Entre libélulas, livros e família… Prof Ângelo Machado, naturalista de nossos tempos!

Imagem: Mariana Machado. Ângelo em seu laboratório, cena do filme Ângelo.

Esta postagem contou com a colaboração da cineasta Mariana Machado, neta de nosso homenageado Prof Ângelo Machado (1934-2020), que está presente no episódio “Naturalistas nos Jardins”. 

Arte e Ciência fluem na obra de Ângelo Machado, de várias formas, e isto foi captado de forma sensível e com imensa beleza no filme dirigido, fotografado e editado por sua neta – que traz para cena quem é “Ângelo”, entre livros, libélulas, trabalho e prazeres da vida. Estes temas estarão na mini-entrevista que Mariana gentilmente nos concedeu, transcrita ao final desta matéria. 

Nossa opção de inserir o rosto do Prof. Ângelo Machado, falecido em 6 abril de 2020, na Série: “Naturalistas no jardim” demarca o intuito de manter viva a figura deste incrível pesquisador-naturalista de nossos tempos.

Foi médico de formação, professor da UFMG da área de neuroanatomia, com importante livro didático deste campo voltado par o ensino superior, mas revela em várias entrevistas que verdadeiramente se realizou como entomologista – com foco todo especial nas libélulas, que era um exímio colecionador – e também como escritor e conservacionista.  

Recorte da cena do vídeo “Natualistas no jardim”. Produção ECV 2021.

Vale ressaltar que o Prof. Angelo Machado foi autor de inúmeros livros de literatura infanto-juventil – ganhou o importante Prêmio Jabuti (1993) e atuou de forma engajada durante um bom tempo no Comitê Editorial da publicação “Ciência Hoje da Criança”, da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, além de escrever diretamente várias matérias.   Na revista vale a pena ver a matéria intitulada “Senhor das libélulas” a seu respeito! Vejam aqui.  

Esta atuação na divulgação/educação da ciência e da natureza, que fez em sua vida toda, foi reconhecida com o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica, entre outras homenagens.  

Mas não só escrevia sobre os temas que estudava e colecionava, também agia!  Foi criador da Fundação Biodiversitas, com sede em Belo Horizonte, com ações voltadas para a conservação da natureza, sendo que teve chance de estar em contato com a natureza nas diversas viagens de campo que pôde realizar ao longo da vida pelo Brasil, desenvolvendo de forma bem especial o espírito de naturalista!

Logo da Instituição

Frame do filme “Ângelo”, créditos  Mariana Machado

“Hoje o céu ficou mais belo no horizonte, pois ganhou ainda mais intensidade para o sol iluminar a terra!  (…) 
Cientista, ambientalista, uma das autoridades mundiais em libélulas e espécies ameaçadas de extinção, e renomado escritor de literatura infanto-juvenil de cunho ecológico e publicações científicas. Por sua história, brilhantismo, bom humor frente às adversidades e seus ensinamentos e contribuição pela vida no planeta, a Fundação Biodiversitas* agradece imensamente por todo o seu legado e conjunto de sua obra!”

*Biodiversitas: ONG sem fins lucrativos, de caráter técnico-científico, dedicada à proteção do meio ambiente e a conservação da biodiversidade brasileira.

Trecho publicado no facebook da Fundação Biodiversita, no dia do falecimento de Ângelo Machado – 6 de abril de 2020 (Texto: Comunicação Biodiversita)

Escolhemos a matéria da Radio UFMG, de 2020, para divulgar a reportagem, realizada pelo jornalista Maron Filho, para que tenhamos acesso – de forma direta, da voz autêntica e inesquecível de Ângelo Machado – o que é algo especial! Ouça o áudio no final da matéria: https://ufmg.br/comunicacao/noticias/angelo-machado-em-audio-ouca-a-leitura-de-o-livro-do-pe

Sua neta, Mariana Machado, nos presenteia com uma belíssima produção que é o filme-documentário:  “Ângelo”, lançado no ano passado na 9ª Mostra Ecofalante de Cinema – importante evento audiovisual da América do Sul destinado às temáticas socioambientais – e que continua a ser exibido em diferentes festivais de cinema nacionais e internacionais.    

Aguardem para mais notícias sobre a próxima exibição para o público! Será uma grande oportunidade para conhecermos mais e mais sobre esse naturalista que nos inspira tanto. Clique aqui para ver o trailer do filme.

Cartaz do filme Ângelo – Design por Nina Vidigal

FICHA TÉCNICA:

Direção, fotografia, som, texto, narração e montagem: Mariana Machado
Elenco: Ângelo Machado
Distribuição: Ponta de anzol filmes
Consultora de montagem (primeiro corte): Cláudia Mesquita
Gravação de narração: João Viana (Estúdio Sonhos & Sons)
Pesquisa de trilha sonora: João Viana e Rafael Paulino
Fotografia Adicional (Cena do borboletário): Manoel Carvalho
Correção de cor: Júlia Raad
Desenho de som: Pedro Henriques
Identidade visual: Nina Vidigal
Tradução para inglês: Letícia Machado Heartel e Luís Felipe Machado Heartel
Tradução para espanhol: Mariana Machado e Pablo Amiano
Legendagem: Duda Gambogi

MINI-ENTREVISTA COM MARIANA MACHADO, cineasta e neta de nosso protagonista

Com imenso prazer realizamos uma mini-entrevista com Mariana!

Imagen: Fernanda Sena. Foto-divulgação do filme “Ângelo” (2020)

Conte um pouco sobre sua formação e o que te estimulou a realizar um filme sobre o seu avô?

Acho que minha relação com cinema se iniciou com o gosto pela fotografia, foi algo que meu avô ensinou para meu pai, e meu pai me ensinou, e que pratico desde muito nova. Eles sempre gostaram de fotografar paisagens e natureza, eu comecei por esse caminho, mas logo passei a fotografar pessoas, interessada em suas histórias.

Minha formação acadêmica em cinema se deu no curso de Comunicação Social da UFMG, que tem uma linha de pesquisa muito forte com as imagens. Ao mesmo tempo, ia aprendendo sobre a prática do audiovisual de uma maneira meio autodidata também, experimentando com a câmera, testando possibilidades de montagem, escrevendo roteiros.

Assim como meu avô, vejo meu trabalho a partir de transversalidades. Para além do cinema, também tenho uma relação forte com o teatro, por exemplo. E no próprio filme executei várias funções além de diretora, e meu avô brincava que eu estava igual a ele com suas seis profissões. Ele me ensina a encarar a multiplicidade como natural e importante de ser acolhida, e que pode ser muito bem praticada durante essa nossa arte/vida.  Justamente pelo meu avô ser tão fascinante para mim que eu decidi que meu primeiro filme fosse sobre ele. Também queria entender pelas imagens e pelo processo de criação das mesmas, o que se passa entre microrrelações, nesses mundos que se criam entre poucas pessoas, entre duas no caso. Relações de cumplicidade, de acordos pelo olhar, de trocas de saberes, de escutas e cuidado. Esse filme é uma homenagem a existência desse ser que mais me inspira: Ângelo. Um gesto amor, porque criar também é isso, afinal

Como que as atividades do Prof Ângelo Machado marcou sua formação e sua pessoa? 

Meu avô é meu segundo pai, e antes de tudo ele sempre foi meu grande amigo, cúmplice, confidente, parceiro de visões e de criações. Todos os mundos que ele evoca me encantavam profundamente quando eu era criança, o mundo dos insetos, dos bichos, das florestas, das montanhas, da literatura, das pesquisas de campo e do descobrir os espaços de pés descalços. Já adulta isso continua permanecendo em mim, e tento dar vazão a esses mundos agora da minha própria maneira.

Muito de mim veio de meu avô, e eu agradeço muito a oportunidade de ter vivido tanto perto dele. Minha visão e relação com a natureza, além do interesse pelos seres veio muito dele, quando eu era criança queria ser bióloga, pela admiração que tinha pelo trabalho dele e de meus pais. Quando adolescente pensei em ser antropóloga, ele contribuiu para esse desejo também, e por fim, decidi seguir o caminho das artes, e ele foi parte muito importante de minha formação neste caminho. Como cineasta, ele foi meu primeiro personagem, e sou muito grata a isso, por meu primeiro filme ter sido com e sobre ele.

O Prof Ângelo chegou a ver o filme que você realizou?  Qual foi a reação dele?  O que falou ou falaria?

Sim, ele viu várias vezes! Ele adorava ver o filme, e muitas vezes pedia para gente ver juntos. Ele afirmava que a existência do filme era uma forma de passar sua memória para novas gerações, inclusive para futuros netos e bisnetos. A primeira vez que ele viu o filme foi uma experiência forte. Rimos juntos nos lembrando de como foi nosso processo de gravação, e choramos também, na cena que eu falo sobre minha avó: Conceição Ribeiro Machado, grande cientista e grande amor da vida do meu avô.  Gostaria muito que ele estivesse comigo vendo a repercussão do filme. Eu fiquei muito feliz que seu lançamento foi na Mostra Ecofalante de Cinema, ele certamente iria ficar muito contente com a estreia do filme nesta Mostra também, ele que através da literatura, da ciência e do ambientalismo difundiu ideias e atuou intensamente em prol da conservação da natureza dentro e fora do estado de Minas Gerais. Admiro muito sua história, e acredito que o contexto político que estamos vivendo evidencia mais ainda a importância de se discutir, refletir e agir vigorosamente em defesa do meio ambiente. Eu desejo que o filme traga isso também.

Fotografia Acervo Mariana Machado

­­Mariana Machado é cineasta residente em Belo Horizonte. Seus trabalhos passam pelo audiovisual principalmente como diretora, atuando também como roteirista, fotógrafa e montadora. Além disso, Mariana possui experiências de criação e investigação em performance e cinema-educação.
Hoje, co-dirige o filme Maxita Watimapë (que está em processo de pré-produção) e participa de dois coletivos artísticos: CineFronteira e Plataforma Doras.
É formada em Comunicação Social com ênfase em cinema pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG-Brasil), com parte dessa formação na Universidad Complutense de Madrid (Espanha).

Site: https://www.marianamachado.art/
Instagram: https://www.instagram.com/marianamachaado/?hl=pt-br

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