Imagem de capa: Tambor de Peito, século XIX, Gana, Cultura Akan, Ashanti. Crédito: Coleção de Instrumentos Musicais Crosby Brown, 1889. Acervo The MET Museum. Licença de Domínio Público.
Olá! Eu sou o Atabaque.
Sou feito de madeira, couro esticado com fogo, mãos firmes e espírito antigo.
Meu meu som não é só som — é voz, memória e chamado.
Se aproximem, sentem aí. Vou contar minha história.
A origem de meu nome mais aceita é que atabaque vem do árabe (aṭ-ṭabl), que significa simplesmente “tambor”. Durante a presença árabe na Península Ibérica (séculos VIII a XV), muitos termos ligados à música, à guerra e ao cotidiano entraram no português.

Minha origem: antes do Brasil existir
Mas eu nasci no continente africano, há muitos séculos.
Minhas primeiras batidas ecoaram especialmente entre povos de matriz iorubá na África Ocidental — regiões onde hoje estão Nigéria e Benim, onde sou conhecido por muitos nomes.
Sou Ilú, termo usado para muitos tambores. Quando canto, dizem que “Ilú toca”.
Sou Batá, quando tenho 2 peles e me conecto com Xangô, e sou tocado por iniciados.
Sou Dùndún, o tambor falante.
Sou da família Ayan / Ogán, dos tocadores de tambor.


Tambor de Peito, século XIX, Gana, Cultura Akan, Ashanti. Feito de madeira, couro, e ovo. Altura de 62,8 cm e diâmetro da cabeça de 22 cm. Crédito: Coleção de Instrumentos Musicais Crosby Brown, 1889. Acervo The MET Museum. Licença de Domínio Público.
E entre povos bantôs na África Central, como os que habitavam áreas do atual Congo e Angola, sou conhecido por outros nomes.
Faço parte do Ngoma, que envolve todo o ritual musical.
Sou N’goma / Ingoma / Gongá no Candomblé de Angola.
Sou Mukupela / Kaxambu, o tambor de som grave.

Ali, muito antes do relógio marcar datas, já havia ritmo como linguagem.
Eu não existia sozinho:
- Havia tambores para festas.
- Tambores para guerra.
- Tambores para cura.
- E tambores para falar com o mundo espiritual.
Eu nasci para isso: ligar o mundo material ao espiritual.

Assim, meu nome significa tambor, mas esse significado é muito limitado quando falamos do contexto afro-brasileiro. Nas tradições de matriz africana no Brasil, como o candomblé e a umbanda, eu sou:
Uma voz sagrada – ele “fala” por meio dos toques.
Um elo entre o mundo material e o espiritual.
Um meio de comunicação com orixás, inquices e voduns.
Travessia forçada: quando eu atravessei o Oceano
No século XVI, tudo mudou. Milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à força para o Brasil.
Eles vieram acorrentados, mas trouxeram comigo a memória do som.
Mesmo proibidos de falar suas línguas, continuaram falando através do ritmo.
Eu cheguei aqui assim: na lembrança, no corpo, no coração.
Com o tempo, fui reconstruído com madeiras brasileiras, como o jacarandá. Meu corpo mudou um pouco, mas minha alma permaneceu africana.
Sou sagrado: não bato por acaso.
Em terreiros de Candomblé, eu não sou apenas instrumento.
Sou entidade, sou voz dos Orixás.
O Grave, O Médio, o Agudo
Existem três de nós, cada um com função:
- Rum – o mais grave, quem “fala”.
- Rumpi – tamanho intermediário, é quem responde ao Rum.
- Lê – quem sustenta.
Rum é o maior e mais grave dos três atabaques.
Tem a função de “falar”, ou seja, improvisar e conduzir o ritmo. O tocador do Rum dialoga com a dança, o canto e os rituais, criando variações rítmicas.
No contexto religioso, é o tambor mais expressivo e simbolicamente poderoso. Por isso se diz que o Rum é a voz principal.
Minhas características são:
- Altura: aproximadamente 1,20 a 1,40 metros.
- Diâmetro da boca: entre 40 e 50 cm.
- Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) mais lentas, por isso, são sons graves.
- Faixa principal: 70 Hz a 180 Hz.
- Subgraves perceptíveis: podem chegar perto de 60 Hz.
- Harmônicos: até cerca de 400 Hz.
Rumpi tem tamanho e afinação intermediários.
Atua como elemento de resposta ao Rum, criando diálogo rítmico.
Ajuda a enriquecer o ritmo, fazendo marcações que complementam a “fala” do Rum.
Ele funciona como um interlocutor, reforçando e respondendo às frases rítmicas.
Minhas características são:
- Altura: aproximadamente 1,00 a 1,15 metros.
- Diâmetro da boca: entre 30 e 38 cm.
- Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) médias, por isso, são sons intermediários.
- Faixa principal: 150 Hz a 400 Hz.
- Harmônicos: até cerca de 800 a 1.000 Hz.
Lê é o menor e mais agudo.
Sua função principal é sustentar o ritmo base, com um padrão geralmente repetitivo.
Garante estabilidade e continuidade para que Rum e Rumpi possam dialogar livremente.
O Lê é a base rítmica, o alicerce do conjunto.
Minhas características são:
- Altura: aproximadamente 85 cm a 1,0 metro.
- Diâmetro da boca: entre 25 e 30 cm.
- Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) mais rápidas, por isso, são mais agudos.
- Faixa principal: 400 Hz a 1.200 Hz.
- Ataque e estalo: pode alcançar de 2.000 a 3.000 Hz.
Cada toque, um significado.
Cada batida é um idioma espiritual. Antes de tocar em mim, há respeito:
- Meu couro é consagrado.
- Minha madeira é reverenciada.
- Meu som é pedido, não imposto.
Eu não toco qualquer coisa. Eu chamo forças!
Da roda ao terreiro: onde você me escuta hoje, fui sobrevivendo. E me espalhei.
Hoje você me encontra em muitas expressões culturais brasileiras:
- Jongo – nas comunidades quilombolas.
- Samba de roda – na Bahia.
- Capoeira – marcando o jogo e o axé.
- Coco – no Nordeste.
- Ijexá – ligado ao sagrado e ao carnaval.
- Maracatus – em cortejos de resistência.
- Candomblé – onde sigo sendo essência.
Estou na roda, no chão, no corpo que dança, no pé que bate.
Sou música brasileira
Meu pulso vive: no samba, no pagode, no afoxé, na MPB, no funk de raiz.
Até em fusões com jazz, rock e música eletrônica.
Artistas como Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Olodum, Ilê Aiyê beberam do meu ritmo.
Sou o coração que bate por trás da música do Brasil.
Preconceito, proibição e silêncio forçado
Mas nem tudo foi festa. Durante muito tempo:
Fui chamado de “barulho”.
Fui proibido pela polícia.
Fui perseguido por ser ligado às religiões afro-brasileiras.
Tentaram me calar chamando meu som de “coisa do demônio”.
Muitos terreiros foram invadidos.
Muitos mestres foram silenciados.
Mas o ritmo sobreviveu.
Porque quando se tenta matar um som que vive no corpo…
Ele renasce no próximo passo, na próxima palma, na próxima geração.
Sobrevivência e futuro
Hoje, jovens como você me escutam com novas orelhas.
Escolas, projetos sociais, grupos culturais e universidades voltaram a me estudar e respeitar.
Quando você aprende sobre mim, você aprende:
- História do Brasil que não está só nos livros.
- Resistência dos povos negros.
- Cultura como forma de sobrevivência.
- Música como identidade.
Cada vez que você me escuta com respeito, eu continuo vivo.
Me escute com o corpo.
Não me ouça só com as orelhas.
Me ouça com o peito, com o chão, com a memória.
Eu sou o Atabaque.
Não sou só passado.
Sou raiz, sou presente e sou futuro.

