Caxumba, a vacina mais rápida da história (até 2020)

Foto de capa: imagem de microscopia eletrônica de transmissão (TEM) retrata as características ultraestruturais exibidas por uma partícula do vírus da caxumba. CDC / Dr. F. A. Murphy. 1973. Imagem de domínio público, disponível em https://phil.cdc.gov/details.aspx?pid=8758.

Artigo original: “Feita em quatro anos, a vacina da papeira foi a mais rápida da história – até hoje”. Autora: Claudia Carvalho Silva, Publicado em PÚBLICO, disponível em https://www.publico.pt/, em 16 de dezembro de 2020.

Reproduzimos, aqui, com autorização de PÚBLICO, a incrível história contada por Claudia Carvalho Silva sobre a criação da vacina para a “papeira” ou caxumba, como é conhecida no Brasil. A história nos conta os bastidores e lado humano do principal cientista desta invenção. Boa Leitura!

Maurice Hilleman e a Caxumba

Maurice Hilleman. Acervo MERCK.

Era 1h da manhã de 21 de março de 1963 quando a filha do microbiólogo Maurice Hilleman o acordou. Ela estava com dores de garganta, não conseguia dormir, e o cientista percebeu pelos sintomas que se tratava de caxumba: uma doença infecciosa quase sempre inofensiva, mas sem cura conhecida naquela data. Depois de deitar a filha de cinco anos, foi no meio da noite ao local onde trabalhava – a farmacêutica norte-americana MERCK – buscar material para amostras.

Hilleman, com uma zaragatoa nasofaríngea, tirou uma amostra da garganta da filha.

“Foi bastante desconfortável”, recordou sua filha Jeryl Lynn, num podcast da BBC.

Podemos acrescentar aqui que a coleta de amostra nasofaríngea também é usada na coleta de amostra em um dos testes da Covid-19 e continua sendo bem desconfortável.

E assim começava a ser desenvolvida a vacina mais rápida da história que levou quatro anos até ser aprovada e só, agora, será destronada em rapidez de invenção pela Covid-19.

A Estirpe (Cepa) do vírus da Caxumba “Jeryl Lynn

À estirpe do vírus da caxumba que o norte-americano Maurice Hilleman usou, ele deu o nome da filha: Jeryl Lynn – a mesma estirpe usada ainda hoje.

O cientista começou a cultivar uma versão enfraquecida desse vírus retirado da garganta da filha com o objetivo de criar uma vacina para a doença infecciosa (oficialmente chamada parotidite epidêmica).

Em 1967, a vacina estava pronta e revelou-se eficaz para prevenir a doença.

E os casos sofreram uma redução gigantesca!

O Pai das Vacinas Modernas

DrDr. Hilleman e sua filha Jeryl Lunn, 1960s. Acervo MERCK.

 

Ao todo, Maurice Hilleman desenvolveu mais vacinas do que qualquer outro cientista: foram mais de 40 vacinas para seres humanos e animais.

Foi considerado o “pai das vacinas modernas” e esteve envolvido no desenvolvimento das vacinas preventivas do sarampo, rubéola, hepatite A, hepatite B e varicela.

Apesar de sua grande contribuição para a ciência, ele esquivava-se da fama e era guiado pelo combate a doenças por meio da vacinação, sobretudo em crianças.

“O meu pai tinha uma lista de doenças que ele sentia que tinham de ser tratadas”, explica sua filha Jeryl Lynn.

A vacina criada por meio da inspiração noturna ainda é a mesma que é usada em combinação com vacina de outras doenças. Existem dois modos atualmente:

  • a tríplice viral SCR, a caxumba combinada com a do sarampo e da rubéola (uma vacina tríplice chamada Vaspr), dada a crianças por todo o mundo, oferecendo proteção para as três doenças em uma só vacina atenuada, contendo vírus “enfraquecidos” do sarampo, da rubéola e da caxumba; aminoácidos; albumina humana; sulfato de neomicina; sorbitol e gelatina. Contém também traços de proteína do ovo de galinha usado no processo de fabricação da vacina. No Brasil, uma das vacinas utilizadas na rede pública contém traços de lactoalbumina (proteína do leite de vaca).
  • a quadriviral SCR-V , além das três anteriores, também inclui a varicela (catapora).

Esta inoculação combinada foi introduzida no mercado em 1971, mas as versões isoladas de cada uma destas vacinas já tinham sido aprovadas em 1963, 1967 e 1969 (sarampo, caxumba e rubéola, respectivamente).

Estima-se que as vacinas que foram desenvolvidas por Hilleman no seu laboratório MERCK da Pensilvânia ajudem a salvar  oito milhões de vidas todos os anos.

A rapidez da vacina

Como trabalhava na indústria farmacêutica, foi mais fácil desenvolver, testar e produzir em massa a vacina da caxumba em tempo recorde.

Na altura, os ensaios clínicos também envolviam menos pessoas do que hoje e os protocolos para autorizar uma vacina eram menos demorados. Atualmente, as vacinas podem levar entre dez a 15 anos para serem produzidas e aprovadas.

Ainda assim, como referido em um artigo do site do Canal History, esta vacina foi uma das mais rápidas da história também por causa dos conhecimentos técnicos já desenvolvidos durante a Segunda Guerra Mundial, quando os pesquisadores procuravam vacinas contra o sarampo e a poliomielite. Essas técnicas ajudaram a que a vacina da caxumba pudesse ser desenvolvida em tão pouco tempo – até porque também utilizava embriões de galinhas para enfraquecer o vírus.

O norte-americano Karl Habel já tinha desenvolvido uma vacina experimental contra a caxumba em 1946, com uma versão “inativada” do vírus – mas, na altura da guerra, a doença não foi considerada uma prioridade.

A Caxumba

A caxumba é uma doença viral associada à infância que provoca inchaço das glândulas parótidas, que se encontram na zona da mandíbula. E, tal como os  coronavírus, é transmitida por meio de gotículas expelidas pela tosse, espirros ou saliva, assim como o contato com superfícies contaminadas.

Dependendo da estirpe da parotidite epidêmica, o vírus pode afetar o cérebro ou a medula espinhal e até causar meningite ou levar à perda de audição – mas é, em geral, um vírus inofensivo.

“Tudo o que fiz foi ficar doente nomomento certo, com o vírus certo e com o pai certo”, gracejou Jeryl Lynn ao New York Times, em 2013.

A sua irmã mais nova, Kirsten, foi das primeiras a ser vacinada com a fórmula criada pelo pai.

Uma vida marcada pela morte

Maurice Hilleman nasceu em 1919 durante a pandemia da Gripe pneumônica e teve uma infância complicada no estado rural de Montana. Era o filho mais novo de nove irmãos, e a sua mãe e irmã gêmea morreram pouco depois do parto e ele “mal sobreviveu” à infância, conta a sua filha no  podcast Witness History da BBC. A família era muito pobre e vivia em condições difíceis, com frio e fome. Outro dos seus irmãos morreu também cedo por causa de uma apendicite.

“Ele viu a morte à sua volta e acho que isso criou parte da motivação e do desejo de ser útil que o moveram ao longo da sua vida”, acredita sua filha mais velha.

Apesar das dificuldades financeiras, foi motivado pelos irmãos a estudar e conseguiu uma bolsa na Universidade Estadual de Montana, de onde sairia como o melhor aluno da turma; e depois, mudou de cidade para estudar microbiologia na Universidade de Chicago.

Em 1944, aos 25 anos, Hilleman provou que a clamídia era causada por uma bactéria e não por um vírus, e que poderia então ser tratada com antibióticos.

Desenvolveu uma vacina contra o vírus da encefalite japonesa e apercebeu-se de que o vírus da gripe sofria mutações, prevenindo o alastramento da infecção de uma nova estirpe ao sugerir que a vacina fosse atualizada todos os anos.

Quando a sua filha Jeryll Lynn nasceu, Hilleman tinha ajudado a salvar milhões de vidas. O cientista foi também diretor do Instituto de Vacinação Merck até 1984 e professor adjunto de pediatria na escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia.

Maurice Hilleman morreu em 2005, aos 85 anos, enquanto cresciam os movimentos anti-vacinação nos Estados Unidos. Na altura da sua morte, o presidente do Instituto de Vacinação Merck, Adel Mahmoud, disse que

“este homem descobria uma vacina em tudo o que tocava”.

Também o imunologista norte-americano Anthony Fauci, que tem sido um ícone nos EUA  no combate à pandemia de covid-19, era seu amigo e o considerava um “rabugento adorável”. Dizia, na data, que Maurice Hilleman

“será sempre um dos verdadeiros gigantes da ciência, medicina e saúde do século XX” – e que teria bastado uma das suas descobertas para ter alcançado uma “grandiosa carreira científica”.

“Ele nunca se dava por satisfeito. O seu objetivo, que era impossível, era eliminar qualquer doença infecciosa que pudesse causar sofrimento a crianças, ou o seu internamento ou a morte”, afirmou o pediatra Paul Offit, com quem trabalhou.

Mas nem sempre era uma relação fácil:

“Nunca conheci ninguém que fosse ao mesmo tempo tão inteligente e tão rude.”

Paul Offit é um dos especialistas integrados a uma das equipes para desenvolver a vacina contra a covid-19 e sabe que o recorde do seu colega será agora batido. Acredita que Hilleman teria sido uma ajuda valiosa nos dias de hoje, em plena pandemia:

“Quem me dera que ele estivesse vivo hoje porque diria: ‘Este é o caminho.’ E teria razão, como sempre.”

Para saber mais

Para conhecer mais sobre esse incrível cientista, veja a página da MERCK em sua homenagem, com fotos, biografia e uma entrevista com Hillerman, na matéria Dr. Maurice Hilleman, Pai das Vacinas Modernas. Disponível em https://www.merck.com/stories/doctor-maurice-hilleman-father-of-modern-vaccines/.

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