Deus-Sol-Energia

O que foi o Deus-Sol para os povos primitivos e o que hoje significa a energia solar sob o planeta Terra são
reflexões apresentadas neste artigo. Carlos Alfredo Arguello. Publicado em Tempo e Presença, publicação do CEDI, Centro Ecumênico de Documentação e lnformação, Ano 15, Número 271, 1993.

Derrubado o paradigma consumista, voltaremos a degustar o por-do-sol, admirar o voo de um pássaro e reconquistar o sabor da água cristalina.

U m número enorme de civilizações importantes elevou o Sol ao nível de divindade máxima.

  • Egípcios adoravam Re, Sol do Zenit, acompanhado de Kbeper, jovem Sol nascente, Atum, o velho Sol de ouro do poente, Horus, o olho do Sol.
  • O antigo Japão, o império do Sol nascente, adorava Amatersu.
  • No Novo Continente, Huitzilopochtli e Tezcatlipoca eram os deuses do Sol do poderoso império asteca.
  • Inti, deus-Sol, dominava o império do Sol dos incas na costa do Pacífico da América Andina.
  • Nos povos da Amazônia, podemos citar o exemplo dos Apinajés, que cultuavam Mbud-ti (Sol) e Mbuduruvi-Re (Lua).

Os cultos pagãos de adoração ao Sol parecem ter influenciado a própria liturgia cristã: fixaram o dia
incerto do nascimento de Jesus, data máxima do cristianismo – 25 de dezembro- para coincidir com
a Festa do Sol Invictus, da religião monoteísta Solar Romana.

Os povos antigos, que mantinham estreito contato com a natureza, perceberam a importância do
Sol nas suas vidas. O êxito de suas colheitas – portanto, a possibilidade de boa alimentação-, o próprio comportamento climático, a sequência rígida da sucessão entre os dias quentes e sorridentes e as noites frias, misteriosas e amedrontadoras, tudo isso dependia dele.

Do ponto de vista energético, podemos dizer que eles viviam numa verdadeira era solar. A única fonte de energia era o Sol, e, enquanto era consumida, então muito menos energia que o Sol jorrava diariamente sobre a Terra, havia abundância, riqueza, e o Planeta era preservado no seu delicado equilíbrio.

A utilização do carvão de pedra (1700) e do petróleo (1900) como fontes de energia – acompanhada de uma necessidade crescente de produção de bens de consumo impostos pelos novos paradigmas econômicos e pelo aumento exponencial da população – trouxe uma nova e falsa visão de progresso e prosperidade, construída com base no esgotamento de fontes não-renováveis de energia.

O carvão de madeira, o carvão de pedra e o petróleo não são senão formas diferentes de energia solar
acumuladas ao longo de milhões de anos, e que se esgotarão em poucas décadas.

Hoje, podemos acrescentar ao nosso Sol e a outros sóis – as estrelas – responsabilidades surpreendentes e inimaginadas pelos nossos ancestrais. Todos os átomos de nosso corpo, dos animais, dos vegetais, das rochas, enfim, de todo o planeta – até aqueles cuja energia armazenada é explorada nos reatores nucleares – foram formados dentro do cadinho infernal de algum Sol, talvez já desaparecido.

Mesmo do ponto de vista da modema ciência, há motivos de sobra para que a adoração ao Sol seja
compreensível e justificável. De todas as coisas concretas, materiais, o Sol é o que mais se parece
com um deus, um deus-Pai, que acalenta, alimenta, protege, eterno, inalcançável, belo e imponente.

REENCANTAMENTO

Nota-se hoje um fenômeno universal e inquestionável: o religioso e o místico estão de volta. Não se trata de constatar a persistência das religiões históricas que resistiram a todo tipo de ataque, desmoralização ~ perseguição pelos poderes políticos e até a tentativa de deslegitimação por parte do saber crítico e científico. A novidade reside exatamente na verificação de que os filhos do saber crítico e científico estão-se tornando religiosos e místicos. mundial, demonstra a fragilidade do paradigma consumista e dita limitação
ao conceito da atual democracia. Em contraposição, a enorme onda de falso cientificismo, misturada ao esoterismo de consumo, produz um conjunto de termos de uso acadêmico, mitos, magia e inconsequência, que formam o esqueleto semântico de uma pseudociência energética atual, estéril na sua praticidade. Importa compreender a relevância de tal dado, decifrar-lhe a mensagem que devemos captar e perceber sua missão no processo mais amplo a que todos atualmente estamos submetidos, ou seja, a mutação cultural em curso. Precisamos encontrar alternativas viáveis à modernidade. Não podemos renunciar à racionalidade, pois necessitamos dela para administrar a complexidade humana e mesmo para sanar os malefícios que ela produziu. Urge, sim, ultrapassar o racionalismo (a razão como a .única forma legítima de acesso e gerenciamento do real) e integrar a razão num todo maior.
Fonte: Extraído do texto “Religião, justiça societária e reencantamento”, de Leonardo Boff (mimeo ).

Cuidado com esse deus. Ele não é eterno, só tem 4,6 bilhões de anos. Conhecemos sua evolução futura e
a data de sua morte, que ocorrerá após assassinar, muito antes, todo rastro de vida na Terra daqui a alguns
bilhões de anos.

A sua bondade não é infinita – se bem que enorme-, ela é limitada. Não mais que 1 kw de potência
por metro quadrado chega à Terra, nas regiões melhor contempladas pelo “deus”, nos momentos
de máxima insolação (potência = energia/unidade de tempo). Para se ter uma ideia do que isso significa,
equivale apenas ao necessário para esquentar a água de uma ducha gostosa.

Toda energia solar que incide sobre a Terra termina, finalmente, sendo emitida para o espaço externo.
Se não fosse assim, a Terra esquentaria indefinidamente. Mas o homem tem a habilidade de transformar
essa energia em outras formas de energia, produzindo trabalho antes que esta se perca para sempre. A energia não é senão isto: a capacidade de produzir trabalho. Nas transformações de energia há sempre uma quantidade que se “degrada” em forma de calor; não pode nunca mais ser utilizada. Simplesmente, foge, e vai esquentar o infinito espaço exterior.

Mesmo do ponto de vista da moderna ciência, há motivos de sobra para que a adoração ao Sol seja compreensível e justificável.

Energia e “energia”. Estes conceitos, matematicamente expressos pelos cientistas, formam o corpo da teoria termodinâmica, a qual trata, com precisão, do significado da palavra energia. Como veremos
mais adiante, a clara compreensão dos princípios energéticos termodinâmicos impõe limites ao crescimento da economia mundial, demonstra a fragilidade do paradigma consumista e dita limitação
ao conceito da atual democracia. Em contraposição, a enorme onda de falso cientificismo, misturada ao
esoterismo de consumo, produz um conjunto de termos de uso acadêmico, mitos, magia e inconsequência,
que formam o esqueleto semântico de uma pseudociência energética atual, estéril na sua praticidade.

Já presenciei “iniciados” que energizavam cristais embaixo de uma cachoeira ou pacientemente sentados no centro da base de uma pirâmide cabalística, suposta enorme antena “receptora” de energia, ou invocar, inutilmente, de joelhos, no meio do areal, a concentração de energia para levantar um carro atolado, etc. É claro que deve haver outras formas de energia, além das conhecidas. Há poucos anos, ondas eletromagnéticas não eram nem suspeitadas, e hoje, graças a elas, a propagação quase instantânea
de imagem, som ou informação é feita através até e desde os confins de nosso sistema planetário.
Sem dúvida, cientistas e empresários estão sempre alertas a novas formas de energia, e não seria possível
escapar deles qualquer possibilidade, mesmo originada por elucubrações não-acadêmicas. Energia, pela sua possibilidade de produzir trabalho, é dinheiro, e dinheiro (infelizmente) é o motor de nossa
sociedade.

O futuro energético. A energia quantitativamente mensurável é tecnologicamente dominável. Dissemos
que o Sol nos presenteia, continuadamente, com uma quantidade enorme, mas finita, de energia.
O consumo dessa energia aumenta exponencialmente devido ao crescimento também exponencial da população e do consumo per capita que os padrões consumistas impõem à sociedade. Chegará um momento em que a energia, que vem do Sol, não será suficiente para manter os novos padrões mundiais de crescimento e progresso. Nesse momento, a energia solar não poderá mais ser considerada fonte renovável de energia, porque não poderá ser reposta pelo Sol com a mesma velocidade que é consumida.
Pensemos num futuro de plena democracia e de igualdade mundial, em que todo o mundo consuma
nos mesmos padrões futuros que a projeção de consumo energético, nos países ricos, apontam.
Hoje, os Estados Unidos, com 6% da população mundial, consomem um terço da energia do planeta.
Um americano médio consome 300 vezes mais energia que um cidadão do Haiti. E se todos consumirem no padrão americano? Se a população mundial e o consumo de energia continuarem a crescer?
A única fonte de energia renovável, o Sol, não sustentará esse comportamento da humanidade nem
sequer na primeira metade do próximo milênio, como mostram cálculos simples.
Uma população mundial, que, se seguirem as tendências atuais, será de cem bilhões de habitantes
no ano 2200, consumirá um total de 3 x 1016 Kwh/ano, o que significa um crescimento à razão de
1,6% ao ano, ou seja, multiplica-se por 10 a cada 150 anos.
Isto se se considerar que toda a população mundial tenha o mesmo direito de consumir energia que os
povos tradicionalmente mais consumistas iriam gastar nesse ano, ou seja, democracia “com iguais
oportunidades” ao nível do máximo consumo possível. Desse modo, então, a densidade populacional
seria de sete habitantes em cada quadrado de 100 metros de lado, e 100% da superfície da Terra
deveria estar coberta de coletores solares, trabalhando num nível de 10% de eficiência. Tudo isto, em
qualquer ponto da superfície terrestre, se quisermos só utilizar energia solar para manter o “crescimento”.
Mesmo que estes cálculos estejam errados por um fator 10, deveríamos esperar somente 150 anos
para que a previsão se cumprisse.
Indefectivelmente, seguindo a tendência atual, o caos iria chegar, cedo ou um pouco mais tarde.
É evidente que haverá ajustes. O sistema é auto-regulável. Mas estes ajustes serão democraticamente
distribuídos? Serão pacíficos ou catastróficos? Não serão os países pobres, aqueles com pequeno
consumo de energia, grandes taxas de crescimento e produtores de alimentos e matérias-primas, que serão penalizados? Não haverá cada vez mais uma diferenciação entre países ricos do Norte e pobres do Sul? Entre aqueles países pertencentes a blocos econômicos ricos, produtores de ciência e de tecnologia, limitados no seu crescimento demográfico mas não na sua sede consumista, policiais do mundo e juízes do politicamente correto cada vez mais refratários à miscigenação racial, por um lado, e dos países donos de riquezas naturais esgotáveis com populações de cores indesejáveis – pretos, mulatos, amarelos, cobriços –
que se reproduzem como baratas e adoram antigos deuses, pelo outro lado?

ALGO DE ETERNO
A religião não é o que o ser humano faz com sua solidão. Mas o que o ser humano faz com a presença daquilo que nos extasia, alarga nosso coração e que está aquém e além de toda razão. Não é neste horizonte que faz sentido falarmos de Deus? De fato é neste contexto que todas as religiões falam de Deus como presença, presença do sublime, do luminoso, do aconchegante, do santo, do sentido derradeiro.
Durkheim concluiu seu famoso texto sobre “as formas elementares da vida religiosa” asseverando: “Há então na religião alguma coisa de eterno, que é destinada a sobreviver a todos os símbolos particulares nos quais o pensamento religioso é sucessivamente ocultado”.
Sim, o religioso possui algo de eterno. Por isso ele nunca desaparece.
Ele está sempre presente. Também na modernidade. Só que sob a forma de eclipse solar. No eclipse o Sol não morre. Apenas se oculta aos nossos olhos. Mas ele continua presente atrás da sombra.
Fonte: Extraído do texto “Religião, justiça societária e reencantamento”, de Leonardo Boff (mimeo).

Os deuses que voltam a ser deuses.
Se ainda pensamos utopicamente numa sociedade futura igualitária, esta deverá voltar a se transformar numa sociedade solar, por meio da opção por uma pobreza material digna, consciente, solidária e construtiva.
O Sol é distribuído democraticamente na superfície da Terra e não será necessária a concentração do poder nem da produção de bens supérfluos de consumo. O contato com a natureza será essencial. Democratização das comunicações, da informação e do conhecimento acumulado poderá ser uma realidade pela utilização das tecnologias já existentes. A educação voltará a ter o sabor artesanal, contrapondo-se à atual produção em massa de “cidadãos úteis”, engrenagens no sistema que nos asfixia.
Derrubado o paradigma consumista,voltaremos a degustar o pôr do sol, admirar o vôo de um pássaro
e reconquistar o sabor da água cristalina. Se for assim, Re-Kheper-Atum, Horus, Amatersu, Huitzilopochtli, Tezcatlipoca , Inti Mdub-ti voltarão a reinar e a ser, pelo menos, semideuses quase eternos num mundo quase justo.

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