O que diz o especialista

EPISÓDIO: “PENDURADA ENTRE GALHOS” – O que diz o especialista

Equipe: Alcinéa Triani Costa, Jaciele Sotero Dos Santos, Vanessa Rosália Paes Pires, Adriana Valente (Colaboração), Tânia Goldbach (Coordenação).

Nos espaços verdes e nos jardins podemos encontrar várias espécies de animais. Alguns bem pequenos e outros um pouco maiores. Dentre os animais encontrados, estão as aranhas. As aranhas atraem pela curiosidade, mas muitos morrem de medo. Apesar de despertarem medo ou fobia em algumas pessoas, as aranhas – como todos os seres vivos – têm a sua função em seus ambientes, pois podem atuar fazendo controle biológico, limitando a proliferação de espécies nocivas, predando alguns insetos e também servindo de alimento para outros animais como pássaros e lagartixas. É muito importante que elas sigam ocupando seus lugares!

As aranhas pertencem à ordem Araneae, da classe Chelicerata, do filo Arthropoda.

Aqui está uma aranha que foi encontrada no jardim da casa de uma mediadora do ECV. Ela estava em um arbusto, entre as folhas. Foi bem legal filmá-la e fotografá-la para conhecer mais e divulgar aqui no site do ECV para vocês, leitores e amigos!

Argiope argentata (nome comum: aranha de jardim).

VAMOS APRENDER MAIS SOBRE ESTES ANIMAIS NESTA ENTREVISTA?

Para termos mais informações a respeito desta aranha, conversamos com o Pesquisador Pedro de Souza Castanheira, Mestre e Doutor em Zoologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com experiência na área de Zoologia, e ênfase em Aracnologia.

Pedro é pesquisador do Laboratório de Diversidade de Aracnídeos do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

ECV: Pedro, será ótimo contar com sua ajuda para conhecer um pouco mais das aranhas, já que é sua especialidade na Zoologia e é o tipo de bicho que você estuda há tanto tempo! Grata por responder nossas perguntas!

ECV: Qual o número aproximado de espécies de aranhas no Brasil?

Pedro Castanheira: Os últimos dados gerais de espécies com distribuição incluindo o Brasil datam de 2017. De lá pra cá, nenhum trabalho foi publicado com um apanhado geral de espécies. Neste trabalho em específico, os autores apontam a presença de 3.103 espécies, porém esse número está certamente muito desatualizado, com a adição de várias espécies nestes últimos três anos.

ECV: Existe alguma espécie de aranha que seja mais comum no Rio de Janeiro?

Pedro Castanheira: Não.

ECV: Encontrar aranhas em ambientes urbanos é um fato comum?

Pedro Castanheira: Muito comum. Existem várias famílias com espécies associadas ao ambiente domiciliar ou peridomiciliar.

Dica do ECV: Você pode observar as aranhas no seu jardim ou em outros espaços verdes da cidade. Aproxime-se e observe com cuidado, mas não toque nelas para evitar acidentes.

ECV: Será que podemos saber por que aquela aranha estava naquele jardim?

Pedro Castanheira: Porque aquela espécie, Argiope argentata (Fabricius, 1775), possui hábitos diurnos e é comum em ambientes abertos como jardins (daí vindo um dos seus nomes populares, “aranha de jardim”) ou bordas de matas.

ECV: Porque a aranha estava nos galhos e naquela planta? Uma coisa está associada a outra?

Pedro Castanheira: Porque galhos e folhas são necessários para a sustentação da teia orbicular.

ECV: Aranhas mordem ou picam?

Pedro Castanheira: Termo muito genérico. Mordida está mais associada às mandíbulas de vertebrados e picada mais associada a um aparelho picador propriamente dito, ambos ausentes em aranhas. Diria que as quelíceras das aranhas deveriam ter uma terminologia própria, mas já vi autores usando ambos os termos, mas em inglês é usado o termo “bite” que significa mordida. Fiquem à vontade para usar qualquer um dos dois termos.

Dica do ECV: Os animais peçonhentos, além de produzirem o veneno, possuem uma estrutura para inoculá-lo (ou injetá-lo) em sua presa. No caso das aranhas, esta estrutura inoculadora, são as quelíceras.

ECV: As aranhas encontradas nos jardins de casa são venenosas?

Pedro Castanheira: São peçonhentas, mas não há riscos para seres humanos.

ECV: É muito comum acontecer acidentes com aranhas que vivem em ambientes domésticos?

Pedro Castanheira: Não.

ECV: Como as aranhas se adaptaram a ambientes urbanos?

Pedro Castanheira: Possivelmente através de mutações que possibilitaram uma resistência e sobrevivência neste micro-habitat, tendo se adaptado para um ambiente mais quente e com menos predadores.

Aranha argiope em sua teia prestes a comer sua presa, com saco de ovo. (Licença Freepik premium).

ECV: Como as aranhas se reproduzem?

Pedro Castanheira: As aranhas são animais dióicos que muitas vezes apresentam rituais de corte complexos. A reprodução se dá através do pedipalpo modificado dos machos, cuja região tarsal é modificada em um bulbo copulatório. Esse bulbo é inflado com esperma e introduzido na região genital da fêmea.

ECV: Existe alguma época específica para reprodução?

Pedro Castanheira: É variável de grupo para grupo, mas de uma forma geral, está mais associada às épocas quentes.

ECV: As aranhas costumam ter quantos filhotes a cada ninhada?

Pedro Castanheira: Impossível dizer, mas pode variar pra mais de mil ovos.

ECV: Como é o ninho das aranhas que não fazem teias? Onde ela põe os ovos?

Pedro Castanheira: Não é porque uma aranha não constrói uma teia de captura que ela não constrói teias com diversas outras funções, sendo uma delas para deposito de ovos, o qual será envolto por mais camadas de seda formando um saco de ovos.

ECV: Quais locais são mais comuns para encontrá-las então: teias ou tocas?

Pedro Castanheira: Em teias ou vagando pelo substrato. Algumas espécies, porém, se entocam.

ECV: Quanto tempo, em média, uma aranha vive?

Pedro Castanheira: Muito variável, mas a caranguejeira adulta mais velha do mundo morreu com 43 anos.

ECV: Todas as aranhas fazem teias?

Pedro Castanheira: Não. Há um grande número de aranhas que somente utilizam um fio de seda para captura de presas, ou vagam livremente pelo solo ou ainda aquelas que constroem tocas.

Argiope argentata (Fabricius, 1775). Figura do vídeo “Pendurada entre galhos”.

Dica do ECV: A teia da aranha é produzida por uma glândula que fica em seu abdômen, é expelida na forma líquida e endurece ao entrar em contato com o ar. Seus fios são transparentes e muito resistentes e funcionam como adesivo para capturar os insetos.

ECV: Todas são venenosas? Pra quem? Como agir em caso de picada?

Pedro Castanheira: Exceto uma família de aranhas (Uloboridae), todas as demais possuem glândulas de peçonha associadas às quelíceras. Porém, exceto poucas espécies de importância médica como algumas caranguejeiras, armadeiras, aranhas-marrom e viúvas negras, não há muito o que temer. Em caso de picada, o procedimento é uma lavar a região afetada com água e sabão e em caso de uma reação alérgica, procurar atendimento médico.

ECV: Como é o hábito alimentar das aranhas?

Pedro Castanheira: Todas as aranhas são predadoras, caçando desde pequenos insetos até outras aranhas ou mesmo pequenos mamíferos, anfíbios e aves. Podem caçar de forma ativa através de busca ativa ou de forma passiva, através da construção de teias de captura ou do método “senta-espera” na entrada de tocas.

ECV: Como as aranhas se protegem dos predadores?

Pedro Castanheira: Através da camuflagem com a vegetação/solo, ou se escondendo em refúgios, enroladas em folhas ou dentro de tocas.

ECV: Você pode dar um recado para quem ler nossa matéria sobre o que faz e como conhecer mais sobre aranhas, seja no Museu Nacional, seja de outra forma?

Pedro Castanheira: A melhor forma de se conhecer mais sobre aranhas é, primeiramente, tentando perder um pouco do medo que elas podem causar, procurando saber mais sobre sua biologia em artigos científicos e através de fotografias disponíveis online. Outra forma muito interessante é visitando coleções cientificas e assim conhecer um pouco da diversidade de espécies.

Clique aqui para conhecer alguns sites sobre as aranhas.

Dr. Pedro, o Espaço Ciência Viva agradece a sua contribuição para a divulgação científica falando um pouco mais sobre as aranhas e esclarecendo nossas dúvidas.

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