Imagem de capa: conjunto de garfos afinadores (diapasões).
Vamos conhecer a história dos garfos afinadores, conhecidos atualmente como diapasões, usando nossa imaginação para ouvir a história contada pelo seu próprio inventor, o músico trompetista John Shore.
Eu Sou John Shore, o Inventor do Diapasão
Olá, jovens amigos sonoros!
Meu nome é John Shore.
Eu nasci na Inglaterra por volta de 1662 e vivi em uma época em que a música fazia parte da vida das cortes, dos teatros e das celebrações. Eu era trompetista e alaudista, vindo de uma família de músicos e artistas.
Tive a honra de servir na corte inglesa como “Sargento-Trompetista”. Esse cargo era muito mais do que o de um simples músico. Eu era o chefe dos trompetistas do rei ou da rainha, responsável por supervisionar os músicos de trompete que participavam de cerimônias oficiais, eventos militares, procissões, recepções diplomáticas e solenidades da corte. Nessa época, eu estava entre os músicos mais importantes da Inglaterra. Além de tocar, tinha responsabilidades administrativas e de liderança sobre os demais trompetistas da corte.
E pude tocar tocar obras escritas especialmente para mim por grandes compositores como George Frideric Handel e Henry Purcell. Estou especialmente associado às desafiadoras partes de trompete que aparecem em várias obras de Purcell, especialmente em suas odes, canções e músicas cerimoniais, compostas quando eu era um dos principais trompetistas da corte inglesa.
Mas hoje quero contar a vocês uma história especial, a invenção pela qual ainda sou lembrado: o afinador diapasão.
O problema da afinação
Vocês provavelmente já viram músicos “afinando” seus instrumentos antes de um concerto. Hoje existem afinadores eletrônicos, aplicativos e equipamentos muito precisos. Na minha época, nada disso existia.
No início do século XVIII, cada grupo de músicos utilizava referências sonoras diferentes para afinar. Algumas pessoas tomavam como modelo a voz de um cantor.
Outras usavam órgãos, cravos, flautinhas de afinação ou instrumentos que já estivessem afinados.
O problema era que esses métodos nem sempre eram confiáveis. Uma orquestra em uma cidade podia tocar mais agudo. Outra, mais grave. Muitas vezes não havia um padrão que todos pudessem seguir.
E isso causava dificuldades para qualquer músico.
Uma mudança em minha vida
Conta-se que sofri uma lesão no lábio que tornou muito difícil continuar minha carreira como trompetista. Por isso, passei a me dedicar ainda mais ao alaúde, um instrumento de cordas muito popular em minha época.
E, quanto mais eu tocava, mais percebia a importância de uma referência estável para a afinação.
Eu precisava de um som confiável, sempre igual, capaz de servir de guia para todos os músicos.
Observando as vibrações
Em algum momento comecei a prestar atenção a uma propriedade curiosa dos metais.
Quando uma barra metálica elástica (vibrante) é colocada para vibrar, ela produz sempre o mesmo som, desde que suas dimensões (comprimento, largura, espessura) não mudem.
Então imaginei:
“Será que eu poderia criar um pequeno objeto capaz de produzir sempre a mesma nota?”
A ideia era simples, mas poderosa.
Modelei duas hastes metálicas iguais, unidas por uma base, formando algo parecido com um garfo.
Quando golpeado levemente, aquele pequeno objeto vibrava produzindo uma nota muito estável.
Assim nasceu meu garfo de afinação, que mais tarde ficaria conhecido em muitas línguas como diapasão.
Por que o formato de garfo era tão especial?
O formato em “U” trazia várias vantagens.
- Primeiro, produzia uma nota musical muito pura.
- Segundo, mantinha o ritmo da vibração (frequência) extremamente estável.
- Terceiro, a nota pouco mudava mesmo quando o golpe não era exatamente igual.
- Além disso, era um instrumento pequeno, resistente e fácil de transportar.
Por isso, eu sempre brincava dizendo:
“I never go anywhere without my pitch fork.”
“Nunca vou a lugar algum sem meu garfo de afinação.”
O significado da palavra “diapasão”
Curiosamente, a palavra diapasão não nasceu para designar o meu instrumento.
Ela vem do grego dià pasôn, expressão ligada à teoria musical e ao intervalo de notas musicais de oitava, que compreende toda a extensão de uma escala musical. Mais tarde, a palavra passou ao latim como diapason.
Com o tempo, como meu instrumento fornecia a referência de afinação para toda a música, o nome que antes designava um conceito musical passou a ser usado também para o meu instrumento.
O diapasão tornou-se, literalmente, o portador da afinação.
O meu primeiro diapasão
Meu primeiro diapasão não produzia a moderna nota musical Lá (A) que sempre vibra exatamente 440 vezes por segundo, que vocês conhecem e usam hoje como referência sonora para afinar os instrumentos musicais.
Um exemplar histórico associado a mim e oferecido a George Frideric Handel produz aproximadamente um Dó (C) que vibra exatamente 512 vezes por segundo, correspondendo a um padrão de afinação usado em minha época.
Por que essa invenção foi importante?
Talvez o diapasão pareça apenas um pequeno pedaço de metal, mas sua importância foi enorme.
Pela primeira vez, músicos tinham uma referência sonora simples, portátil e confiável.
Graças a ele tornou-se possível comparar afinações entre músicos, conjuntos musicais e até cidades diferentes.
Ele ajudou a criar o caminho para os padrões de afinação que utilizamos hoje.
O que eu aprendi?
A música é arte, mas também é observação, curiosidade e ciência.
Meu diapasão nasceu porque procurei compreender um fenômeno simples da natureza: uma peça metálica de tamanho fixo vibra sempre no mesmo ritmo (frequência).
Ao transformar essa observação em uma ferramenta prática, ajudei músicos de todo o mundo a tocar juntos com mais harmonia.
E é assim que muitas invenções acontecem: alguém observa atentamente algo comum e imagina uma nova utilidade para aquilo.
Quem sabe a próxima grande invenção musical não venha justamente de um de vocês?
John Shore, músico, inventor e amigo da boa afinação.
E esta é a história do meu diapasão.

