Imagem de capa: ilustração das células que formam as camadas da retina.
O conceito da retina passou por várias fases, desde sua descoberta até a compreensão de sua função. Vejamos algumas dessas etapas.
A visão é imaginada
Durante séculos, o olho humano foi um dos maiores desafios da ciência.
Filósofos da Antiguidade acreditavam que os olhos emitiam raios invisíveis que permitiam enxergar o mundo. O filósofo e poeta Empédocles (século V a.C.), é considerado o primeiro a formular explicitamente a ideia de que existia um “fogo” no interior dos olhos, que saía para perceber os objetos.
Outros como Platão (427-347 a.C.) imaginavam que a visão era produzida por uma mistura entre a luz externa e uma força interna da mente. Ele desenvolveu a teoria afirmando que uma espécie de fluxo visual emanava dos olhos e se combinava com a luz externa para produzir a visão.
Euclides (c. 300 a.C.) descreveu a visão por meio de raios saindo dos olhos e utilizou essa ideia para construir modelos geométricos da óptica.
Ptolomeu (século II d.C.) também adotou a teoria da emissão de raios em seus estudos de óptica.
Essas ideias permaneceram em debate por quase sete séculos! Mas, a verdadeira natureza desse processo permanecia desconhecida nas profundezas do próprio olho.
O olho é dissecado
Foi apenas com o avanço da anatomia, que estudiosos começaram a investigar a estrutura do olho de forma mais detalhada. Ao dissecar olhos de animais e de seres humanos, os cientistas observaram uma fina camada localizada na parte posterior do globo ocular, como um guarda chuva aberto no fundo do olho. Essa delicada membrana recebeu o nome de retina, derivado do latim rete, que significa “rede”.
Os personagens mais importantes nessa história foram:
Herófilo de Calcedônia (c. 335-280 a.C.), considerado o “pai da anatomia”, foi um dos primeiros médicos a realizar dissecações sistemáticas de corpos humanos em Alexandria. Ele descreveu estruturas do olho (cristalino, retina, humor vitreo) e distinguiu quatro camadas diferentes. Também estudou o nervo óptico, ligando a visão ao cérebro.
Claudio Galeno (Galenos de Pérgamo, 129-216 d.C.) embora não tenha descoberto a função da retina, reuniu e ampliou o conhecimento anatômico de sua época. Seus escritos sobre o olho em De usu partium corporis humani libri XVII (Sobre a utilidade das partes do corpo humano, volume 17) influenciaram a medicina por mais de mil anos. A retina já era reconhecida como uma das camadas internas do olho em sua descrição anatômica.
Ibn al-Haytham (Alhazen, c. 965-1040), filósofo, físico e matemático árabe que revolucionou a compreensão da visão ao demonstrar que a luz entra nos olhos em vez de ser emitida por eles em seu tratado Kitab al-Manazir (“Livro da Óptica”), escrito entre 1011 e 1021. Seu trabalho abriu caminho para investigações mais precisas sobre as estruturas oculares.

Andreas Vesalius (1514-1564) é considerado o fundador da anatomia moderna. Suas dissecações humanas corrigiram muitos erros da tradição de Galeno e incentivaram estudos anatômicos mais rigorosos do olho e de suas membranas.
Felix Platter (1536-1614) foi um dos primeiros anatomistas a propor que a retina, e não o cristalino, era a estrutura responsável por receber as imagens. Essa foi uma mudança radical, pois durante séculos acreditava-se que o cristalino era o principal órgão da visão.
Entendendo as estruturas
Entretanto, descobrir a existência da retina foi apenas o primeiro passo. Ninguém sabia exatamente qual era sua função. Alguns acreditavam que o cristalino era o verdadeiro responsável pela visão, enquanto a retina era vista apenas como uma estrutura de suporte.
Mesmo após a identificação da retina, muitos anatomistas dos séculos XVII e XVIII ainda discordavam sobre sua função. Alguns estudiosos, entre eles o oftalmologista francês Antoine-Pierre Demours, questionavam se a retina era realmente o órgão imediato da visão. Havia pesquisadores que atribuíam maior importância à coroide, camada escura e vascular situada logo atrás da retina.
Eles acreditavam que pela retina ser transparente (um pouco leitosa) e a coroide ser escura, a retina não interagia com a luz, enquanto a coroide por ser escura poderia absorver a energia da luz. Uma ideia razoável, mas que não considerava a conexão da retina com o nervo óptico e cérebro – o que a coroide não possui.
No século XVII, o astrônomo e físico Johannes Kepler (1571-1630) trouxe uma ideia revolucionária. Estudando a óptica do olho, ele demonstrou que a luz atravessa a córnea e o cristalino, formando uma imagem invertida na retina. Sua teoria sugeria que essa fina camada era muito mais importante do que se imaginava e lançou as bases da óptica moderna.
A confirmação veio gradualmente nos séculos seguintes. Pesquisadores observaram que lesões na retina causavam perda da visão, enquanto danos em outras regiões do olho nem sempre produziam o mesmo efeito. A retina começava a revelar seu verdadeiro papel: ela era a superfície sensível à luz responsável por captar as imagens do mundo.
A retina vista ao microscópio
No século XIX, os avanços da microscopia permitiram uma descoberta ainda mais extraordinária. Os cientistas identificaram células especializadas na retina, chamadas bastonetes e cones. Os bastonetes mostraram-se essenciais para a visão em ambientes pouco iluminados, enquanto os cones eram responsáveis pela percepção das cores e dos detalhes.

Um marco decisivo ocorreu em 1851, quando o médico alemão Hermann von Helmholtz inventou o oftalmoscópio. Pela primeira vez na história, tornou-se possível observar a retina viva dentro do olho humano. O instrumento transformou a oftalmologia e abriu caminho para o diagnóstico de inúmeras doenças oculares.
A retina na neurologia moderna
Ao longo do século XX, novas pesquisas revelaram que a retina não era apenas uma “película fotográfica”. Ela se conecta e funcionava como uma extensão do próprio cérebro.
Milhões de células nervosas processavam informações visuais antes mesmo de enviá-las pelo nervo óptico. A visão começou a ser entendida como um fenômeno complexo que unia física, biologia e neurologia.
A retina é um tecido nervoso altamente organizado, formado por várias camadas de células que trabalham juntas para transformar luz em impulsos elétricos enviados ao cérebro.
Além das células cones e bastonetes, o neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) utilizando a técnica de coloração de Camillo Golgi, mapeou a organização da retina e descreveu seus principais tipos celulares, incluindo fotorreceptores (cones e bastonetes), células bipolares, amácrinas, horizontais e ganglionares.

As células bipolares recebem sinais dos bastonetes e cones. E fazem a ponte entre os fotorreceptores e as células ganglionares. Participam do processamento inicial da informação visual. Elas receberam esse nome porque apresentam dois prolongamentos principais: um que recebe sinais dos fotorreceptores (cones e bastonetes) e outro que transmite sinais para células ganglionares e amácrinas.
As células ganglionares são os neurônios de saída da retina. Seus axônios formam o nervo óptico. Elas recebem informações das células bipolares (diretamente ou por meio das amácrinas) e enviam seus axônios para formar o nervo óptico, que leva a informação visual ao cérebro.
As células horizontais fazem conexões laterais entre os fotorreceptores. Elas se espalham lateralmente, ou seja, horizontalmente, conectando grupos vizinhos de cones e bastonetes. Deste modo, melhoram o contraste das imagens e ajudam na detecção de bordas e contornos.
As células amácrinas se localizam entre as células bipolares e ganglionares, modulando e refinando os sinais visuais. São importantes para a percepção do movimento, de mudanças rápidas e adaptação à luz.
As células glia de Müller são as principais células de sustentação da retina. Seu nome é uma homenagem ao fisiologista e anatomista alemão Heinrich Müller (1820-1864), que estudou detalhadamente a estrutura microscópica da retina no século XIX. Ele observou essas células alongadas atravessando toda a espessura da retina, Elas mantêm o equilíbrio químico do tecido. Nutrem os neurônios retinianos. E auxiliam na transmissão da luz até os fotorreceptores.
As células do epitélio pigmentar da retina (EPR) formam uma camada localizada logo atrás dos fotorreceptores. Elas formam uma camada contínua de células justapostas, como um revestimento (epitélio). E contêm grânulos escuros de melanina, responsáveis pela pigmentação dessas células. Elas absorvem a luz dispersa, evitando reflexos internos. Nutre os bastonetes e cones. Remove resíduos metabólicos. E participa da regeneração dos pigmentos visuais.
Hoje, sabemos que a retina é um dos tecidos mais sofisticados do corpo humano. Ela converte partículas de luz em sinais elétricos capazes de ser interpretados pelo cérebro como formas, movimentos, cores e profundidade.
Graças ao trabalho de inúmeros cientistas ao longo de centenas de anos, aquilo que antes era desconhecido tornou-se uma das mais fascinantes histórias da ciência: a descoberta de como o ser humano transforma luz em visão.

