Imagem da capa: Ilusão da Grade Cintilante. Sem direitos reservados.
A ilusão da grade cintilante apresenta pontos que parecem piscar (cintilar) em outra cor, mesmo que os pontos nem cintilem e nem mudem de cor!
Para conhecer a ilusão, que tal usarmos nossa imaginação em um bate papo com o criador da ilusão Grade Cintilante, usando informações sobre como ele conheceu, estudou e aprimorou nosso conhecimento sobre a ilusão? Vamos lá.
Como criei a Grade Cintilante
Narrativa criada com ajuda de IA (Microsoft Copilot), simulando um bate-papo com o criador da ilusão.
Olá, jovens curiosos! Meu nome é James R. Bergen. Sou um cientista interessado em compreender como os seres humanos enxergam o mundo. Assim, me tornei um pesquisador da visão humana e da percepção visual.
Desde o início da minha formação acadêmica, fui fascinado por uma questão nada simples:
Como o cérebro transforma luz em realidade?
Será que vemos o mundo exatamente como ele é?
Ou aquilo que percebemos é, na verdade, uma construção produzida pelo cérebro?
Para encontrar respostas, estudei Matemática e Psicologia na Universidade da California, em Berkeley. Mais tarde, realizei meu doutorado em Biofísica na Universidade de Chicago, onde aprofundei meus estudos sobre sistemas biológicos e processamento de informação visual.
Ao longo de minha carreira trabalhei em centros de pesquisa dedicados ao estudo da visão humana e computacional, incluindo a Sarnoff Corporation e a SRI International, nos Estados Unidos. Minha pesquisa envolvia compreender
como pessoas e máquinas interpretam imagens e padrões visuais.
Essa curiosidade me levou a estudar fenômenos visuais que desafiam nossa percepção. Entre eles estava uma famosa ilusão criada pelo fisiologista alemão Ludimar Hermann em 1870, conhecida como Grade de Hermann. Nessa ilusão, muitas pessoas observam manchas cinzentas surgindo nos cruzamentos de linhas brancas, mesmo que tais manchas não existam fisicamente.
Olhem como essa ilusão é incrível!

Ilusão da Grade de Hermann, 1870.
Ao estudar essa ilusão, comecei a me perguntar:
“E se fosse possível tornar esse fenômeno ainda mais intenso?”
Foi dessa pergunta que surgiu minha experiência mais conhecida. Em 1985, apresentei uma versão modificada da Grade de Hermann em um encontro científico.
Chamei meu trabalho de “Grade de Hermann: Nova e Aprimorada”. Meu objetivo era criar uma figura que produzisse uma sensação visual ainda mais forte e impressionante.
Para isso, adicionei pequenos discos claros nos cruzamentos da grade.
O resultado foi surpreendente.
Quando as pessoas observavam a imagem, passavam a perceber pequenos pontos escuros aparecendo e desaparecendo rapidamente. Esses pontos pareciam piscar ou cintilar, embora nem existissem de verdade e, por isso, nem cintilassem. Era como se a imagem estivesse viva.
Os observadores frequentemente esfregavam os olhos ou olhavam novamente para confirmar se aqueles pontos realmente estavam ali. Mas não estavam. O que eles viam era uma criação do sistema visual.
É uma criação do próprio sistema visual do cérebro!
Esse efeito ficou conhecido como Grade Cintilante. Pesquisadores continuam estudando o fenômeno e descobriram que ele revela aspectos muito importantes sobre o funcionamento da visão periférica e sobre a forma como o cérebro processa contrastes, brilhos e padrões geométricos.
Talvez vocês estejam se perguntando:
“Por que o cérebro cria esses pontos que não existem?”
A resposta completa ainda desafia os cientistas até hoje. Entretanto, sabemos que a visão não funciona como uma câmera fotográfica. Nossos olhos captam informações, mas é o cérebro que interpreta essas informações.
Quando observamos padrões repetitivos com altos contrastes, como linhas pretas e brancas, diferentes regiões da retina e do cérebro começam a competir para interpretar a imagem. Em determinadas condições, essa interpretação produz sensações visuais que não correspondem exatamente ao estímulo físico presente na figura.
Quando falamos que “diferentes regiões da retina e do cérebro competem para interpretar a imagem”, não significa uma competição consciente, mas sim que diferentes circuitos neurais estão processando informações visuais ao mesmo tempo e produzindo respostas ligeiramente diferentes.
O que acontece na retina?
A retina não é uma “tela” passiva. Ela já realiza processamento de informações antes mesmo que os sinais cheguem ao cérebro. Ela é dividida em duas partes : a região central (fóvea) e a região periférica.
A fóvea é a região central da retina, responsável pela visão mais nítida. Quando você olha diretamente para um cruzamento da Grade Cintilante:
- a imagem é projetada na fóvea, onde há grande concentração de células cones que detectam cor-luz,
- nessa região , os detalhes são percebidos com alta precisão,
- os pontos cintilantes ilusórios tendem a desaparecer, pois os cones alertam intensamente que a cor é branca.
Por isso, na Grade Cintilante, o ponto que você fixa diretamente costuma parecer na cor normal.
Nas regiões periféricas da retina:
- a resolução espacial é menor; há menos células cones.
- muitos receptores compartilham informações;
- os contrastes são processados de forma menos precisa.
É justamente aí que os pontos cintilantes ilusórios podem surgir. O cérebro recebe um sinal visual mais ambíguo da região periférica e pode “preencher” ou reinterpretar partes da imagem.
As células ganglionares e os campos receptivos
Outro aspecto importante é que cada neurônio da retina não responde a um único ponto de luz. Os neurônios retinianos possuem o que os neurocientistas chamam de campo receptivo centro-periferia. Imagine um neurônio que, ao mesmo tempo, é estimulado pela luz no centro e é inibido pela luz ao redor.
Quando um cruzamento branco aparece cercado por várias linhas brancas e quadrados pretos, ele produz uma quantidade de inibição diferente daquela encontrada em um segmento simples da linha.
Historicamente, acreditava-se que a Grade de Hermann era explicada quase totalmente por esse mecanismo chamado inibição lateral. Hoje sabemos que a explicação é mais complexa, envolvendo também áreas corticais do cérebro.
O que acontece no cérebro?
Após sair da retina, a informação passa por diversas estruturas, entre as quais:
O Núcleo Geniculado Lateral (Tálamo) é uma espécie de estação de retransmissão. Ele organiza e modula a informação que vem da retina antes de enviá-la ao córtex visual. Já nesse estágio existe filtragem de contraste e de padrões espaciais.
O Córtex Visual Primário (V1), a primeira área visual do cérebro. Os neurônios dessa região são especializados em detectar: bordas; orientações; linhas horizontais; linhas verticais e contrastes. A Grade Cintilante é praticamente uma “festa” para esses neurônios, pois contém inúmeras intersecções de linhas verticais e horizontais.
As áreas Visuais Superiores (V2 e V4) integram informações mais complexas, tais como textura, forma, organização espacial e agrupamento de padrões.
O cérebro tenta constantemente responder:
“O que estou vendo?”
Quando encontra um padrão altamente repetitivo como a Grade Cintilante, pequenos erros de interpretação podem aparecer como manchas ou pontos que parecem existir fisicamente.
Por que os pontos “cintilam”?
A palavra “cintilante” é muito apropriada. Enquanto seus olhos fazem pequenos movimentos involuntários, a imagem muda ligeiramente sobre a retina. Essas minúsculas mudanças alteram o equilíbrio entre: visão central; visão periférica; células sensíveis ao contraste; e neurônios corticais que interpretam bordas.
O resultado é uma percepção instável: um ponto parece surgir; desaparece e reaparece em outro cruzamento. A sensação é de que vários pontos pretos estão piscando pela grade.
Em outras palavras:
O cérebro nem sempre mostra o que está diante dos olhos. Muitas vezes ele mostra aquilo que acredita estar vendo – aquilo que parece mais coerente com todas as informações analisadas.
É justamente por isso que as ilusões são tão importantes para a ciência.
Elas revelam os “atalhos” que o cérebro utiliza para compreender o mundo. Cada ilusão visual é como uma janela aberta para os mecanismos da percepção.
Quando vocês observam a Grade Cintilante e percebem pontos escuros surgindo nos cruzamentos, estão testemunhando algo fascinante da mente humana: a visão não é uma simples fotografia da realidade, mas uma interpretação ativa construída a cada instante.
Essa é a razão pela qual dediquei meu trabalho ao estudo da percepção visual: compreender como o cérebro humano transforma luz, formas e contrastes na experiência extraordinária que chamamos de visão.
E talvez esta seja a maior lição que a Grade Cintilante pode ensinar a vocês:
Cientistas não observam apenas aquilo que é visível. Eles também investigam aquilo que parece impossível ou estranho. Muitas vezes, é justamente assim que encontramos as maiores descobertas.
Obrigado por explorarem esse fascinante mundo da percepção visual comigo.
Faça suas próprias experiências virtuais
No site de ilusões Interativas de Michael Bach, você encontra uma versão interativa da ilusão da Grade Cintilante. Nela, você poderá:
- mudar a cor dos quadrados.
- mudar a cor das linhas cruzadas.
- mudar a cor e a forma dos discos nos cruzamentos.
Dessa forma, você pode descobrir como aumentar ou como desfazer a ilusão cintilante. Isso auxilia pesquisadores a entender os detalhes de funcionamento do sistema visual e porque a ilusão ocorre.
Página da Ilusão da Grade Cintilante interativa:
https://michaelbach.de/ot/lum-scGrid/
Referências das pesquisas
BACH, Michael. Grid Illusions: Scintillating Grid. Disponível em: <https://michaelbach.de/ot/lum-scGrid/>. Acesso em: 22 out. 2026.
BERGEN, J. R. Hermann’s grid: new and improved. Investigative Ophthalmology and Visual Science, v. 26, Supplement, p. 280, 1985. (Resumo apresentado na reunião anual da ARVO).
HERMANN, L. Eine Erscheinung simultanen Contrastes. Pflügers Archiv für die gesamte Physiologie, v. 3, p. 13-15, 1870.
HERMANN, Ludimar. In: WIKIPEDIA. Ludimar Hermann. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Ludimar_Hermann>. Acesso em: 22 out. 2026.
SCHRAUF, M.; LINGELBACH, B.; WIST, E. R. The scintillating grid illusion. Vision Research, v. 37, n. 8, p. 1033-1038, 1997.
Painel da Ilusão Grade Cintilante
O painel faz parte de uma coleção de ilusões desenvolvida por Paulo Henrique Colonese, sob a Licença CC-BY-NC-4.0. Podem ser usadas, sem fins comerciais, para finalidades educativas.

