Somsacional: O Atabaque

Imagem de capa: Tambor de Peito, século XIX, Gana, Cultura Akan, Ashanti. Crédito: Coleção de Instrumentos Musicais Crosby Brown, 1889. Acervo The MET Museum. Licença de Domínio Público.

Olá! Eu sou o Atabaque.

Sou feito de madeira, couro esticado com fogo, mãos firmes e espírito antigo.

Meu meu som não é só som — é voz, memória e chamado.

Se aproximem, sentem aí. Vou contar minha história.

A origem de meu nome mais aceita é que atabaque vem do árabe (aṭ-ṭabl), que significa simplesmente “tambor”. Durante a presença árabe na Península Ibérica (séculos VIII a XV), muitos termos ligados à música, à guerra e ao cotidiano entraram no português.

Santuário Atuo Kosua em Edwenase, na Região Ashanti de Gana, perto da cidade de Kumasi — no coração do território histórico Asante. O santuário possui esses tambores usados para invocar o mundo espiritual. Joy Agyepong, 2016. Acervo Wikipedia. Licença CC-BY-SA-4.0.

Minha origem: antes do Brasil existir

Mas eu nasci no continente africano, há muitos séculos.

Minhas primeiras batidas ecoaram especialmente entre povos de matriz iorubá na África Ocidental — regiões onde hoje estão Nigéria e Benim, onde sou conhecido por muitos nomes.

Sou Ilú, termo usado para muitos tambores. Quando canto, dizem que “Ilú toca”.

Sou Batá, quando tenho 2 peles e me conecto com Xangô, e sou tocado por iniciados.

Sou Dùndún, o tambor falante.

Sou da família Ayan / Ogán, dos tocadores de tambor.

My beautiful picture

Tambor de Peito, século XIX, Gana, Cultura Akan, Ashanti. Feito de madeira, couro, e ovo. Altura de 62,8 cm e diâmetro da cabeça de 22 cm. Crédito: Coleção de Instrumentos Musicais Crosby Brown, 1889. Acervo The MET Museum. Licença de Domínio Público.

E entre povos bantôs na África Central, como os que habitavam áreas do atual Congo e Angola, sou conhecido por outros nomes.

Faço parte do Ngoma, que envolve todo o ritual musical.

Sou N’goma / Ingoma / Gongá no Candomblé de Angola.

Sou Mukupela / Kaxambu, o tambor de som grave.

Tambores pertencentes a Antwi (ou Antschi) Kwasi, Chefe Tradicional (Ohene) de Begoro (Gana, antiga Costa do Ouro), entre 1881 e 1888. Os tambores reais associados a ele eram símbolos de poder, comunicação e legitimidade política, usados em cerimônias, anúncios públicos e rituais de corte. Crédito: Missionário H. Hürlimann. Acervo Wikipedia. Licença de Domínio Público.

Ali, muito antes do relógio marcar datas, já havia ritmo como linguagem.

Eu não existia sozinho:

  • Havia tambores para festas.
  • Tambores para guerra.
  • Tambores para cura.
  • E tambores para falar com o mundo espiritual.

Eu nasci para isso: ligar o mundo material ao espiritual.

A orquestra do Chefe de Abetifi, em cerca de 1890, mostrando um conjunto de tambores do tipo Akam / Akom / Atumpan, ligados à corte tradicional. Abetifi é um importante centro tradicional Kwahu (Akan), no atual leste de Gana. O nome do chefe mencionado é desconhecido. Acervo Wikipedia / Impa-abmpix. Licença de Domínio Público.

Assim, meu nome significa tambor, mas esse significado é muito limitado quando falamos do contexto afro-brasileiro. Nas tradições de matriz africana no Brasil, como o candomblé e a umbanda, eu  sou:

Uma voz sagrada – ele “fala” por meio dos toques.

Um elo entre o mundo material e o espiritual.

Um meio de comunicação com orixás, inquices e voduns.

Travessia forçada: quando eu atravessei o Oceano

No século XVI, tudo mudou. Milhões de africanos foram sequestrados e trazidos à força para o Brasil.

Eles vieram acorrentados, mas trouxeram comigo a memória do som.

Mesmo proibidos de falar suas línguas, continuaram falando através do ritmo.

Eu cheguei aqui assim: na lembrança, no corpo, no coração.

Com o tempo, fui reconstruído com madeiras brasileiras, como o jacarandá. Meu corpo mudou um pouco, mas minha alma permaneceu africana.

Sou sagrado: não bato por acaso.

Em terreiros de Candomblé, eu não sou apenas instrumento.

Sou entidade, sou voz dos Orixás.

O Grave, O Médio, o Agudo

Existem três de nós, cada um com função:

  • Rum – o mais grave, quem “fala”.
  • Rumpi – tamanho intermediário, é quem responde ao Rum.
  • – quem sustenta.

Rum é o maior e mais grave dos três atabaques.

Tem a função de “falar”, ou seja, improvisar e conduzir o ritmo. O tocador do Rum dialoga com a dança, o canto e os rituais, criando variações rítmicas.

No contexto religioso, é o tambor mais expressivo e simbolicamente poderoso. Por isso se diz que o Rum é a voz principal.

Minhas características são:

  • Altura: aproximadamente 1,20 a 1,40 metros.
  • Diâmetro da boca: entre 40 e 50 cm.
  • Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) mais lentas, por isso, são sons graves.
  • Faixa principal: 70 Hz a 180 Hz.
  • Subgraves perceptíveis: podem chegar perto de 60 Hz.
  • Harmônicos: até cerca de 400 Hz.

Rumpi tem tamanho e afinação intermediários.

Atua como elemento de resposta ao Rum, criando diálogo rítmico.

Ajuda a enriquecer o ritmo, fazendo marcações que complementam a “fala” do Rum.

Ele funciona como um interlocutor, reforçando e respondendo às frases rítmicas.

Minhas características são:

  • Altura: aproximadamente 1,00 a 1,15 metros.
  • Diâmetro da boca: entre 30 e 38 cm.
  • Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) médias, por isso, são sons intermediários.
  • Faixa principal: 150 Hz a 400 Hz.
  • Harmônicos: até cerca de 800 a 1.000 Hz.

é o menor e mais agudo.

Sua função principal é sustentar o ritmo base, com um padrão geralmente repetitivo.

Garante estabilidade e continuidade para que Rum e Rumpi possam dialogar livremente.

O Lê é a base rítmica, o alicerce do conjunto.

Minhas características são:

  • Altura: aproximadamente 85 cm a 1,0 metro.
  • Diâmetro da boca: entre 25 e 30 cm.
  • Som: meus sons têm as vibrações por segundo (Hz) mais rápidas, por isso, são mais agudos.
  • Faixa principal: 400 Hz a 1.200 Hz.
  • Ataque e estalo: pode alcançar de 2.000 a 3.000 Hz.

Cada toque, um significado.

Cada batida é um idioma espiritual. Antes de tocar em mim, há respeito:

  • Meu couro é consagrado.
  • Minha madeira é reverenciada.
  • Meu som é pedido, não imposto.

Eu não toco qualquer coisa. Eu chamo forças!

Da roda ao terreiro: onde você me escuta hoje, fui sobrevivendo. E me espalhei.

Hoje você me encontra em muitas expressões culturais brasileiras:

  • Jongo – nas comunidades quilombolas.
  • Samba de roda – na Bahia.
  • Capoeira – marcando o jogo e o axé.
  • Coco – no Nordeste.
  • Ijexá – ligado ao sagrado e ao carnaval.
  • Maracatus – em cortejos de resistência.
  • Candomblé – onde sigo sendo essência.

Estou na roda, no chão, no corpo que dança, no pé que bate.

Sou música brasileira

Meu pulso vive: no samba, no pagode, no afoxé, na MPB, no funk de raiz.

Até em fusões com jazz, rock e música eletrônica.

Artistas como Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Daniela Mercury, Olodum, Ilê Aiyê beberam do meu ritmo.

Sou o coração que bate por trás da música do Brasil.

Preconceito, proibição e silêncio forçado

Mas nem tudo foi festa. Durante muito tempo:

Fui chamado de “barulho”.

Fui proibido pela polícia.

Fui perseguido por ser ligado às religiões afro-brasileiras.

Tentaram me calar chamando meu som de “coisa do demônio”.

Muitos terreiros foram invadidos.

Muitos mestres foram silenciados.

Mas o ritmo sobreviveu.

Porque quando se tenta matar um som que vive no corpo…

Ele renasce no próximo passo, na próxima palma, na próxima geração.

Sobrevivência e futuro

Hoje, jovens como você me escutam com novas orelhas.

Escolas, projetos sociais, grupos culturais e universidades voltaram a me estudar e respeitar.

Quando você aprende sobre mim, você aprende:

  • História do Brasil que não está só nos livros.
  • Resistência dos povos negros.
  • Cultura como forma de sobrevivência.
  • Música como identidade.

Cada vez que você me escuta com respeito, eu continuo vivo.

Me escute com o corpo.

Não me ouça só com as orelhas.

Me ouça com o peito, com o chão, com a memória.

Eu sou o Atabaque.

Não sou só passado.

Sou raiz, sou presente e sou futuro.

Deixe um comentário