Ilha das Flores: Mentalidade Insustentável

Imagem de capa: produzida com IA Microsoft Copilot, 2026, inspirada no tema do filme Ilha das Flores.

ILHA DAS FLORES

(c) Jorge Furtado, 1988-1989. Casa de Cinema de Porto Alegre. Ilha das Flores.

Este não é um filme de ficção.

Existe um lugar chamado Ilha das Flores.

Deus não existe.

Estamos em Belém Novo, município de Porto Alegre,

Estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil,

mais precisamente na latidude 30 graus, 12 minutos e 15 segundos Sul

e longitude 51 graus, 11 minutos e 23 segundos Oeste.

Caminhamos neste momento numa plantação de tomates

e podemos ver a frente, em pé, um ser humano, no caso, um japonês.

Os japoneses se distinguem dos demais seres humanos

pelo formato dos olhos, por seus cabelos pretos e por seus nomes característicos. O japonês em questão chama-se Suzuki.

Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes,

que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia,

ou bípedes, como a galinha, principalmente por duas características:

o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor.

O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos

armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las.

O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão.

O telencéfalo altamente desenvolvido combinado com a capacidade de fazer o movimento de pinça com os dedos deu ao ser humano a possibilidade de realizar um sem número de melhoramentos em seu planeta, entre eles, … cultivar tomates.

O tomate, ao contrário da baleia, da galinha, dos japoneses é um vegetal.

Fruto do tomateiro, o tomate passou a ser cultivado pelas suas qualidades alimentícias a partir de 1800.

O planeta Terra produz cerca de 61 milhões de toneladas de tomates por ano.

O senhor Suzuki, apesar de trabalhar cerca de 12 horas por dia, é responsável por uma parte muito pequena desta produção.

A utilidade principal do tomate é a alimentação dos seres humanos.

O senhor Toshiro é um japonês e, portanto, um ser humano.

No entanto, o senhor Suzuki não planta os tomates com a intenção de comê-los. Quase todos os tomates produzidos pelo senhor Suzuki são entregues a um supermercado em troca de dinheiro.

O dinheiro foi criado provavelmente por iniciativa de Giges, Rei da Lídia, grande reino da Asia Menor, no século VII Antes de Cristo. Cristo era um judeu.

Os judeus possuem o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. São, portanto, seres humanos.

Até a criação do dinheiro, a economia se baseava na troca direta.

A dificuldade de se avaliar a quantidade de tomates equivalentes a uma galinha e os problemas de uma troca direta de galinhas por baleias foram os motivadores principais da criação do dinheiro.

A partir do século III A.C. qualquer ação ou objeto produzido pelos seres humanos, frutos da conjugação de esforços do telencéfalo altamente desenvolvido com o polegar opositor, assim como todas as coisas vivas ou não vivas sobre e sob a terra, tomates, galinhas e baleias, podem ser trocadas por dinheiro.

Para facilitar a troca de tomates por dinheiro, os seres humanos criaram os supermercados.

Dona Anete é um bípede, mamífero, católico, apostólico, romano, possui o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. É, portanto, um ser humano. Ela veio a este supermercado para, entre outras coisas, trocar seu dinheiro por tomates.

Dona Anete obteve seu dinheiro em troca do trabalho que realiza. Ela utiliza seu telencéfalo altamente desenvolvido e seu polegar opositor para trocar perfumes por dinheiro.

Perfumes são líquidos normalmente extraídos das flores que dão aos seres humanos um cheiro mais agradável que o natural.

Dona Anete não extrai o perfume das flores. Ela troca, com uma fábrica, uma quantidade determinada de dinheiro por perfumes. Feito isso, dona Anete caminha de casa em casa trocando os perfumes por uma quantidade um pouco maior de dinheiro.

A diferença entre estas duas quantidades, chama-se lucro.

O lucro que já foi proibido aos católicos, hoje é livre para todos os seres humanos.

O lucro de Dona Anete é pequeno se comparado ao lucro da fábrica, mas é o suficiente para ser trocado por 1 kg de tomate e 2 kg de carne, no caso, de porco.

O porco é um mamífero, como os seres humanos e as baleias, porém quadrúpede. Serve de alimento aos japoneses, aos católicos e aos demais seres humanos, com exceção dos judeus.

Os alimentos que Dona Anete trocou pelo dinheiro, que trocou por perfumes extraídos das flores, serão totalmente consumidos por sua família num período de um dia.

Um dia é o intervalo de tempo que o planeta terra leva para girar completamente sobre o seu próprio eixo. Meio-dia é a hora do almoço.

A família é a comunidade formada por um homem e uma mulher, unidos por laço matrimonial, e pelos filhos nascidos deste casamento.

Alguns tomates que o senhor Suzuki trocou por dinheiro com o supermercado e que foram novamente trocados pelo dinheiro que dona Anete obteve como lucro na troca dos perfumes extraídos das flores foram transformados em molho para a carne de porco.

Um destes tomates, que segundo o julgamento de Dona Anete não tinha condições de virar molho, foi colocado no lixo.

Lixo é tudo aquilo que é produzido pelos seres humanos, numa conjugação de esforços do telencéfalo altamente desenvolvido com o polegar opositor, e que, segundo o julgamento de um determinado ser humano, não tem condições de virar molho. Uma cidade como Porto Alegre, habitada por mais de um milhão de seres humanos, produz cerca de 500 toneladas de lixo por dia.

O lixo atrai todos os tipos de germes e bactérias que, por sua vez, causam doenças. As doenças prejudicam seriamente o bom funcionamento dos seres humanos. Mesmo quando não provoca doenças, o aspecto e aroma do lixo são extremamente desagradáveis. Por isso, o lixo é levado para determinados lugares, bem longe, onde possa, livremente, sujar, cheirar mal e atrair doenças.

Em Porto Alegre, um dos lugares escolhido para que o lixo cheire mal e atraia doenças foi a Ilha das Flores.

Ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

A água é uma substância inodora, insípida e incolor formada por dois átomos de hidrogênio e um átomo de oxigênio.

Flores são os órgãos de reprodução das plantas, geralmente odoríferas e de cores vivas. De flores odoríferas são extraídos perfumes, como os que do Anete trocou pelo dinheiro que trocou por tomates.

Há poucas flores na Ilha das Flores.

Há, no entanto, muito lixo e, no meio dele, o tomate que dona Anete julgou inadequado para o molho da carne de porco.

Há também muitos porcos na ilha.

O tomate que dona Anete julgou inadequado para o porco que iria servir de alimento para sua família pode vir a ser um excelente alimento para o porco e sua família, no julgamento do porco.

Cabe lembrar que dona Anete tem o telencéfalo altamente desenvolvido enquanto o porco não tem nem mesmo um polegar, que dirá opositor.

O porco tem, no entanto, um dono. O dono do porco é um ser humano, com telencéfalo altamente desenvolvido, polegar opositor e dinheiro.

O dono do porco trocou uma pequena parte do seu dinheiro por um terreno na Ilha das Flores, tornando-se assim, dono do terreno.

Terreno é uma porção de terra que tem um dono e uma cerca.

Este terreno, onde o lixo é depositado, foi cercado para que os porcos não pudessem sair e para que outros seres humanos não pudessem entrar.

Os empregados do dono do porco separam no lixo os materiais de origem orgânica que julgam adequados para alimentação do porco. De origem orgânica é tudo aquilo que um dia esteve vivo, na forma animal ou vegetal.

Tomates, galinhas, porcos, flores e papel são de origem orgânica.

Este papel, por exemplo, foi utilizado para elaboração de uma prova de História da Escola de Segundo Grau Nossa Senhora das Dores e aplicado à aluna Ana Luiza Nunes, um ser humano. Uma prova de História é um teste da capacidade do telencéfalo de um ser humano de recordar dados referentes ao estudo da História, por exemplo: Quem foi Mem de Sá? Quais eram as capitanias hereditárias? Recordar é viver…

Alguns materiais de origem orgânica, como os tomates e provas de história, são dados aos porcos como alimento. Aquilo que foi considerado impróprio para a alimentação dos porcos, será utilizado na alimentação de mulheres e crianças.

Mulheres e crianças são seres humanos, com telencéfalo altamente desenvolvido, polegar opositor e nenhum dinheiro. Elas não têm dono e, o que é pior, são muitas. Por serem muitas, elas são organizadas pelos empregados do dono do porco em grupos de dez e têm a permissão de passar para o lado de dentro da cerca. Do lado de dentro da cerca, elas podem pegar para si todos os alimentos que os empregados do dono do porco julgaram inadequados para o porco.

Os empregados do dono do porco estipularam que cada grupo de dez seres humanos tem cinco minutos para permanecer do lado de dentro da cerca recolhendo materiais de origem orgânica, como tomates e provas de história.

Cinco minutos são 300 segundos. Desde 1958, o segundo foi definido como sendo o equivalente 9 bilhões, 192 milhões, 631 mil, 770 ciclos de radiação de um átomo de Césio. O Césio é um material não orgânico encontrado no lixo em Goiânia.

O tomate, plantado pelo Sr. Suzuki, trocado por dinheiro com o supermercado, trocado pelo dinheiro que Dona Anete trocou por perfumes extraídos das flores, recusado para o molho do porco, jogado no lixo, e recusado pelos porcos como alimento, está, agora, disponível para os seres humanos na Ilha das Flores.

O que coloca os seres humanos da Ilha das Flores depois dos porcos na prioridade de escolha de alimentos é o fato de não terem dinheiro, nem dono.

O ser humano se diferencia dos outros animais pelo telencéfalo altamente desenvolvido, pelo polegar opositor e por ser livre.

Livre é o estado daquele que tem liberdade.

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,

que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

(Cecília Meireles, Romanceiro da Inconfidência)

FIM

Os personagens são fictícios. A maior parte das filmagens foi realizada na Ilha dos Marinheiros. O resto é verdade.

O FILME

Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Furtado, é um curta-metragem documental-satírico brasileiro que mistura humor ácido, linguagem científica e montagem rápida para criticar: o consumismo, a lógica capitalista, a desigualdade social, a miséria e a fome.

O filme acompanha, de forma quase “científica”, o percurso de um tomate — desde a plantação, passando pela venda e descarte, até chegar ao lixão da Ilha das Flores, onde pessoas disputam restos de comida com porcos.

O objetivo é evidenciar a contradição moral e estrutural de uma sociedade que permite que animais tenham prioridade sobre humanos na ordem de acesso ao alimento descartado.

O QUE O CÉREBRO TEM A VER COM O FILME?

O cérebro é citado logo no início porque o narrador apresenta uma sequência de definições “científicas” e lógicas: o ser humano é um mamífero dotado de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor.

Essa frase virou marca registrada do filme e revela como o ser humano, com telencéfalo altamente desenvolvido é capaz de criar sistemas econômicos injustos.

O filme contrastar racionalidade e desigualdade — reforçando o absurdo da situação apresentada. Ou seja: o cérebro é usado como símbolo da capacidade humana de pensar… mas que nem sempre leva a decisões éticas.

A Ilha das Flores é real e fica no município de Porto Alegre (RS), no estuário do Guaíba. No momento da filmagem, a área funcionava como um depósito precário de lixo, o que o filme utiliza para construir sua crítica social. Hoje, a área não é mais um lixão, mas a imagem se tornou símbolo de desigualdade no Brasil.

PILARES DA NARRATIVA DE ILHA DAS FLORES

Encadeamento lógico-causal

O filme é montado como uma corrente de definições: uma coisa leva logicamente à outra, como em um grande dominó conceitual. Exemplo: Tomate → planta → agricultor → dinheiro → mercado → consumo → lixo. Isso cria a sensação de um “documentário científico” que explica o mundo de forma objetiva e fria.

Velocidade crescente

A narração é rápida e vai acelerando, gerando: pressão, ansiedade e uma percepção de absurdo crescente. Quando chega ao tema da fome e desigualdade, o choque é maior justamente porque o tom até então era “neutro”.

Estrutura circular-irônica

O filme começa definindo o ser humano como “mamífero dotado de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor”. Depois mostra que esse mesmo ser produz desigualdade extrema. A estrutura circular serve para reforçar o contraste entre: o que deveríamos ser (racionais, éticos) e o que somos (criadores de sistemas injustos).

O cérebro insustentável como ironia central

A capacidade humana de pensar não impede: desigualdade, fome, injustiça, violência estrutural. Ao contrário: O filme sugere que o mesmo cérebro que cria avanços tecnológicos cria também sistemas de exclusão.

QUESTÕES QUE O FILME PROVOCA

O papel do Cérebro Insustentável no filme

Por que o filme começa apresentando o ser humano como um “mamífero dotado de telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor”?

O cérebro humano é associado à capacidade de criar sistemas complexos. Essa complexidade resulta em mais justiça ou mais desigualdade? Por quê?

O filme usa o telencéfalo como argumento irônico: se somos tão racionais, por que produzimos fome e desigualdade? Como você interpreta essa contradição?

Como a ideia de inteligência humana aparece contrastada com a situação das pessoas na Ilha das Flores?

O que o filme parece dizer sobre o uso — ou mau uso — da capacidade cognitiva humana para organizar a economia e as relações sociais?

Perguntas sobre desigualdade e crítica social

O que significa o fato de que os porcos têm prioridade sobre os humanos na ordem de acesso ao alimento?

Por que o filme escolhe um objeto tão comum — o tomate — para revelar problemas estruturais da sociedade?

A desigualdade apresentada no filme é apenas brasileira ou se aplica a sistemas econômicos globais?

Qual é o impacto emocional do momento em que a câmera mostra as mulheres e crianças esperando restos de comida?

Como você relacionaria o filme com temas atuais como fome, desperdício de alimentos e exclusão social?

Perguntas para ampliar o debate filosófico e ético

O que o filme revela sobre a relação entre valor econômico e valor humano?

A razão humana (simbolizada pelo telencéfalo) deveria impedir injustiças — por que isso não acontece?

O filme sugere que o problema está no sistema econômico, na moralidade humana ou em ambos? Qual sua opinião?

No Sábado da Ciência, venha assistir e debater o filme conosco!

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