Imagem de capa: Mapa de sonar da Fossa das Marianas e anotações históricas de mergulhos. Victor L. Vescovo, 2019. Wikipedia. Licença CC-BY-SA-4.0.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Dawn Jeannine Wright: Primeira a chegar ao fundo do Oceano
Entre muitas pioneiras, a oceanógrafa americana Wright foi a primeira pessoa negra a mergulhar no ponto mais profundo da Terra. Sua carreira foi dedicada a mapear, analisar e preservar ecossistemas oceânicos ao redor do mundo.
Poster Ingenium original (em inglês): https://diversityinstem.ingenium.ca/portfolio-item/dawn-jeannine-wright/
Dawn Jeannine Wright
Meu nome é Dawn Jeannine Wright, e quero compartilhar com vocês um pouco da minha história — não apenas como cientista, mas como alguém que acreditou, desde cedo, que a curiosidade pode nos levar a lugares extraordinários.
Nasci em 1961, na cidade de Kaneohe, que fica na Ilha de Oʻahu, uma das principais ilhas do Havaí. A cidade está no condado de Honolulu, no lado nordeste da ilha. Fica a cerca de 19 km de Honolulu.
É uma área conhecida por sua natureza exuberante, com montanhas, florestas tropicais e a famosa Baía de Kaneohe. A cidade está entre o Oceano Pacífico e a cadeia montanhosa Koʻolau, o que a torna muito verde e úmida. Hoje, Kaneohe é principalmente uma comunidade residencial, onde vivem muitas pessoas que trabalham em outras partes da ilha.
Crescer em uma ilha significa viver cercada pelo oceano — ele estava sempre ali, azul e misterioso, convidando à exploração.
Minha mãe Jeanne Wright era professora universitária, uma mulher apaixonada pela educação, e foi ela quem primeiro me ensinou o valor do conhecimento. Ela me incentivava a fazer perguntas, a ler e a observar o mundo com atenção.
Além disso, minha mãe foi uma mulher negra que alcançou sucesso na educação superior — um feito ainda mais marcante no contexto histórico em que ela viveu. Isso me mostrou que era possível ocupar espaços acadêmicos, mesmo enfrentando barreiras sociais e reforçou a ideia de que eu podia me tornar cientista e líder.
Meu pai Robert Wright também teve seu papel importante, reforçando a importância da disciplina e da persistência. Foi nessa base familiar que comecei a desenvolver meu amor pela ciência e pela aprendizagem.
Desde muito jovem, eu era fascinada pelo mar. Enquanto outras crianças brincavam na areia, eu queria saber o que havia abaixo da superfície:
Que criaturas viviam ali?
Como o fundo do oceano era formado?
Essa curiosidade foi crescendo comigo durante toda a minha formação escolar.
Cursei o Ensino Fundamental na Ilha de Maui, no Havai. E finalizei o Ensino Médio, em Baltimore.
A mudança do Havaí para Baltimore foi um grande choque cultural. Mesmo assim, encontrei uma escola com bons cursos de ciências e oportunidades de estudos independentes – o que foi fundamental para me preparar para a universidade.
Mas não foi sempre fácil. Naquela época, não era comum ver mulheres — especialmente mulheres negras — seguindo carreiras nas áreas de ciência e tecnologia. Muitas vezes, eu era uma das poucas, ou até a única, em determinados ambientes acadêmicos. Houve momentos de dúvida, mas também houve momentos de determinação.
Foi nesse período que consolidei meu interesse pela ciência e percebi que precisava estudar geologia primeiro para depois chegar à oceanografia.
Assim, fiz minha graduação na Wheaton College, em Illinois, onde me formei em Geologia em 1983. Lá, tive meu primeiro contato mais profundo com o estudo da Terra e compreendi que o oceano poderia ser estudado de forma científica, combinando geologia, geografia e tecnologia.
Mas eu queria ir além. Continuei meus estudos e obtive meu mestrado em 1986, em Oceanografia na Texas A&M University, no College Station, Texas. Foi nesse período que comecei a me envolver com pesquisas relacionadas ao fundo do mar — um ambiente ainda pouco conhecido, cheio de desafios técnicos e científicos.
Minha dissertação foi sobre “A natureza do término norte da Fossa de Tonga, Pacífico Sudoeste” em que estudei uma parte específica do fundo do oceano chamada Fossa de Tonga, no Pacífico Sul. Essa fossa é uma região muito profunda do oceano, onde uma placa tectônica mergulha sob outra. Eu investiguei como é o “final” dessa fossa, analisando o relevo e a estrutura geológica do fundo do mar. Para entender como o fundo do oceano muda de forma em uma região extremamente profunda e ativa geologicamente.
Esse caminho me levou ao doutorado na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, onde me especializei no uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG) aplicados ao oceano. Conclui o doutorado na área interdisciplinar de Geografia Física e Geologia Marinha em 1994.
Minha tese foi sobre “Do Padrão ao Processo no Fundo do Oceano Profundo: Uma Abordagem de Sistema de Informação Geográfica” onde estudei o fundo do oceano usando tecnologia de mapas digitais (GIS).
Padrão é o que vemos nos mapas (formas, estruturas do fundo do mar).
Processo é o que causa essas formas (movimento da Terra, vulcões, etc.)
Usamos mapas digitais para entender por que o fundo do oceano tem certas formas. Não é apenas descrever o que existe, mas explicar como e por que aquilo se formou.
Naquela época, integrar tecnologia digital ao estudo dos mares era algo inovador. Eu estava, sem perceber, ajudando a construir um novo campo científico: a geografia digital marinha.
Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de trabalhar em projetos incríveis. Participei de pesquisas em submarinos, explorando áreas profundas do oceano. Usei tecnologia para mapear o fundo marinho e entender melhor como os oceanos funcionam. Fui professora universitária, ajudando a formar novas gerações de cientistas, e continuei publicando trabalhos científicos que contribuíram para o avanço do conhecimento.
Uma das minhas maiores motivações sempre foi tornar o invisível visível: mostrar ao mundo que os oceanos são complexos, fundamentais para a vida na Terra e precisam ser compreendidos e protegidos.
Em 2011, ingressei na Esri – o “Instituto de Pesquisa em Sistemas Ambientais”. A Esri é uma empresa americana de software fundada em 1969 que atua principalmente na área de Sistemas de Informação Geográfica.
Em 2020, assumi um novo desafio ao me tornar Cientista-Chefe da Esri, uma das maiores empresas de geotecnologia do mundo.É uma empresa que cria tecnologias para mapear, analisar e entender o mundo usando dados geográficos.
Como cientista-chefe, eu:
- Garanto que os softwares da empresa tenham base científica sólida.
- Ajudo a conectar a empresa com a comunidade científica internacional.
- Trabalho em pesquisas sobre uso de mapas digitais nos oceanos e no meio ambiente.
Nesse papel, continuo trabalhando para integrar ciência, tecnologia e sociedade, ajudando pessoas a entender melhor o planeta — especialmente o Oceano.
Liderei projetos como o Ecological Marine Units (EMU) – um “mapa 3D do oceano”, que ajuda a entender melhor os ambientes marinhos. A missão é usar tecnologia de mapas para a conservação ambiental, as mudanças climáticas e a exploração científica do oceano. Conheça o mapa em Living Atlas EMU.
Veja aqui o site oficial do Ecological Marine Units.
E conheça 4 Histórias das Profundezas no site Mapas de Histórias:
- – Iluminando as Profundezas. Descoberta, inovação e humanidade nas profundezas mais extremas do mundo.
- – Humanidade das Profundezas. Conheça os indivíduos notáveis que facilitaram descobertas inovadoras nas regiões mais profundas dos oceanos do mundo.
- – Inovação no Abismo. Saiba sobre as tecnologias de ponta usadas para a exploração inédita das profundezas do mar.
- – Descobertas do Abismo. Acompanhe as aventuras da empresa de exploração do oceano profundo Caladan Oceanic ao redor do mundo em 2020 e além.
Indo até onde a curiosidade me levar
Atualmente, faço parte das 4 mulheres que foram mais fundo no Oceano:
| Nome | Ano | Profundidade aproximada | Local |
|---|---|---|---|
| Kathryn D. Sullivan | 2020 | 10.925 m | Fossa Oriental, Challenger Deep. |
| Vanessa O’Brien | 2020 | 10.900+ m | Fossa Oriental, Challenger Deep. |
| Nicole Yamase | 2021 | 10.900+ m | Primeira pessoa das ilhas do Pacífico a atingir o Challenger Deep, Fossa Ocidental. |
| Dawn Wright | 2022 | 10.900+ m | Primeira pessoa negra a atingir o Challenger Deep, Fossa Ocidental. |
Se há algo que quero deixar para vocês, jovens, é isto: não tenham medo de seguir sua curiosidade.
O caminho pode não ser fácil, mas cada passo vale a pena.
Procurem bons mentores, estudem com dedicação e nunca deixem que alguém diga que vocês não pertencem a um determinado espaço.
O oceano ainda guarda muitas histórias — e quem sabe, um dia, alguns de vocês estarão lá, ajudando a contar suas histórias à humanidade.
E eu estarei torcendo por vocês.



