Sob as ondas – Parte 2: Banco de rodolitos

Estrutura típica de um banco de rodolitos, Porto Norte, Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. Foto de Rosana Rocha, licença (CC BY-NC-SA 2.0)

Banco de rodolitos – estruturas formadas por “rochas vivas”!

É formado por um grupo especial de algas calcárias conhecidas como “rochas vivas” que podem crescer soltas (não cimentadas), no fundo, rolando para lá e para cá, podendo alcançar nódulos próximos a 25 cm, chamados de rodolitos.
Pronto!  Explicado o nome destas interessantes formações marinhas!

Que lugar é esse?

As algas geralmente nos lembram organismos aquáticos laminares ou arborescentes de talo mole. Porém, algumas algas são calcárias e de vida livre que formam estruturas rígidas e relativamente esféricas, os rodolitos. Estes crescem ao redor de pedaços de esqueletos fósseis de rocha.

Os rodolitos podem ser compostos por uma ou mais espécies de algas “coralinas” com crescimento Os rodolitos podem ser formados por uma ou mais espécies de algas “coralinas” que crescem intercaladas com outros organismos incrustantes, como briozoários, gastrópodes, anelídeos serpulídeos e foraminíferas. Uma verdadeira comunidade!

Assim como os recifes de coral, os bancos de rodolitos são bioconstruções que recobrem grandes extensões dos leitos marinhos.

Os bancos de rodolitos são encontrados na plataforma continental e nas ilhas oceânicas. A plataforma costeira brasileira se destaca por apresentar 4.000 km de extensão desse ambiente, a maior em todo o mundo, na faixa de latitude entre 2°N e 23°S, que vai do Pará até o Rio de Janeiro, com mais um banco pequeno e isolado ocorrendo na costa sul ao largo da Ilha do Arvoredo em Santa Catarina.

Extensão do litoral brasileiro na qual é possível encontrar bancos de rodolitos.

Quem habita?

A estrutura dos bancos de rodolitos, com sua arquitetura irregular, fornecem substrato duro e tridimensional para a habitação de uma ampla diversidade de invertebrados (esponjas, cnidários, briozoários, equinodermos, ascídias, etc), algas e peixes, muitos deles de grande importância comercial.

Peixe habitante do banco de rodolitos, Porto Norte, Reserva Biológica Marinha do Arvoredo.
Foto de Rosana Rocha, licença (CC BY-NC-SA 2.0)

A comunidade de algas associadas com os bancos de rodolitos no Brasil é bastante rica, entre 56 e 190 espécies nos bancos já estudados. Mas para grupos de invertebrados como esponjas, equinodermos e tunicados, a diversidade permanece desconhecida na maioria das regiões brasileiras.

Na imagem ao lado vemos animais como esponjas, cnidários, gastrópodes, equinodermos  estrela-do-mar e bolacha-do-mar.

Além da grande diversidade, um dos aspectos mais interessantes dos bancos de rodolitos brasileiros é a presença de espécies endêmicas, que só ocorrem neste ambiente.
Por exemplo, a macroalga Laminaria abyssalis encontrada nas regiões mesofóticas, de 45 a 120 metros de profundidade, conhecida pelos pescadores como um verdadeiro mar de bananeiras.
Em estudo recente (Anderson et al., 2021), classificam esta espécie como ameaçadas de extinção!

Detalhe de habitantes de um banco de rodolitos, Porto Norte, Reserva Biológica Marinha do Arvoredo. Foto de Rosana Rocha, licença (CC BY-NC-SA 2.0)
Laminaria abyssalis no fundo do mar. Foto de Gilberto Menezes Amado Filho, obtida no artigo de Teixeira, V. L., 2013.
Mapa de distribuição da macroalga Laminaria abyssalis na costa brasileira. Foto obtida no artigo de Anderson et al., 2021.

Por que conservar?

Os bancos de rodolitos são importantes ecossistemas marinhos, equivalentes a verdadeiras “florestas marinhas” como são as florestas de algas gigantes (kelps) e as pradarias vegetadas submersas. Além disso, representam um oásis de diversidade nos ambientes sedimentares de paisagens monótonas do leito marinho, cobrindo vastas áreas costeiras em mares rasos polares, temperados subtropicais e tropicais, com altas densidades populacionais.

Funcionam como verdadeiras biofábricas de carbonato, armazenando aproximadamente 200 bilhões de toneladas, conferindo papel chave no ciclo biogeoquímico de carbonatos no Atlântico Sul. Para comparação, as reservas de minério de ferro no Brasil, como um todo, atingem cerca de 29 bilhões de toneladas (https://tecnicoemineracao.com.br/dados-da-mineracao-no-brasil/).

Como existe a precipitação do carbonato de cálcio para formar a estrutura dessas algas coralinas, elas acabam tendo um papel muito importante como sequestradoras do carbono atmosférico, contribuindo para o balanço de CO2 , já que o dióxido de carbono produzido durante seu processo de calcificação é utilizado na fotossíntese.

Floresta de kelp, ilha de Anacapa, Califórnia, EUA. Foto de Dana Roeber Murray/Flickr, licença (CC BY-NC-SA 2.0)

As mudanças climáticas estão entre as principais ameaças a esses ecossistemas, em função  das altas concentrações de CO2 , levando ao aumento da temperatura da superfície do oceano e a redução do pH, isto é, acidificação das águas. Este fenômeno é especialmente preocupante, pois pode reduzir a calcificação ou mesmo promover a descalcificação dos rodolitos.

Outros impactos gerados pela ação humana são as atividades pesqueiras desordenadas, exploração de gás e óleo, exploração comercial de carbonatos para fertilizantes agrícolas e bioprospecção de moléculas com atividade farmacológica.

Conhecer mais e conservar este ecossistema sensível e raro nos trópicos – com tamanha importância no controle climático global – é fundamental!

Referências do texto

  • Amado-Filho, G.M. & Pereira-Filho, G.H. 2012. Rhodolith beds in Brazil: a new potential habitat for marine bioprospection. Brazilian Journal of Pharmacognosy, 22(4): 782788.
  • Anderson, A.B., Assis, J., Batista, M.B., Serrão, E.A., Guabiroba, H.C., Delfino, S.D.T., Pinheiro, H.T., Pimentel, G.R., Gomes, L.E.O., Vilar, C.C., Bernardino, A.F., Horta, P. Ghisolfi, D., Joyeux, J.C.. 2021. Global warming assessment suggests the endemic Brazilian kelp beds to be an endangered ecosystem. Marine Environmental Research 168: 105307.
  • Horta, P.A.  et al. 2016. Rhodoliths in Brazil: Current knowledge and potential impacts of climate change. Brazilian Journal of Oceanography, 64 (sp2):117-136.
  • Schubert, N., Salazar, V.W., Rich, W.A., Vivanco Bercovich, M., Almeida Saá, A.C., Fadigas, S.D.,  Silva, J., Horta, P.A.  2019. Rhodolith primary and carbonate production in a changing ocean: The interplay of warming and nutrients. Science of the Total Environment, 676: 455–468.
  • Teixeira, V.L. 2013. Produtos Naturais de Algas Marinhas Bentônicas. Revista Virtual de Química, 5(3): 343-362.
  • Turra, A., and DENADAI, MR., orgs. Protocolos para o monitoramento de habitats bentônicos costeiros – Rede de Monitoramento de Habitat Bentônicos Costeiros – ReBentos [online]. São Paulo: Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, 2015, 258 p. ISBN 978-85-98729-25-1. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>
  • Vale, NF., Amado-Filho, GM., Braga, JC., Brasileiro, PS., Karez, CS., Moraes, FC., Bahia, RG., Bastos, A.C., Moura, RL. 2018. Structure and composition of rhodoliths from the Amazon River mouth, Brazil. Journal of South American Earth Sciences, 10.1016/j.jsames.2018.03.014.

Dicas de projetos/links ligados ao ambiente Banco de rodolitos

Projeto ReBentos

Esta é uma iniciativa da ReBentos – rede integrativa de estudos dos habitats bentônicos do litoral brasileiro, vinculada à Sub-Rede Zonas Costeiras da Rede Clima (MCT) e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas (INCT-MC). Participam também deste grupo de trabalho dedicado aos bancos de rodolitos representantes da UFSC, USP, UFRPE e UFPB.

Dicas de Materiais didáticos do tema Banco de rodolitos

Manual de Ecossistemas Marinhos e Costeiros para Educadores

Este material contém um capítulo com indicação de diversas Atividades Educativas. Clique AQUI para acessar. (Gerling, C. et al. Manual de ecossistemas marinhos e costeiros para educadores. Santos, SP: Editora Comunnicar, 2016)

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