A Chuva: um tema de pesquisa na Escola Pamáali

Capa: Despertar do Espírito no Coração da Floresta, Escola Baniwa no Rio Içana. Wikipedia.

Judite Albuquerque, Carlos Alfredo Arguello, Laise Diniz, Professores Baniwa.

Relato de Oficinas Educativas de formação de educadores indígenas em Ciências. Artigo publicado na coletânea de experiências  EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO, 1998-2011.

“Educar em ciências é vivenciar no aluno o processo de Fazer Ciências, de Viver Ciências […]”, e deu exemplos, colocando a mão na massa em projetos como o Inajá e o Homem Natureza, cursos de habilitação de professores leigos para o Magistério. E o projeto Tucum, voltado para a formação de professores indígenas. Na primeira turma do Projeto Inajá, o professor Arguello e outros professores da Unicamp, viabilizaram a realização de uma etapa de aulas dos alunos do Inajá na Unicamp. Ali, a experiência de “fazer ciência com as mãos” marcou profundamente os cursistas do Inajá e sua forma de organizar o ensino com pesquisa. (Universidade do Mato Grosso, Homenagem ao Educador Arguello)

A CHUVA: UM TEMA DE PESQUISA

Durante a terceira oficina de formação dos professores que atuavam na Escola Pamáali em maio de 2003, foi elaborado o planejamento da etapa letiva seguinte, que aconteceria no mês de junho. Estiveram presentes 12 professores Baniwa e Coripaco que haviam participado das duas oficinas anteriores, e também novos participantes, professores Baniwa, e alguns anciãos e lideranças da Escola Pamáali, dispostos a contribuir com conhecimentos da cultura Baniwa e Coripaco relacionados com as estrelas e o calendário ecológico.

A oficina foi coordenada pelos assessores prof. Carlos Alfredo Arguello (Unicamp) e profª Judite Albuquerque (Universidade de Mato Grosso, Unemat). Continuou-se com as discussões iniciadas anteriormente, em novembro de 2002 na Escola Pamáali, quando foram construídos instrumentos simples de observação da natureza:

  • o gnomon,
  • o pinico solar,
  • e o telescópio.

Entre os professores, manifestava-se o desejo de aprender a fazer um planejamento de aulas trabalhando por temas e através de pesquisas. Os anciãos expuseram seus conhecimentos para as gerações mais novas. Este texto apresenta um exemplo de sistematização de plano de aulas para uma etapa letiva, que foi trabalhado durante a oficina.

Planejamento da etapa letiva

Tema escolhido pelos professores e alunos: Chuva. Por que trabalhar com esse tema?

Porque no calendário da região, o mês de junho, quando será a etapa letiva, é um tempo de muita chuva, e a pesquisa vai ajudar a compreender mais profundamente o fenômeno da chuva e outros fenômenos relacionados: temperatura, umidade, pressão do ar e as correntes térmicas. A pesquisa servirá também para organizar as atividades da escola e relacioná-las com as atividades das comunidades, assim como para ter na nossa biblioteca o registro de alguns conhecimentos sobre esse tema, de maneira a enriquecer nosso acervo bibliográfico.

Lista dos assuntos que podem ser estudados a partir do tema chuva:

  • Calendário Baniwa baseado nas constelações.
  • O que é a chuva? Sua importância e como ela se produz;
  • Os diferentes níveis de altura dos rios e igarapés;
  • Medições da quantidade de chuva (precipitação pluvial);
  • Raios e Trovões;
  • Insetos que aparecem mais no tempo da chuva;
  • Atividades humanas durante esse tempo;
  • Organização das atividades da escola nesse tempo;
  • Época de chuva nas outras regiões, tempo de inverno na Amazônia;
  • Diferentes métodos de previsão de chuva.

Metodologia de trabalho

O trabalho de pesquisa tem o seguinte desenvolvimento.

Introdução: Época de chuva na região e em outras regiões no alto rio Negro e na Amazônia, pesquisa bibliográfica e com pais, mães, velhos e velhas. Organização das atividades da escola no mês de junho, através de reuniões com professores, alunos e Conselho da Escola.

Medição da altura do rio: Utilizar como instrumento uma madeira denominada acariquara, lavrada feito uma régua, para a prática de gráficos e previsões. Comparar com a medida de anos anteriores, a partir de dados de épocas anteriores, se existirem. Comparar com dados sobre a variação da altura de outros rios na Amazônia, pesquisa bibliográfica e na internet.

Medição da precipitação pluvial (quantidade de água da chuva): Marcação diária da precipitação das chuvas, feita com uma vasilha, sempre mais ou menos no mesmo horário do dia, durando 24 horas. Ou seja, durante todo o dia, nos momentos em que chover, os alunos e professores devem colocar a vasilha para coletar a chuva. Discutir sobre a importância desta medição para a prática de gráficos, cálculo de captação de água limpa; prática de cálculo de superfícies, volumes, sistemas de medidas, unidades, etc. Importância da comparação desses dados coletados com outras medições de precipitação pluvial no Brasil e em outros países.

Plantio e capina: Nos plantios da escola, verificar a necessidade de limpeza e épocas de colheita. Medir as possíveis erosões e pesquisar maneiras de corrigir. Registrar as plantas que dão colheita nessa época e pesquisar outras, possíveis de serem plantadas, para servir de alimentação dos alunos, como alternativa à pesca que nessa época não é boa.

Pesca: Construir diferentes armadilhas para pesca, organizar os turnos dos alunos, observar e registrar a eficiência de cada uma nessa época de chuvas. Registrar os tipos de peixe que são pescados.

Diferentes métodos de previsão de chuva

Fazer um levantamento dos métodos utilizados pelos Baniwa a partir dos conhecimentos dos próprios alunos e professores, registrando e ilustrando. Completar com uma pesquisa a ser feita entre as etapas letivas nas comunidades, com os velhos e as velhas:

  1. canto da rã – canta três dias antes de chuva;
  2. canto do jacu – quando esse pássaro grita de noite, é sinal que vai chover no dia seguinte;
  3. quando cai uma folha seca, fazendo muito barulho, como se fosse grande;
  4. quando uma árvore se quebra sem vento forte;
  5. quando morcegos falam;
  6. quando as andorinhas falam voando;
  7. quando a arraia procura minhoca de dia, chove depois de 2 ou 3 dias.

Métodos dos não indígenas para previsão das chuvas: fazer uma pesquisa bibliográfica e entrevistas com assessores. A sociedade dos não-índios utiliza principalmente três instrumentos:

  1. barômetro – para medir a pressão do ar;
  2. higrômetro – para medir a umidade do ar;
  3. termômetro – para medir a temperatura do ar.

Experiências que podem ser feitas

  • Chuva na cozinha – para comprovar como acontece a chuva;
  • lâmpada – para comprovar a existência de correntes térmicas;
  • garrafa – modelo de tornado ou corrente de ar espiralada.

Observação dos pássaros

Observar os pássaros que voam aproveitando as correntes térmicas, voando sem mexer com as asas.

Observação dos insetos

Observar e coletar os insetos mais comuns nesse mês de junho, descrevê-los, pesquisar suas histórias, suas funções e outras curiosidades. Contar os insetos e pesquisar como vivem:

  • pium
  • carapanã
  • mutuca
  • mosca
  • centopeia

Como se defender deles?

A utilização da fumaça feita de madeiras especiais é um dos métodos mais utilizados para espantar mosquitos e piuns. Pesquisar outros métodos.

Formação de coleções, pesquisando a taxonomia, ou seja, a classificação desses insetos segundo a Teoria Baniwa e segundo a Biologia dos não indígenas.

Avaliação

A avaliação não deve ser feita só dos alunos, deve ser também uma avaliação dos professores, dos coordenadores, da assessoria, das associações ou conselho da Escola, da participação das comunidades, e das instituições que apoiam a escola, como

A avaliação não é só um momento: ela é contínua, permanente; ela serve, sobretudo, para poder replanejar bem as ações da escola e por isso é que ela deve ser feita continuamente.

Ela deve orientar também cada aluno e professor no desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem, além de informar aos pais e mães dos alunos como a escola está trabalhando e como seus filhos e filhas estão participando e aproveitando suas atividades.

Há muitas maneiras de se fazer a avaliação:

  • autoavaliação: o aluno fala ou escreve sobre o seu próprio desenvolvimento, o que ele aprendeu em cada projeto (tema) de estudo, as dificuldades que ele está encontrando, o que mais ele espera aprender sobre aquele tema, as perguntas que ele tem para fazer, rumos que ele quer dar no seu trabalho escrito e nas próximas pesquisas;
  • observação e acompanhamento feito pelo professor: gestos, ações, iniciativas, respostas, participação em grupo, interesse ou desinteresse, produção na sala e fora de sala de aula.

O professor deve fazer uma observação atenta dos alunos, não para castigá-los, mas para ajudá-los a desenvolver todas as suas potencialidades;

  • documento individual: um texto descritivo sobre cada aluno, analisando o seu desenvolvimento em cada projeto (ou tema de estudo), que servirá também de guia para os planejamentos futuros de todas as ações da escola;
  • reuniões: de alunos, de pais e lideranças, de professores; essas reuniões devem ser registradas, pois são formas eficientes de avaliação;
  • assembleias: de pais, do Conselho ou Associação Escolar, ou Associação de Pais e Mestres, também devem ser registradas e lidas pelos alunos e professores que não participarem das mesmas;
  • reuniões de professores para avaliar e replanejar as atividades da escola: devem ser registradas e lidas sempre que necessário.

Textos de apoio

Pode-se buscar textos de apoio para o tema escolhido para uma etapa letiva, antes do seu início, em livros existentes na biblioteca municipal de São Gabriel ou nos colégios da cidade; ou pode-se escrever textos de apoio durante o período letivo, juntando informações dos professores e de pais e mães dos alunos. Deve-se incentivar os alunos e professores a buscarem textos de apoio para os projetos de pesquisa nas bibliotecas da escola, na internet e com os mais velhos e mais velhas.

O que é a chuva?

O ar quente é mais leve, menos denso do que o ar frio, por isso ele sobe na atmosfera. Para comprovar isso, basta observar a fumaça: ela sobe porque é mais leve do que o ar atmosférico; ou fazer uma experiência, colocando uma hélice de papel sobre uma lâmpada: a hélice se movimenta com o calor.

O ar que se desloca de um ponto a outro ou se concentra, faz pressão. Quando a pressão atmosférica baixa numa certa área: o ar mais leve, mais quente, sobe e chupa (suga) o ar que está em volta, formando o que se chama um centro ciclônico.

Esse ar em movimento é o vento: deslocamento do ar, de certa região de alta pressão, para um centro de baixa pressão (faça o desenho).

Em regiões não muito grandes, mas localizadas (um asfalto, uma mata onde existem regiões com areia e pedras), o ar é mais quente, gerando as chamadas correntes térmicas. Pode-se comprovar a presença dessas correntes térmicas observando o voo de alguns pássaros que aproveitam essas correntes de ar para voar bem alto, sem precisar bater as asas. Eles se deixam levar pela força dessas correntes de ar quente que sobem. É o caso do urubu que é visto planando tranquilamente, sem mover as asas.

Ao subir, o ar das correntes térmicas e dos centros ciclônicos se encontra com temperaturas mais baixas (por volta de 5 a 10 graus abaixo de zero); então esse ar se resfria. O ar quente é capaz de guardar em si uma quantidade maior de água dissolvida, que é o vapor. Mas o ar frio não consegue segurar essa umidade, e solta esse vapor condensado em forma de água que então se precipita. Pode cair em forma de chuva ou de granizo. A chuva de granizo acontece quando, ao subir, o ar encontra temperaturas muito mais frias, cerca de 20 a 30 graus abaixo de zero. Resumindo, pode-se dizer que a evaporação produz o ar úmido que sobe e se condensa nas regiões mais frias e então cai na forma de chuvas.

Raio e Trovão

As correntes térmicas e os centros ciclônicos ao subirem, arrastam consigo poeira, água, areia, partículas de todo tipo que se atritam. Esse atrito provoca a eletrização das nuvens (eletricidade estática, gerando regiões positivas e regiões negativas).

Quando se tocam, uma nuvem de carga positiva com outra de carga negativa, acontecem o raio e o trovão. O raio é a faísca e o trovão é o estrondo que esse encontro de cargas elétricas contrárias provoca.

A eletricidade atmosférica é muito alta, variando entre 150 mil volts até milhões de volts. Para entender isso, basta comparar com a voltagem da eletricidade caseira que é de 100 a 220 volts. Pode-se calcular a distância da tempestade em relação ao observador pelo tempo que leva para se ouvir o estrondo do trovão depois que se viu a faísca do raio. A propagação da luz é quase instantânea, acontece na mesma hora. Ela percorre 300 mil quilômetros por segundo. Ela é muito mais rápida que a velocidade do som, que faz apenas 1.200 quilômetros por hora ou 300 metros por segundo. Por isso, primeiro se vê o raio e só depois se ouve o trovão. Assim, se você marcar 1 segundo entre o raio e o trovão, significa que a tempestade está a 300 metros de distância de você. Se você marcar 2 segundos, ela está 600 metros longe de você. Se marcar 3 segundos, 900 metros e assim por diante. De maneira que, marcando o tempo, seguidamente, é possível saber se a tempestade está se aproximando ou se afastando do observador.

Métodos de previsão de chuva na tradição Baniwa

Nas sociedades não indígenas existe uma ciência que estuda e prevê o clima, chamada Meteorologia. Com esse conhecimento pode-se prever se o tempo vai ser bom ou não, nos dias ou meses subsequentes. Na tradição Baniwa também existem conhecimentos e métodos de previsão do tempo, muito utilizados pelos antepassados. Esse conhecimento foi transmitido de geração para geração e até hoje é conhecido pelos adultos e mais velhos.

Na terceira oficina dos professores Baniwa e Coripaco, que foi realizada em maio de 2003, um dos assuntos discutidos foi o método de previsão de chuva na tradição Baniwa. Para o registro desse tema os senhores Fernando José e Paulo Eduardo foram entrevistados. Como a oficina tinha como objetivo produzir materiais didáticos durante sua realização, nós registramos o que foi dito durante essas entrevistas, que foi estruturado no texto seguinte.

“Na sociedade Baniwa existem vários tipos de indicadores de chuva, que são oferecidos pela própria natureza, como por exemplo: animais, peixes, árvores, minhocas, aves e até as constelações.

Alguns sinais indicam a chuva comum e alguns indicam a chuva grande, ou chuva propriamente dita, que é conhecida como chuva de inverno. Neste texto, teremos oportunidade de conhecer alguns indicadores de chuva na nossa tradição:

  1. Jacu é um tipo de ave que geralmente é encontrada em qualquer lugar, ou seja, em qualquer região. Quando esse pássaro cantar ao cair da tarde, isso significa que vai chover no dia seguinte, mas isso indica chuva comum.
  2. Tucano é um tipo de ave que tem bico grande meio curvado, que tem penas pretas, na região do ânus tem penas amarelas e vermelhas.

Quando esses pássaros se juntam numa árvore morta logo cedo, isso significa vai chover logo em seguida.”

Últimas considerações

Para quem imagina que organizar uma escola desenvolvendo as propostas curriculares por meio de temas e de pesquisa é coisa complicada, nossa resposta é NÃO! Não é complicado, mas precisa ser bem planejado desde o começo dos trabalhos.

Escolher o tema e conversar bastante sobre os motivos da escolha. Neste caso, o tema da chuva foi escolhido porque a etapa seria na época da chuva, na Escola Pamáali; e as atividades foram escolhidas para dois meses de aula, em tempo integral.

Como tínhamos vários subtemas, foi preciso conferir que aspectos interessavam mais a uma ou a outra turma. Cada pequeno grupo, ou turma, deve fazer depois seu próprio planejamento, sempre com a orientação do professor.

O planejamento inclui longos momentos de reunião de todos os alunos para comunicar o andamento da sua pesquisa, o que estão descobrindo, o que não estão conseguindo entender, o que estão precisando para continuar os trabalhos.

Esses momentos de reunião da turma toda são muito bonitos e cheios de novidades. Os alunos costumam trabalhar muito bem em grupo e vão se animando mais, na medida em que vão descobrindo os conhecimentos, chegando às respostas das perguntas que eles mesmos se colocaram. Os espaços vão sendo ocupados e organizados de acordo com as necessidades da pesquisa. Os horários acabam sendo flexíveis, e bem utilizados. A escola acaba sendo um grande laboratório.

Se por acaso o diretor da escola não entender o que está se passando (isto não acontece na Escola Pamáali, porque o diretor é também professor e orientador de pesquisa), ele pode pensar que a escola virou uma bagunça: Engano! Tudo está no lugar em que deve estar, mas não como nas escolas que trabalham com sistemas fechados.

Ah! Nesses casos, não rola pesquisa, porque a coordenação pedagógica e o diretor acham que faz muita bagunça. E também porque de 50 em 50 minutos toca uma campainha e troca de professor e daí acaba com tudo o que estava começando.

E começa outro assunto. Isso é muito desagradável, não se conclui nada e já vem outra aula. A pesquisa termina (não o assunto, que geralmente não tem fim e se pode voltar sempre nele para se aprofundar) quando os alunos estão satisfeitos com o que conseguiram entender e registrar. Fica tudo anotado, relatado, ilustrado, pronto para divulgar. É preciso ainda lembrar que depois de tudo pronto, não tem nota, porque o professor esteve junto o tempo todo, acompanhou cada grupo, cada aluno, e ainda tem o trabalho de escrever um texto sobre cada projeto e cada aluno, no final da etapa.

Tudo o que se produz de conhecimento pela pesquisa, numa escola indígena onde a comunidade pensa e reflete o que quer da escola, precisa ficar pronto para ser divulgado e até publicado, porque a comunidade (pais, mães, lideranças, alunos, professores) participou da montagem do currículo, a comunidade veio na escola discutir o andamento, ver os resultados, propor mudanças, alterar decisões. Afinal, a comunidade precisa e quer saber o que as crianças e os jovens estão produzindo para melhorar a vida na comunidade.

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