De flor em flor, o passarinho enche o papo

Foto de capa: Beija-flor de fronte violeta macho (Thalurania glaucopis). Dario Sanche, SÃO PAULO, BRASIL, CC BY-SA 2.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0>, via Wikimedia Commons.

Parceria entre Espaço Ciência Viva (Prof. Paulo Henrique Colonese) e FEUSP/Projeto Integrado de Estágio em Docência em Matemática e Ciências ( Profa. Raquel Milani e Profa. Martha Marandino). Colaboradora-autora: Julia Marques Silvaeducadora, estudante do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da USP e estagiária voluntária do Espaço Ciência Viva, 2020.

Se você leu a matéria “Flores que quero beijar, você já deve estar expert sobre a reprodução das plantas. Você deve também estar curioso para saber qual é o animal polinizador, pequenino e com bico grandão.

É o beija-flor!

Se você já viu algum perto da sua casa, pode ter sido o Beija-flor-de-fronte-violeta, que gosta bastante de jardins. Ele pertence a linhagem dos Beija-Flores Esmeraldas, por conta da sua cor verde-azulada e seu nome se refere a uma mancha violeta que têm no topo da cabeça, parecido com um boné.

O beija-flor passa de jardim em jardim beijando rosas,
mas como as rosas não lhe beijam de volta,
ele parte, vai embora.
No dia em que o beija-flor encontrar uma rosa
que lhe beijar de volta,
ele também partirá, irá embora,
mas sempre volta,
ah, sempre volta…

Augusto Branco

O Casal Thalu

Quando os cientistas descobrem um novo ser vivo, eles o batizam com um nome científico, com termos em latim ou grego.

Mas, normalmente, ele já foram observados antes e já possuem nomes populares. O nome popular desse beija-flor é Beija-flor-de-fronte-violeta. E o nome científico do nosso novo amigo é Thalurania glaucopis. É um nome bastante difícil para ser falado ou lido e , por isso, vamos usar um apelido que inventamos aqui no Ciência Viva. Vamos chamá-lo de Thalu!

O corpo do Thalu mede aproximadamente 11 centímetros de comprimento e seu bico tem quase 2 centímetros. Sua língua é bem comprida e, quando esticada, pode alcançar até 4 centímetros. Isso significa que sua língua é quase 1/3 do tamanho de seu corpo, o que é bastante coisa!

Que língua grande você tem!

Imaginem se a língua do seu pai, que deve ter mais ou menos 1,80 m, tivesse 60 centímetros? Ele teria uma língua de duas vezes uma régua escolar de 30 centímetros, o que seria bem curioso. Provavelmente não caberia em sua boca. Para o Thalu, essa é uma característica muito importante, pois é dessa forma que ele consegue se alimentar.

Apesar de caçar alguns insetos ou aranhas pequenas no ar, essa não é a principal fonte de alimento do Thalu. Ele gosta mesmo é do néctar – uma substância adocicada que as flores produzem e guardam lá dentro delas. Ele parece um pouco com um suco bem doce, um tanto quanto espesso. Para que a ave consiga alcançar o néctar, é preciso que ela estique a língua para dentro da flor, como estão fazendo os beija-flores acima.

É quando ele está se alimentando que outra coisa muito importante acontece: o Thalu encosta no pólen, aquele grãozinho presente nas flores, do qual falamos na matéria matéria “Flores que quero beijar. Assim, seu corpo carrega essas células reprodutivas para outra planta e, por isso, o Thalu é um polinizador fantástico!

Além dele matar sua própria fome, contribui para a reprodução das plantas das quais retira o néctar. Inclusive, ele adora tomar banho de chuva para se manter limpo depois que tem contato com esse líquido grudento.

O casal Thalu vai ter Thaluzinhos

Ah! O Thalu também precisa se reproduzir, para garantir sua continuidade na Terra, e continuar exercendo seu papel de polinizador.

Ele faz um ritual nupcial que envolve alguns movimentos e barulhos, com objetivo de atrair e conquistar uma fêmea, ajudado por suas cores vibrantes, fundamentais na arte da conquista.

As fêmeas não têm cores tão chamativas quanto os machos, já que não utilizam isso para atrair seus pares na reprodução, como você viu nas fotos anteriores.

Quando a cerimônia nupcial dá certo, a fêmea bota pequenos ovinhos, de onde nascerão os Thaluzinhos! Durante os 15 dias em que a fêmea fica incubando os ovos, ainda dentro de seu corpo, ela e o papai constroem um ninho, bastante característico, em forma de tigela, composto por musgos, folhas, líquens e, às vezes, teias de aranha.

Os ninhos são sempre bem estruturados e estão prontos para receber os pequenos ovinhos que virão. Rogério Rodrigues Nadal, CC BY-SA 4.0, Wikimedia Commons. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ninho_de_beija-flor_com_ovos.jpg

Os Thalus procuram um lugar para morar

O beija-flor-da-fronte-violeta distribui-se pelo litoral brasileiro, da Bahia até o Rio Grande do Sul, já tendo sido visto em terras argentinas, paraguaias e uruguaias. Onde existir florestas, campos com arbustos ou jardins com as plantas que essa espécie gosta, ela poderá aparecer. Mas tem um problema: se essas plantas desaparecerem, o Thalu, seus amigos e os Thaluzinhos não poderão seguir os seus caminhos.

Com o crescimento das cidades, existe cada vez menos espaços verdes e mais espaços cinzas. O desmatamento na Mata Atlântica, seu habitat natural, força essa turma a se mudar e procurar ambientes propícios para viver e criar suas famílias. Caso não encontrem esse espaço, não há reprodução da ave e nem polinização das plantas.

O desmatamento é um problema real nas florestas brasileiras e de todo o mundo. Pxhere – imagens gratuitas. Foto de formulário PxHere

Vamos criar um Jardim para os Thalus?

Para cuidar dos Thalus, há duas soluções: conservação e restauração.

  • Conservação significa cuidar de todas as espécies de seres vivos que já existem no planeta, de forma que mais nenhuma seja perdida.
  • Restauração significa recuperar os lugares em que a vegetação já foi destruída para reconstruir o que foi perdido pela ação do homem.

Mas nós podemos conservar e restaurar! É importante manter as plantas que vemos no lugar onde elas estão, apreciando toda sua beleza sem destruí-las. Para restaurar, podemos plantar em nosso jardim aquelas espécies que Thalu e seus amigos adoram. Essas espécies normalmente têm flores chamativas, vermelhas ou alaranjadas, facilmente vistas pelos polinizadores.

Como as aves não percebem os cheiros, as flores que elas visitam não são muito aromáticas, e ainda assim são bastante atraentes. Sempre que possível, devemos dar preferência para as plantas nativas, aquelas da nossa região, pois, dessa forma, contribuiremos ainda mais para a manutenção do equilíbrio ecológico do local onde vivemos.

Algumas plantas que atraem o Thalu

Helicônia: com flores vermelhas que ficam penduradas, como num cacho de banana, com formato de bico de papagaio.

Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Heliconia_35.jpg.

Caliandra: com flores vermelhas ou rosas que formam um pompom fofinho, formado por pétalas muito fininhas e macias.

Calliandra harrisii. Liou Yin. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Esponjinha_vermelha_ou_Caliandra_vermelha.jpg

Camarão amarelo: com flores amarelas que despontam para cima, cujo formato lembra a de um camarão.

Serenity. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Corn_flower.jpg

Flor de maio: cacto sem espinhos com flores rosas que aparecem em maio.

Wikipedia. https://pt.wikipedia.org/wiki/Schlumbergera_truncata

Além dessas plantas, várias outras podem compor o seu jardim e colaborar no equilíbrio ecológico. Para saber mais, você pode perguntar para profissionais que entendam sobre o assunto, lembrando-se sempre de buscar fontes confiáveis, como professores, pesquisadores, livros, revistas ou sites da internet, como o próprio Ciência Viva!

Agora que você já sabe bastante sobre o Thalu, vou te contar outra coisa: ele tem muitos, muitos primos, com cores e tamanhos diferentes e outros nomes científicos. Existem cerca de 330 espécies de beija-flores já catalogadas, mais da metade ocorrendo no Brasil – e quem disse que ainda não tem mais a ser descoberto, hein?

Todos eles possuem uma importância enorme para os ecossistemas e nenhum pode ser desconsiderado. A extinção dos animais é uma ameaça real e perigosa, que coloca em risco cada vez mais espécies. A nossa parte – conservar e restaurar – podemos fazer. E seus amigos? Será que também sabem o poder que temos para ajudar o meio ambiente?

Fale com seus amigos e familiares e divulgue informações científicas verdadeiras!

O mundo precisa que todos estejam juntos nessa causa.

Podemos contar com vocês?

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