Capa: Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Don Marsille, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
O documentário da Série HABITANTES DO BRASIL. Episódio 2: PRESERVAÇÃO DO MICO LEÃO DOURADO foi selecionado para exibição pública e gratuita em mais de 120 países na sétima edição do festival de filmes científicos SCIENCE FILM FESTIVAL 2025 !
Associação Mico Leão Dourado (AMLD), site: https://micoleao.org.br/
Entrevista com:
Andréia Martins, Coordenadora de Metapopulação, AMLD.
Luíz Paulo Ferraz, Secretário Executivo, AMLD.
Ayrton Violento, Diretor Fazenda dos Cordeiros.
Sobre a Preservação do Mico Leão Dourado (Leontopithecus rosalia)
SCIENCE FILM FESTIVAL 2025: Conheça todos os filmes selecionados e como exibir em sua escola, museu ou instituição em https://www.goethe.de/prj/sff/pt/lae/sak/bra.cfm.
Vídeo no Youtube (em português)
O filme pode ser solicitado para exibição (dublado em português) ao SCIENCE FILM FESTIVAL pelo Formulário de inscrição.
Transcrição do vídeo
[samba]
Andréia Martins:
A gente trabalha há tanto tempo, desde que eles nasceram.
Eles veem a gente todos os dias, então, eles reconhecem a gente.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © charlesavenengo, Rio de Janeiro, 2016. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Quando a gente começou, a população estava estimada em 200 animais na região, por isso nós fizemos as reintroduções, e trouxemos mais de 150 animais de zoológicos do mundo todo e foram reintroduzidos na região.
E depois disso, foi só o trabalho de monitoramento e foram nascendo os filhotes, e a família foi crescendo.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Tomaz Nascimento de Melo, Rio de Janeiro, 2023. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-ND-4.0.
Nós chegamos até 3.200 micos. Daí, veio a febre amarela em 2018, de 2017 a 18. E a gente perdeu 32% da população. Mas agora, depois de algum tempo, a gente fez um outro levantamento pra fazer um novo senso e a população está estimada em 4.800.
Nós temos 18 grupos que são monitorados, que tem colar.
A ideia é a gente colocar no macho ou na fêmea alfa porque são os animais que não vão sair do grupo e porque são os adultos.
Eles têm um colar no pescoço, um rádio transmissor e a gente tem um receptor e a antena. A antena ela é direcional. Então, esse rádio emite um sinal pro nosso receptor e a antena vai te dar a direção exata de onde o grupo está.
Os nossos grupos de trabalho, todos eles são marcados. Então, essa marca ajuda a gente a identificar o grupo quando eles estão em encontro com o outro grupo. E se alguém capturar um dos nossos micos, se for roubar ele, aonde ele for, a gente vai conseguir saber, se a gente conseguir chegar até ele, de onde ele veio, de onde foi que capturaram ele.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Don Marsille, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Luíz Paulo Ferraz:
No início, o principal problema era justamente o risco iminente de desaparecimento da espécie na natureza.
E hoje, nós trabalhamos num momento muito diferente.
A legislação mudou. Hoje ela é muito mais restritiva.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Bruno Luka de Souza Bambirra Silveira, Rio de Janeiro, 2025. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-4.0.
Por outro lado, o habitat está em situação muito difícil.
Os fragmentos de florestas de baixada, que é o habitat do mico-leão-dourado, ele se encontra numa situação muito precária, são poucos remanescentes e muito fragmentados.
E isso é péssimo para a espécie. Portanto, o nosso principal foco é a reconexão deste habitat. É plantar muitas florestas e tentar retirar do isolamento grupos de animais que estão em fragmentos isolados.
Andréia Martins:
O mico-leão, ele vive em família e são animais territorialistas. Então, eles têm o território deles e eles não deixam ninguém entrar ali.
E só um casal reproduz no grupo.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Marco Silva, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Os filhos, quando chegam na idade adulta, eles saem do grupo, ou eles são expulsos.
Daí, eles têm que arrumar um território para começar uma nova família.
Eles comem bastante frutas, a gente tem mais de 150 tipos de frutas na Mata Atlântica, que eles podem comer. E tem umas maravilhosas que eu adoro!
E tem insetos, grilos, pererecas.
[música]

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Don Marsille, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Andréia Martins:
Então, uma coisa interessante é que, assim, enquanto alguns estão comendo, tem sempre um ou dois parados, só observando, porque caso tenha algum predador, alguma coisa, eles vão dar o sinal.
Quando tem filhotes, às vezes eles pegam o inseto, eles chamam, o filhote vem correndo, pega e ele vai esperar pra comer da próxima vez.
Quando param para descansar, fica aquela catação, um fica catando o outro. E, às vezes, pega um carrapatinho, aí fica catando o outro para tirar o carrapato…
Andréia Martins: [assobiando]
Olha, ele respondendo…
Andréia Martins:
Vocalização?
Eles têm várias vocalizações, eles têm vocalização para comida, vocalização para predador, vocalização de chamando para ir dormir, outra para saber se tem algum outro grupo na área e, por aí, vai.
Eu só sei fazer uma das vocalizações, e acho que já está bom porque eu vocalizo e eles me respondem.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Tomaz Nascimento de Melo, Rio de Janeiro, 2023. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-ND-4.0.
ATUALMENTE EXISTEM CERCA DE 2% DE FLORESTAS DE BAIXADA REMANESCENTES.
Habitat natural dos micos leões dourados.
Fonte: Associação do Mico Leão Dourado.
Andréia Martins:
A importância da conectividade para os micos é facilitar que eles saiam de um local para outro, para poder encontrar com outros micos, formar uma nova família, porque se eles ficam aqui isolados, eles não tem como fazer isso.
E aí, eles acabam ficando na área e acabam morrendo e sendo predado por que ficam muito tempo sozinhos.
Luíz Paulo Ferraz:
Nós construímos algumas estruturas como uma torre de observação da paisagem que se chama Torre da Restauração Ecológica, onde o visitante, lá de cima, ele olha toda uma área que era pasto e que hoje voltou a ser floresta. Isso para ficar com essa sensação de que “Nossa! é possível recuperar a Mata Atlântica”.
E uma outra estrutura que a gente construiu, uma plataforma para observação da paisagem sobre o viaduto vegetado e a conexão da paisagem que nós fazemos sobre a Rodovia BR-101.
Nós estamos tentando ampliar essa floresta para os micos e, consequentemente, para todos os outros animais da floresta.

Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia). © Don Marsille, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.
Luíz Paulo Ferraz:
Um dos principais desafios para este programa de conservação que nós considerávamos um problema resolvido. Mas, no último ano, nós tivemos três ocorrências de identificação de animais de micos leões dourados fora do Brasil, em eventos de tráfico.
Em relação às consequências que o tráfico pode causar, elas são terríveis do ponto de vista do programa de conservação como um todo. E em relação aos maus–tratos que esses animais têm que passar.
Muitos deles sem pelagem, com rabo cortado, com mãozinha cortada, sem dedo, vários deles. Então, agora eles têm que passar por todo um processo de recuperação desse trauma que viveram.
PELO MENOS 25 MIL HECTARES DE FLORESTA CONECTADOS E PROTEGIDOS SÃO NECESSÁRIOS PARA GARANTIR A SOBREVIVÊNCIA DO MICO LEÃO DOURADO.
Fonte: Associação do Mico Leão Dourado.
Luíz Paulo Ferraz:
Nós trabalhamos muito com os proprietários rurais, com muitos deles com florestas com mico-leão-dourado.
Ayrton Violento:
A visibilidade que dá para Silva Jardim… Eu estou nessa carona, jamais conseguiria ter a visibilidade para Silva Jardim, que o mico-leão traz, que a associação mico-leão traz. Então, ela é uma parceria fundamental e importantíssima para a gente.
Além disso, traz oportunidade de negócio.
A gente tem um viveiro de mudas de Mata Atlântica, a gente produz 100.000 mudas de árvores por ano, parece muito, mas nem é tanto quando a gente vê o déficit de mudas que existem para plantar na Mata Atlântica. Isso não é muita coisa não, mas pra gente, que é um pequeno produtor, isso é bastante coisa.
Precisa de políticas públicas claras para proteger a Mata Atlântica e deixar que a gente, que é proprietário rural, que vive disso, que preserva, que a gente tenha os caminhos legais de preservação, mas que seja viável economicamente.
A Mata Atlântica, o pessoal não dá importância porque não sabe o valor que ela tem. Então, na hora que vê que tem fruta, que faz comida, que é produtiva, que tem coisas interessantes, que a gente pode tirar proveito daquilo, ninguém mais vai pensar no pasto com boi, vai pensar numa agrofloresta cheia de fruta para ficar passeando lá naquela mata e comendo, igual os macacos fazem, né?
A gente vai aprender com eles.
O mico leão dourado é um patrimônio enorme pra gente. É muita alegria, muita felicidade. Assim, hoje a gente vê o milco, tá? O mico tá no meu quintal, entende como isso é legal mesmo?
O turismo me traz receita e a receita me ajuda a preservar, né? Então, o turista tá perto, é fundamental pra gente, é uma ligação sinergética.
Luíz Paulo Ferraz:
A emoção de estar diante de um animal como esse é uma coisa para a vida inteira. É uma coisa que mexe com a vida de uma pessoa.
Entretanto, isso tem que ser feito com muita responsabilidade, porque nós estamos trabalhando com uma espécie ainda ameaçada de extinção. E isso tem que ser feito com cuidado, com ciência, com técnica, com regras muito claras. E isso nós fazemos.
Desde o uso de máscara para proteção, a exigência da vacina do visitante, a vacina da febre amarela, o distanciamento. Nós mantemos nossas equipes juntos o tempo todo. Ninguém pode alimentar os animais, ninguém pode colocar na mão para tirar foto.
Quando a gente olha para trás e vê que é possível fazer alguma coisa, isso nos dá um sentimento de esperança muito grande, um sentimento não só de dever cumprido, mas também de que este trabalho tem que estimular outras iniciativas, ele pode e a gente tenta fazer dessa nossa pequena contribuição um movimento para tocar o coração das pessoas.
É possível ainda nós termos reversões em situações de degradação ambiental, de risco de extinção de espécies.
Andréia Martins:
Eu fico feliz com isso, porque foi muito trabalho, são 40 anos de trabalho, você no campo todos os dias, seguindo esses animais e, assim, é muito trabalho, muito dinheiro, muito tempo envolvido em tudo isso.
Então, ver que está tendo resultado bom, isso deixa a gente feliz.
No futuro, eu quero aposentar, mas eu acho que eu vou ficar aqui até morrer…
Eu acho que eu vou morrer aqui dentro do mato.
Luíz Paulo Ferraz:
O mico-leão-dourado é uma espécie é que é um símbolo também da resiliência da natureza às ações de desenvolvimento humano.
E queremos mostrar isso das mais diversas formas, tocando a alma de cada um que passar por aqui.
Vídeo em Poesia
Mico-Leão-Dourado: Guardião da Mata
No coração da Mata Atlântica, um brilho dourado reluz,
É o mico-leão, pequeno rei, que a floresta conduz.
Vive em família, com olhos atentos,
Território sagrado, entre galhos e ventos.
Era um tempo de medo, de quase adeus,
Duzentos apenas, sob céus tão seus.
Mas mãos humanas, com amor e razão,
Trouxeram de volta a esperança à região.
Vieram de longe, de zoológicos mil,
Reintroduzidos com cuidado sutil.
Filhotes nasceram, famílias cresceram,
E os números, enfim, floresceram.
Mas a febre amarela, cruel visitante,
Levou um terço, num golpe cortante.
Ainda assim, com trabalho e paixão,
Hoje são muitos, em renovação.
Com colares e antenas, seguimos seus passos,
Monitoramos os grupos, cruzamos seus traços.
Sabemos quem são, onde estão, o que fazem,
E se alguém os roubar, saberemos onde jazem.
Vivem de frutas, insetos, pererecas,
Na mata que canta, nas folhas que se entrelaçam.
Enquanto uns comem, outros vigiam,
Protegem os seus, como quem guia.
Há vocalizações para tudo dizer,
Chamam pra dormir, pra comer, pra correr.
E quem os conhece, responde também,
Com sons da floresta, que vão e que vêm.
Mas o habitat, fragmentado e ferido,
Precisa de ponte, precisa de abrigo.
Plantamos florestas, criamos conexão,
Para que o mico encontre nova direção.
Construímos torres, viadutos verdes,
Mostramos que o pasto pode virar selva de verdade.
E o turismo, que chega com olhos brilhantes,
Traz receita, traz vida, traz esperança vibrante.
Mas o tráfico ainda fere, ainda dói,
Com mãos cortadas, sem rabos, sem voz.
Recuperar é preciso, com ciência e cuidado,
Pois cada mico é um tesouro encantado.
Trabalhamos com donos de terra e paixão,
Produzimos mudas, plantamos o chão.
Queremos políticas que deem proteção,
E que a floresta seja fonte de produção.
O mico no quintal, alegria sem fim,
É símbolo de luta, de um Brasil assim.
Quarenta anos de suor e de fé,
Mostram que é possível, que ainda dá pé.
O mico-leão-dourado é mais que animal,
É resiliência, é força vital.
E quem o encontra, jamais vai esquecer,
Pois ele toca a alma, faz o coração renascer.

