Discurso no Festival e Seminário Cultura, Infância e Natureza, em 11 de outubro de 2025. Transcrição de Paulo Henrique Colonese, com autorização da palestrante.
Djukurnã significa “mulher sempre disposta, portadora do espírito que nunca envelhece”.
Kren significa “cabeça” e nak significa “terra”, um povo que acredita no poder sagrado que a terra traz.
[Oração, pedindo licença para falar…]
Eu vou começar essa minha fala, trazendo um pedaço da fala do meu pai que eu escutei ainda hoje.
Porque tudo é um processo de preparação.
Até onde a gente pisa,
No momento que a gente fala,
No momento que a gente escuta.
Então, todos os dias nesse trabalho aqui,
eu tive a oportunidade de observar e de escutar.
E tem certas coisas que precisam ser faladas.
Até porque nós estamos falando
de um mundo que é maravilhoso.
E esse mundo, às vezes,
tem tido tão pouco tempo para ser escutado.
Com os seres pequeninos,
A gente precisa de entendimento
do processo de escuta,
para trabalhar com educação,
para trabalhar com criança,
a gente precisa de escutar.
Quem não sabe escutar, não sente.
Quem não sabe escutar, não consegue ver.
Quem não sabe escutar, não consegue falar com o coração.
A principal de todas as ações de fala
quando o processo é evitar.
Quando você fala com o coração,
você fala com a sua alma.
Então, eu aprendi com meu pai,
que é um grande incentivador da minha vida,
um processo educacional,
uma história pequenina,
mas que tem um grande significado
da essência humana aqui.
Antigamente,
o ser humano conversava com a Natureza.
Antigamente,
o ser humano conversava com os Animais.
E tudo era conversado,
tudo chegava a um diálogo.
Só que teve um tempo
em que as coisas começaram
a faltar para o ser humano.
O ser humano começou
a ter necessidade de comer.
Porque esse diálogo e essa sensibilidade
com tudo que nos rodeia estavam se perdendo.
Então, teve um dia em que o ser humano
começou a cavar o Espírito da Terra.
É cavava ali, cavava ali…
E o Espírito da Terra começou a reclamar:
“Ei, psiu, o que você está fazendo? O que é isso?
Você tá me machucando”.
E o ser humano falou com o Espírito da Terra:
“Mas, eu preciso plantar, eu preciso colher,
eu preciso dar comida para os meus filhos.”
E o Espírito da Terra disse:
“Mas, desse jeito,
você tá tirando sangue de mim,
tá me machucando.”
Então, começou um diálogo ali
muito grande entre o ser humano
e o Espírito da Terra.
E esse diálogo não estava chegando a um consenso.
Então, o grande mestre Marét, Guiak
que na língua de vocês é Deus ou Tupã,
veio no meio dessa conversa e perguntou:
“O que está acontecendo entre vocês?”
Então, o mundo falou:
“O ser humano está machucando o Espírito da Terra”,
disse ao Grande Mestre.
“Mas eu estou com fome,
eu estou precisando alimentar
meus filhos, minha família.”,
disse o ser humano.
Aí, o Grande Mestre disse:
“Vamos resolver isso,
vamos resolver agora, isso.
Espírito da Terra,
você vai deixar o ser humano plantar,
você vai deixar o ser humano comer,
porque ele precisa fazer isso para os filhos dele.”
O Espírito da Terra, ficou em silêncio, um segundo.
E depois desse momento, disse.
Mas e Eu? o Espírito da Terra disse.
Eu, como é que eu fico?
Como é que Eu fico?
Então, o Grande Mestre disse assim:
Olha, vamos fazer o seguinte.
Você deixe ele cavar,
tudo que ele precisar plantar
de acordo com a essência dos Animais,
de acordo com a essência da Natureza.
E quando o ser humano morrer,
Eu pego o Espírito dele, e levo.
E você fica com a Carne dele, tá bom?
E tudo se resolveu.
Então, eu fiz uma pergunta aqui na abertura:
Quem aduba a Terra?
Quem aduba a Terra é o corpo do ser humano.
Então, todos os problemas
que a gente vive, vinte e quatro horas por dia,
vêm da gente mesmo.
Porque as pessoas que estão voltando
para a essência da nossa mãe terra,
para a essência da nossa biodiversidade,
para a essência dos nossos biomas,
estão voltando doentes.
E quando o corpo da gente volta
para onde veio, doente,
as coisas se transformam
de um jeito diferente.
E aí, a gente aqui em cima
não consegue suportar
o que a gente mesmo está provocando.
Então, por que que eu estou contando essa história?
Porque para trabalhar com a Educação,
a gente precisa ter entendimento
de trazer as crianças para gente.
Porque o sistema separa a gente,
vinte e quatro horas por dia,
dessa essência do que
é o corpo humano na terra
do que é o corpo humano enquanto espírito, aqui.
Então, trabalhar com a educação
não é algo simples.
É algo honroso, é diferente.
Então, para buscar toda essa complexidade
que a gente está vivendo hoje,
é necessário transformar a essência
de levar a palavra,
de levar a espiritualidade,
de levar a ancestralidade
para dentro desses espaços fechados.
Essas são as ações:
que eu aprendi com o meu pai,
que eu aprendi com o meu povo,
e as ações que eu aplico
nos projetos educacionais
que eu realizo nas escolas.
Primeiro, não são as atividades,
“colocar para fazer alguma coisa”.
Primeiro, é o processo da palavra,
é o processo da escuta,
é o processo do sentir os pequeninos.
Porque, senão, esses pequeninos
que estão crescendo, vão continuar
não sendo adulto bom para a terra.
E aí vai ter um tempo em que
a terra vai abrir a grande boca
e aqui não vai sobrar mais ninguém.
Porque o tempo do ser humano
não é o tempo do espírito da Terra.
O tempo do ser humano
não é o tempo da floresta.
A floresta tem tempo,
nós que não temos tempo.
Nós aceleramos o tempo,
em vez de ter entendimento
do que é que estar dentro desse processo
de trabalhar com o tempo.
Muito obrigada!

