Poo-Do-Parana (flauta). The Crosby Brown Collection of Musical Instruments, 1889. METMUSEUM. Licença OA. Domínio Público.
Vamos investigar aqui a questão: Qual a importância da música para as sociedades humanas?
visitando mitos de antigas civilizações sobre a música. Para isso:
- Identifique os tipos de instrumentos representados no mito dos povos de língua tukano: o Uakti (Brasil).
- Reflita sobre a função e importância da música na sociedade cultural de povos tukano.
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Um Menino Flauta
A história de Uakti é uma história cultural de povos originários tukanos que viviam às margens dos rios Negro e Tiquiê.
Em uma de suas aldeias, nasceu um menino indígena diferente.
Uakti era diferente, ele tinha o seu corpo todo perfurado.
Ao correr pela aldeia, com o vento a atravessar os furos em seu corpo, emitia sons que encantavam as mulheres da aldeia que viviam naquele lugar.
As mulheres se encantavam com os sons e se apaixonavam por Uakti.
Os homens da aldeia logo ficaram todos, muito enciumados.
E um dia, chamaram Uakti para caçar na floresta.
Mas ao se distanciarem bem da aldeia, perseguiram Uakti e o mataram, única forma de quebrar o encantamento de todas as mulheres da aldeia.
Os homens enterraram Uakti no meio da mata. E, mais tarde, no lugar onde enterraram o sonoro Uakti, nasceram altas taquaras com as quais criaram suas flautas sagradas.
A Taquara é o nome da vários bambus nativos, muito usada para flautas, apitos e outros instrumentos de sopro.
A Taboca (Guadua weberbaueri) é um bambu amazônico. O próprio nome “taboca” passou a designar certas flautas artesanais feitas desse material.
Outros Bambus em diversas espécies, tanto nativas quanto introduzidas, aproveitando seus caules ocos, funcionam naturalmente como tubos ressonantes.
Alguns povos, também usam caniços e outras gramíneas de caule oco, dependendo da vegetação local.
Deste modo, os homens passaram a construir e usar flautas em seus cânticos sagrados, reproduzindo o som mágico encantador de Uakti.
Por que bambus e taquaras são tão bons para flautas?
Porque a natureza já fornece quase tudo o que o construtor de instrumentos musicais precisa:
- são ocos por dentro;
- possuem paredes rígidas;
- têm formato tubular;
- secam sem perder muita resistência;
- ressoam bem as vibrações da coluna de ar.
Por isso, basta abrir orifícios em posições adequadas para obter diferentes notas musicais.
As flautas se tornam sagradas
Entre os Ka’apor, do Maranhão, há relatos de flautas feitas de taquara de bambu associadas a conhecimentos tradicionais e significados espirituais transmitidos pelos anciãos.
Povos do Alto Xingu, como os Kamaiurá, Wauja e Yawalapiti, são conhecidos por suas flautas cerimoniais, frequentemente construídas com bambu ou taquara. Essas flautas têm papel importante em rituais e festividades tradicionais.
Entre povos da Amazônia, como os Sateré-Mawé, Munduruku e outros grupos regionais, também encontram-se flautas confeccionadas a partir de bambus, taquaras ou caniços locais, aproveitando os caules ocos dessas plantas.
O mito de Uakti é geralmente associado aos povos da família linguística Tukano, da região do Alto Rio Negro, na Amazônia. Os Tukano, Desana e outros povos do noroeste amazônico utilizam diversos instrumentos de sopro feitos de materiais vegetais da floresta, incluindo flautas e trombetas.
Do ponto de vista da tecnologia indígena, a escolha da taquara e do bambu foi muito engenhosa: essas plantas já oferecem um tubo natural praticamente pronto para funcionar como uma coluna de ar ressonante. O construtor precisa apenas ajustar comprimento e furos para controlar as notas musicais.
Um aspecto interessante é que, para muitos povos, as flautas não são apenas instrumentos musicais. Elas podem:
- representar seres espirituais;
- ser usadas em rituais de iniciação;
- acompanhar danças e cantos sagrados;
- transmitir histórias e conhecimentos tradicionais.
Do ponto de vista antropológico, a história está ligada a uma tradição amazônica mais ampla em que:
- o som é visto como uma força espiritual;
- instrumentos de sopro possuem origem sagrada;
- vento, plantas e música estão profundamente conectados;
- as flautas rituais são consideradas seres ou objetos dotados de poder.
Há uma interpretação muito interessante do mito à luz da acústica:
- o corpo perfurado de Uakti funciona como uma espécie de flauta natural;
- o vento é a fonte de energia;
- os orifícios produzem diferentes ressonâncias;
- depois da morte, esse conhecimento passa para as flautas feitas das plantas nascidas sobre sua sepultura.
Curiosamente, o famoso grupo musical mineiro Uakti, criado por Marco Antônio Guimarães, escolheu esse nome justamente em homenagem a essa lenda amazônica e à ideia de instrumentos que produzem sons a partir da ressonância do ar. O grupo ficou conhecido por construir instrumentos experimentais com tubos, bambus, madeira e outros materiais.
A Magia, a Ciência e Cultura do Som
Curiosamente, pode-se dizer que os povos indígenas descobriram empiricamente propriedades físicas do som: eles perceberam que determinados caules ocos “ressoavam” melhor que outros e, ao longo de gerações, aperfeiçoaram a construção das flautas muito antes de existir a ciência moderna da acústica.
Podemos observar duas dimensões no mito musical Uakti,
A dimensão da magia da música, sua capacidade de despertar emoções, inspirar paixões e criar memórias.
A dimensão técnico – científica – o processo de construção de uma flauta com furos para um único tubo poder gerar diferentes sons – um dos grandes avanços em relação às flautas de Pan com um tubo de comprimento diferente para cada nota musical.
As duas dimensões de conhecimento geram, juntas, uma narrativa fantástica, poderosa e formadora de valores em seu grupo social.



No mito indígenas, a flauta Uakti é um instrumento com vários furos, possibilitando a produção de sons diferentes um dos outros, o mito talvez tenha sido criado na necessidade de explicar o motivo pelo qual tal árvore tenha essa característica é produza um som tão harmônico. Estou adorando os artigos!