José Mariano Gago: Rede CIÊNCIA VIVA – homenagem a Maurice Jacques Bazin

Mensagem de José Mariano Gago ao II Encontro Internacional de Divulgadores da Ciência, que celebramos no Rio de Janeiro, em setembro de 2013.

Organizadores, Amigos, Colegas

Infelizmente não posso estar convosco hoje como tanto queria.

Agradeço reconhecidamente o convite honroso e amigo e a possibilidade de vos dirigir, apesar da distância, algumas palavras.

Começo por enaltecer a energia e a dedicação dos que organizaram e conceberam este Encontro de reflexão, troca de experiências e memórias, mas onde também cabe a experiência prática, sempre renovada, de proximidade entre cientistas e não cientistas, de divulgação da ciência e de socialização para a cultura que a ciência ajuda a construir.

O Encontro celebra 30 anos do Espaço Ciência Viva do Rio de Janeiro e presta homenagem a Maurice Bazin, seu inspirador e criador.

Gostava de vos falar de Maurice, amigo próximo desde a recuada época de 1974, primeiro em Paris, depois em Lisboa e em Évora, em Portugal, mais tarde no Brasil e no mundo inteiro. Amigo de minha intimidade familiar, mais que família, quase irmão mais velho escolhido, cuja morte não sei deixar de chorar, milagrosamente nos achámos entre exílios, revoluções, sonhos de humanidade em que a ciência fosse motor de respeito das gentes e de diálogo com seus saberes e maneiras de fazer.

Homem de sonhos, amores e paixões, sério e íntegro como não há, ensinou-nos o difícil modo humilde e discreto de conceber e praticar a responsabilidade científica rente ao chão que só gente simples e autêntica sabe pisar.

Estava à vontade em todos os meios, como

um filósofo despojado, um activista convicto, um príncipe lendário

a aprender com o povo da Amazónia, a falar com operários no Chile de Allende, a ensinar jovens professores e animadores culturais portugueses depois da revolução, a trabalhar com estudantes universitários ou cientistas de toda a parte.

Quando Maurice Bazin vivia em Lisboa, após a revolução, estudantes da Faculdade mobilizaram-se parando carros e transeuntes na rua da Escola Politécnica para uma colecta destinada a convidá-lo, eles estudantes, a ensinar Relatividade Geral na Universidade, matéria que então não constava de seus cursos e sobre a qual Maurice escrevera na América, com um colega, um dos mais utilizados livros de ensino superio.

Em Évora, onde tentou ajudar a dar corpo, sem sucesso contra resistências ferozes, à ideia de uma Universidade nova nascida da democratização, levava alunos para o campo, no meio de sobreiros, experimentar física básica sem laboratório.

Aprendi com ele nos anos 80, em minha casa, perto do CERN, laboratório internacional em Genebra onde eu então trabalhava. E, depois de aprender e praticar com ele ensinei gerações de estudantes, e centenas de professores, a mostrar e calcular a conservação de momento linear, numa espécie de cardiograma mecânico que requer alguém disponível deitado no chão ou numa mesa, um cabo de vassoura de madeira onde pousam seus tornozelos, assente e rolando em cima de duas pilhas de livros, uma réstia de luz que reflectida num espelho colado no cabo se projecta e oscila no tecto ao ritmo do coração …

Essa experiência queria fazer hoje convosco hoje mesmo, homenagem sem palavras a Maurice Bazin, acto de ciência experimental onde o coração ocupa o centro do palco, como tem de ser numa homenagem comovida e sincera.

Literalmente é do coração que essa experiência depende: é o momento linear (a quantidade de movimento como também se diz) do sangue que sai pela aorta que o movimento imperceptível do resto do corpo, em sentido oposto, equilibra.

E o velho Tales de Mileto calcula por nós a tremenda proporção que torna visível, no tecto, as pequeníssimas rotações do cabo e do espelho que se lhe colou… Ora a conservação de momento linear tem a ver com a invariância da física nas translações no espaço, ou seja, com esse facto extraordinário de se parecer comportar a matéria aqui, como se comporta em Júpiter ou em Alfa de Centauro, mas também de igual modo em todo o Universo, que portanto não tem centro…

 Ai, tantas saudades tuas, Maurice, saudades de dentro do coração!

Quando pude lançar e ajudar a construir, em Portugal, um movimento de apropriação social da ciência que pela primeira vez criasse de raiz e animasse uma rede de Centros (Espaços) de Ciência em todo o País, mobilizasse professores do ensino elementar ao vestibular a conceber e gerir projectos de ensino experimental das ciências, e que também juntasse generosamente muitas e muitas centenas de cientistas para acções públicas onde cientistas e não cientistas fizessem experiências e observações juntos, falassem juntos, se interrogassem juntos – quando esse movimento se iniciou, começando por ser programa de governo, mais tarde convertido em movimento social não-governamental, hoje com estrutura de associação de laboratórios académicos de referência – havia que lhe dar um nome.

Um nome de guerra. Esse nome, Ciência Viva, escolhi-o há dezasseis anos em vossa homenagem e em homenagem a Maurice Bazin e com a sua cumplicidade algo encabulada, divertida e sempre solidária. 

Com ele (que foi ainda membro do conselho científico do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva de Lisboa) procurámos aprender a história e a experiência iniciais do Exploratório de São Francisco e partilhámos intensamente a sua e a nossa experiência no Brasil e em Portugal. Estamos pois, aqui e aí, mais juntos e juntos há mais tempo do que a distância que o mar atlântico parece medir entre o Rio e Lisboa.

O nome que partilhamos, Ciência Viva, é uma bandeira difícil e um grito de alerta, uma voz humana e solidária que recusa a exclusão dos que não sabem, uma súplica contra a guerra e um gesto de revolta pela liberdade de pensar e descobrir.

Viva a Ciência Viva!

José Mariano Gago Lisboa, setembro de 2013. 

José Mariano Rebelo Pires Gago  (Lisboa, 1948 – Lisboa, 2015) foi um professor universitário, cientista e político português. Homenagem a Mariano Gago. http://www.marianogago.org/.

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