Mulheres STEM: Grace Hooper

Imagem de capa: Grace Hooper.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Grace Hooper: A Rainha da Programação

Poster Ingenium

Abaixo, uma narrativa ficcional, como se a própria Hooper contasse sua história.

Como Programei Meu Próprio Caminho

Quando eu era menina, gostava de desmontar despertadores.

Minha mãe achava estranho; eu achava absolutamente necessário.

Queria entender como as coisas funcionavam, como cada engrenagem conversava com a outra para fazer o tempo andar.

Mal sabia eu que, anos depois, trocaria aquelas engrenagens por máquinas enormes — algumas tão grandes quanto uma sala inteira — e que acabaria ajudando o mundo a entender uma nova forma de conversar: a linguagem dos computadores.

A Guerra e o Chamado da Ciência

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, senti que precisava servir ao meu país como sabia melhor: pensando, calculando, construindo lógica.

Eu me alistei na Marinha dos Estados Unidos e fui designada para trabalhar com computadores — ou melhor, com o que chamávamos de computadores naquela época: máquinas gigantes, temperamentais, que ocupavam salas inteiras e precisavam de cuidado como se fossem criaturas vivas.

Meu primeiro grande desafio foi o Harvard Mark I, um colosso eletromecânico de quase 5 toneladas, que parecia uma mistura de piano, relógio e criatura mitológica. Era lento, barulhento, mas extraordinário. Eu me tornei uma espécie de tradutora entre humanos e máquinas, uma diplomata entre dois mundos que ainda não se entendiam.

Ali aprendi algo precioso: Para ensinar uma máquina, era preciso primeiro ensinar as pessoas a conversar com ela.

Criar Linguagens: Transformar o Inglês em um Código de Máquina

Naquela época, muitos achavam impossível que computadores entendessem palavras. Diziam que máquinas eram feitas apenas para números, como se fossem pássaros capazes apenas de voar baixo.

Mas eu via diferente.

Eu acreditava que, se quiséssemos que mais pessoas programassem — especialmente meninas e mulheres — era preciso deixar as máquinas mais próximas da nossa fala.

Foi assim que comecei a imaginar algo revolucionário: uma linguagem de programação que usasse palavras em inglês, não apenas cálculos.

Criar isso foi como construir uma ponte suspensa entre dois mundos.

A cada linha de código, era como se eu dissesse às mulheres do futuro: “Vocês também pertencem aqui.”

Essa ideia ousada deu origem ao FLOW-MATIC, que mais tarde se tornaria a base do COBOL, uma linguagem que até hoje pulsa no coração de bancos, empresas e sistemas governamentais ao redor do mundo.

O FLOW‑MATIC foi uma das primeiras linguagens de programação da história e a primeira a usar palavras em inglês para escrever instruções que computadores pudessem entender. Ele foi desenvolvido por Grace Hopper e sua equipe entre 1955 e 1959, para os computadores UNIVAC I e UNIVAC II.

A ideia principal era permitir que pessoas de negócios — e não apenas matemáticos — pudessem programar usando comandos parecidos com frases do inglês comum.

Por isso, o FLOW‑MATIC é considerado o “avô” do COBOL, pois introduziu conceitos de programação centrados em negócios, como:

  • Comandos legíveis (“READ-ITEM”, “COMPARE”, “TRANSFER”)
  • Separação entre dados e instruções
  • Uso de arquivos de entrada e saída
  • Estruturação por operações numeradas (como “OPERATION 1”, “OPERATION 5”)

Essas características foram fundamentais na criação do COBOL, que ainda hoje roda sistemas de bancos, governos e empresas.

Abaixo está um trecho real de um programa FLOW‑MATIC histórico, usado para comparar registros de arquivos e escrever saídas.

Markdown

(0) INPUT INVENTORY FILE-A PRICE FILE-B;

OUTPUT PRICED-INV FILE-C UNPRICED-INV FILE-D;

HSP D.

(1) COMPARE PRODUCT-NO (A) WITH PRODUCT-NO (B);

IF GREATER GO TO OPERATION 10;

IF EQUAL GO TO OPERATION 5;

OTHERWISE GO TO OPERATION 2.

(2) TRANSFER A TO D.

(3) WRITE-ITEM D.

(4) JUMP TO OPERATION 8.

O que está acontecendo aqui?

INPUT define os arquivos de entrada (como “FILE-A” e “FILE-B”).

COMPARE compara dois números de produto.

IF GREATER / IF EQUAL direciona o fluxo do programa.

TRANSFER copia um registro.

WRITE-ITEM grava um registro em um arquivo de saída.

JUMP muda para outra etapa do programa.

As linhas numeradas (0), (1), (2)… são como “passos” marcados que o computador segue.

Há Mais de Uma Maneira – Sobre Quebrar Barreiras

Ao longo da minha carreira, ouvi com frequência palavras como: “não pode”, “não funciona”, “não é assim que se faz”.

Minha resposta favorita era: Se é uma boa ideia, vá e faça.

Eu costumo dizer que o maior inimigo da inovação é a frase: “Mas sempre fizemos assim.”

Durante muitos anos, fui uma das poucas mulheres em ambientes de tecnologia e ciência.

E minha mensagem para as meninas que vieram depois — para vocês, que agora me leem — é simples:

Ser a primeira pode ser solitário.

Mas nunca deixem que isso as faça pensar que também serão a última.

Às vezes comparo a programação à jardinagem.

Você planta uma semente — uma pequena ideia — e cuida dela linha por linha, como quem rega um broto.

No começo, parece frágil. Depois, cresce, se ramifica, e um dia alguém passa à sombra dessa árvore sem saber que foi você quem plantou.

Ou, se preferirem, pensem na ciência como navegar. Na Marinha, eu aprendi que cada rota começa com um pequeno desvio da linha reta. Às vezes, um grau apenas. Mas um grau pode mudar o destino de uma viagem inteira.

Assim também é quando meninas entram na ciência: cada uma muda o rumo do futuro um pouquinho — e que grande diferença isso faz.

Minhas Conquistas e Meu Maior Orgulho

Recebi medalhas, homenagens e até cheguei ao posto de contra-almirante. Ajudei a criar linguagens que o mundo ainda usa. Explorei máquinas que muitos chamavam de impossíveis.

Mas meu maior orgulho?

Saber que minha história ajuda meninas e mulheres a entrarem em campos onde antes se ouviam apenas vozes masculinas.

Porque ciência, programação, engenharia — tudo isso é terreno fértil para quem gosta de fazer perguntas, desmontar despertadores, desafiar o impossível e reinventar o que existe.

E se eu pudesse deixar um último conselho…

Ele seria este:

O futuro está esperando por vocês

— e ele não sabe falar sozinho.

Ensinem-no a falar na sua língua.

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