. Ingressei na faculdade de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e acabei fazendo Iniciação Científica com as Orchidáceaes, no Parque Estadual da Chacrinha, Copacabana, no Rio de Janeiro.

Isto acabou servindo como tema de minha monografia de final do curso, obtendo aprovação do estudo com ênfase em Biologia Vegetal.

E assim, tem sido a minha epopeia com as belas orquídeas, até onde elas me levaram e até onde me levarão, com a graça de Deus.

Conheça algumas das espécies de minha coleção

Eltroplectris calcarata, a “orquídea de garra longa”.

Erva terrestre, encontrada nos estados brasileiros da costa e nos estados do interior ao sul da Amazônia, e nos países que margeiam a mesma, Ilhas do Caribe, Flórida, Paraguai e Argentina.

Seu nome faz referência à sua anatomia. O gênero vem do grego eleutheros ( livre ) e plectron ( calcar ) em referência ao esporão formado pela base das sépalas e pé da coluna de suas flores.

Costuma florescer no inverno.

Eltroplectris calcarata.

Sarcoglottis grandiflora, a “língua carnuda”.

Erva terrestre, encontrada em todos os países latinos – americanos, exceto o Chile.

A origem do nome também é anatômica. O gênero vem do grego sarkos ( carne ) e glottas ( língua ) em referência a espessura do labelo de suas flores.

Floresce entre primavera e verão.

Sarcoglotis grandiflora.

Cattleya harrisoniana, a “Catleia de Harrison”.

Erva epífita, encontrada desde o estado de São Paulo até o Espírito Santo.

A origem do nome é uma homenagem a orquidólogos (estudiosos de orquídeas) e orquidófilos (amantes de orquídeas).

O gênero é em homenagem a William Cattley, (1788-1835) um orquidólogo , botânico , comerciante e horticultor britânico. Em 1818, Cattley estava desembalando uma remessa que havia recebido do Brasil. Entre os vários materiais, ele encontrou gavinhas que poderiam ser uma orquídea, então ele a nutriu de volta à saúde e acabou sendo a bela orquídea, que foi nomeada em homenagem a Cattley como Cattleya labiata. Para ajudar com sua coleção, Cattley contratou John Lindley para desenhar, descrever e catalogar as novas plantas em seu jardim em Barnet. Cattley pagou pela publicação da monografia de Linley sobre dedaleiras, Digitalia Monographia , e mais tarde pela Collectanea Botanica de Lindley (1821), um fabuloso catálogo da coleção de plantas de Cattley, veja as belíssimas ilustrações aqui.

E a espécie em homenagem a Harrison orquidófilo inglês que viveu no século XVII. A Sra. Arnold Harrison publicou inúmeras ilustrações na revista Botanical Magazine de Samuel Curtis, Londres, 1832.

Floresce no verão.

Cattleya harrisoniana

Neobenthania gracilis, orquídea de “fino caule”.

Erva terrestre, encontrada na Tanzânia ( África ).

O nome é misto, uma homenagem a um Botânico e a detalhe anatômico.

O gênero vem do grego neos ( novo ) e benthania em referência ao botânico inglês George Benthom, (1880-1884). O seu herbário, com mais de 100. 000 espécimes, encontra-se desde 1854 nos Royal Botanic Gardens de Kew, nos arredores de Londres,

A espécie gracilis significa delgado, em referência ao longo e fino caule da espécie.

Floresce entre inverno e primavera.

Neobenthania gracilis.

Aerides odoratum, de perfume cítrico.

Erva epífita encontrada na China, Himalaia, Butão, Assam, Índia, Bangladesh e mais países da Ásia.

O nome vem de suas propriedades.

O gênero vem do grego aeros ( ar ) e a espécie odoratum tem relação com seu perfume de leve toque cítrico.

Floresce entre primavera e verão.

Aerides odoratum

Rodriguesia lanceolata, com folhas em forma de lanças.

Erva epífita encontrada no Brasil, Guianas, Venezuela, Paraguai, Colombia,  Peru, Equador, São Vicente e Trinidad.

O nome do gênero é em homenagem ao médico apotecário e botânico espanhol do século XVIII, Don Manuel Rodriguez .

A espécie faz referência às folhas em forma de lança.

Floresce na Primavera.

Rodriguesia lanceolata

Cattleya guttata

Erva terrestre e as vezes epífita, encontrada no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia.

O nome do gênero é em homenagem a William Cattley orquidólogo inglês.

E a espécie em relação ao lóbulo central no labelo que contem excrecência (saliência ).

Floresce no verão.

Cattleya guttata.

Trichocentrum lanceanum

Erva epífita, encontrada no Brasil, Paraguai e outros países da América do Sul.

O nome do gênero vem do grego trichos ( pelos ) e kentron ( espora ).

E o nome da espécie em homenagem a Sir Lance, orquidófilo inglês do século XIX.

Floresce no outono.

Trichocentrum lanceanum.

Epidendrum denticulatum

Erva rupícola ou humícola, ocorre entre o Rio Grande do Sul e Pernambuco, e em florestas abertas de Minas Gerais.

O nome do gênero deriva do grego epi ( sobre ) e dendrom ( árvore )

E o nome da espécie em referência ao labelo que contem a margem serrilhada como pequenos dentes.

Floresce no verão.

Epidendrum denticulatum,

Miltonia spectabilis semi-alba, uma orquídea espetacular.

Erva epífita encontrada na Mata Atlântica do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

O nome do gênero é em homenagem A  Charles Wentworth-Fitzwilliam, 5º Earl Fitzwilliam , anteriormente Visconde Milton, aristocrata inglês, político, patrono da Ciência e da horticultura e entusiasta de orquídeas..

E o da espécie vem do latim espetacular, de variedade semi-alba.

Floresce no final da primavera e verão.

Miltonia spectabilis semi- alba.

Aspasia lunata

Erva epífita encontrada no sudeste e sul do Brasil.

O nome do gênero é uma grande homenagem a Aspásia de Mileto, a mulher mais famosa da antiga Atenas, companheira de Péricles, o grande líder ateniense. Segundo Plutarco, sua casa se tornou um centro intelectual em Atenas, atraindo os escritores e pensadores mais importantes, incluindo o filósofo Sócrates. Aspásia é mencionada nos escritos de Platão, Aristófanes, Xenofonte, Antístenes, Ésquines Socrático e outros.

E a espécie vem do latim lunatus que significa em forma de lua.

Floresce no verão.

Aspasia lunata.

Psychopsiella limminghe, a orquídea “mariposa”.

Erva epífita encontrada em duas áreas bem distintas, na Venezuela e no Rio de Janeiro.

O nome do gênero vem do grego psyche ( mariposa ) e opsis ( aparência ) e o da espécie em homenagem ao Conde Alfred Marie Antoine de Limminghe, botânico belga que viveu no século XIX.

Floresce no verão.

Psychopsiella limminghe.

Sophoronitis cernua

Erva epífita, encontrada no Brasil, Argentina e Paraguai.

O nome do gênero vem do grego sophron ( pequeno ) e o da espécie de cernus ( prostado, rastejante).

Floresce no outono e inverno.

Sophoronitis cernua.

Laelia purpurata, vestida de púrpura

Erva epífita, encontrada no sul, exceto Paraná, e sudeste do Brasil, São Paulo e sul do Rio de Janeiro.

O nome do gênero pode ser em homenagem a Laelia (Lélia), uma das Vestais, sacerdotisa do templo da deusa romana Vesta (deusa do fogo sagrado). Mas também pode se referir ao sobrenome “Lælius” da antiga família romana à qual perteceram os imperadores: Giordanos I, II e III.

E o da espécie vem do latim, o que significa “vestida de púrpura”.

Floresce entre novembro e dezembro, final da primavera.

Laelia purpurata.

Laelia crispa

Erva epífita, encontrada nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O nome do gênero é em homenagem a Laelia (Lélia), uma das vestais, sacerdotisa do templo da deusa romana Vesta . Ou ainda homenagem a uma família de imperadores romanos.

E o da espécie é devido ao franzido da forma do labelo e sépalas da flor.

Floresce no verão.

Laelia crispa.

Cattleya intermedia

Erva que tem diversas formas de vegetar, podendo ser epífita, rupícola, psamófila e terrestre, encontrada na região sul, exceto Parana, e em São Paulo e Rio de Janeiro.

O nome do gênero é em homenagem a William Cattley, orquidólogo inglês.

E o da espécie se refere ao tamanho intermediário entre as espécies de Cattleya.

Floresce no final do inverno e começo da primavera.

Cattleya intermédia.

Oncidium flexuosum

Erva epífita, ocorrendo no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

O nome do gênero vem do grego onkos ( caroço ) devido ao calo que a flor tem na base de seu labelo e o da espécie vem do latim que significa flexível.

Floresce no verão.

Oncidium flexuosum.

Cattleya walkeriana

Erva epífita, ocorre no Brasil, nos estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo.

O nome do gênero é em homenagem a William Cattley orquidólogo inglês.

E o da espécie é em homenagem a Edward Walker, assistente de George Gardner que a descobriu em 1839. Gardner esteve no Brasil de 1836 a 1841, colecionando cerca de 60.000 plantas para museus da Inglaterra, tendo passado dois anos no Rio de Janeiro e arredores, viajando depois para Bahia e Pernambuco, onde começou uma viagem pelos sertões do Ceará, Piauí, Goiás e Minas Gerais, regiões na época pouco conhecidas pelos viajantes europeus.

Floresce no outono, inverno e primavera.

Cattleya walkeriana.

Dimeranda emarginata

Erva epífita, ocorre desde a Flórida até o norte da Argentina e no Brasil central e sudeste e na América central.

O nome do gênero vem do grego di (duplo) e andros (estame) e o da espécie vem do latim que quer dizer margem.

Floresce no verão e outono.

Dimeranda emarginata.

Cattleya forbesii

Erva epífita, ocorre do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

O nome do gênero é em homenagem a William Cattley, orquidólogo inglês.

E o nome da espécie é em homenagem a Mr. Henry Ogg Forbes, botânico, ornitólogo e colecionador escocês, e colaborador de John Lindley, que a descreveu e batizou em 1821.

Floresce no inverno e verão.

Cattleya forbesii.

Cyrtopodium Cardiochilum

Erva terrestre e rupícola, ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

O nome do gênero vem do grego kyrtos (inclinado) e podium (pé) em referência a inclinação do pé da coluna de suas flores.

E o nome da espécie, é uma composição de cardio (coração) e chilum (em referência a forma de tubo de seu labelo).

Floresce na Primavera e Verão.

Cyrtopodium Cardiochilum.

Brassavola revoluta

Erva epífita, ocorre no sudeste e nordeste do Brasil.

O nome do gênero é em homenagem a Antonio Musa Brassavola, botânico e médico italiano, professor de medicina em Ferrara.

E o da espécie, refere-se a forma do labelo.

Floresce final do inverno e inicio da primavera.

Brassavola revoluta.

Glossário

  • Epífita – Vegeta sobre as árvores.
  • Psamófila – Vegeta na areia.
  • Rupícola – Vegeta nas rochas.
  • Terrestre – Vegeta na Terra.

Orquídeas e Arte

As orquídeas são tema de muitos desenhistas, ilustradores e pintores.

HEADE, Martin Johnson_Orquídea y colibrí cerca de una cascada de montaña, 1902_(CTB.1979.44)

Como outros artistas que viajaram para a América do Sul, Heade ficou profundamente impressionado com a fértil exuberância dos trópicos. Suas primeiras pinturas de beija-flores datam de 1863 no Brasil. Mais tarde, em 1870, após uma viagem ao Panamá, Colômbia e Jamaica, o artista concebeu a idéia de combinar beija-flores e orquídeas.
A originalidade dessas obras, pintadas por Heade em seu estúdio, está na fusão entre natureza morta e paisagem, resultando em um efeito dramático geral. A justaposição de pássaros e flores era comum em ilustrações ornitológicas, mas em trabalhos como Orquídea e Beija-flor, perto de uma Cachoeira Heade, fazia uso de uma das variedades mais impressionantes de orquídeas, a Cattleya labiata rosa, colocando-o tão perto do primeiro plano que as pétalas parecem quase achatadas. O pequeno beija-flor cria um diálogo com a flor através da posição da cabeça e do tom ametista da garganta. No fundo, uma paisagem verdejante enfatiza o poder sensual e emotivo da composição.

Na próxima vez que observar uma orquídea. pare, tire uma foto e desenhe-a em seus belos detalhes.

Mande as fotos e desenhos aqui pra gente!

Eu amo orquídeas. Eu desenho orquídeas.
Eu amo orquídeas. Eu pinto orquídeas.
Professores estudam orquídeas em museu de ciências.

Para saber, se apaixonar e cuidar mais

4 Comments on “Orquídeas, por que te quero?”

  1. Amei a iniciativa!!! Ficou ótima esta exposição virtual. Descobri várias coisas sobre as orquídeas. Parabéns ao Roberto, ao professor Paulo Colonese e ao Espaço Ciência Viva!!

  2. Excelente Artigo sobre Orquídeas! Essas plantas são realmente fascinantes! Parabéns pelo site! É fundamental um trabalho bem feito de Marketing Digital nos dias de hoje, para alcançar mais pessoas.

    Uma atuação mais sólida nas diversas mídias sociais também é uma estratégia interessante.

    Parabéns equipe do ECV!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.