Imagem de capa: Uma garrafa contendo uma partitura que apareceu na praia. Snapwire, Pexels. Wikipedia. Licença Dedicação ao Domínio Público.
Correspondência ao Mar
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva, O Bicho Harmonioso, Coimbra, Revista de Portugal, 1938. (Poesia (1916-1940)).
Quando penso no mar,
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar;
De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.
Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.
Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,
E desenrolo:
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de polo a polo.
Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim —
Que onde ele acaba, o coração começa.
Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.
Começa pelo peito das baías
Ao rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.
E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada,
Quente como uma lágrima num lenço.
Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na mínima lembrança que me deixes,
E a Rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.
Sobre o poema
Na «Correspondência ao Mar», em onze tercetos de métrica irregular, a onda de imagens repercutidas pelo sujeito, a partir da oração temporal «Quando penso no mar», uma vez repetida, tem o condão de envolver o leitor numa sequência sensorial e emotiva quase imparável.
Esta envolvência do imaginário é, logo na 1ª estrofe, simbolizada através das imagens do fio de asas e do luar associadas à linha do horizonte e do corpo das águas. Na 2ª estrofe, os elementos metonímicos das velas, do porto e das casas, representativos dos barcos, da atividade náutica e da dialética nomadismo/sedentarismo, acrescentam a essa envolvência a dimensão do tempo, nas metáforas erosivas e efémeras da memória e de uma ruga de areia transitória. A 3ª estrofe, reunindo os quatro elementos de Empédocles,/erra, fogo ou energia (força dos meus pulsos), água (mar) e ar (céu e astros), continua a linguagem metonímica e simbólica da náutica através da deíxis ou sinal indicador do remo e da atividade de bombear. Na dialética dos elementos, a terra cinge-se ao labor energético do sujeito, às tarefas do seu quotidiano, em oposição à largueza imensa do mar e do céu, evocativa do sonho.
As restantes estrofes concretizam esta envolvência do imaginário a partir de uma identificação anímica, picada pelo Eterno, entre o sujeito e o mar em diálogo com a terra, num movimento de fluxo e refluxo, de pólo a pólo, numa sinestesia que contempla o ritmo do impulso e do compasso retido em mente pura, o gosto a sal, a temperatura das orlas frias e do calor (quente como uma lágrima num lenço) e a visão da terra delineada, do aro das estrelas e dos vidros das janelas. Então, o regresso do mar às formas únicas.
Do imaginário («A certa forma que só teve em mim») provoca a expressão anafórica do início («começa») da atividade do coração, metonimicamente dispersa pelo aro das estrelas (céu), pelo peito das baías e pelos peixes (mar).
Nas últimas duas estrofes, o destinatário do poema é o próprio coração, sede da atividade espiritual da memória, das emoções e do pensamento, nas metáforas do golfo de todo o esquecimento e da lembrança e da Rosa dos Ventos baralhado, a indiciar a desorientação da lágrima inchada e de Mais de metade pensamento.
António Moniz, “A temática marítima” in Para uma leitura de sete poetas contemporâneos, Lisboa, Editorial Presença, 1997, pp. 74-75.
Fonte: https://folhadepoesia.blogspot.com/2012/09/correspondencia-ao-mar-vitorino-nemesio.html