Missão Artemis II: Dia 2

Imagem de capa: A astronauta da NASA e especialista da missão Artemis II, Christina Koch, observa a Terra da janela da espaçonave Orion a caminho da Lua durante a missão Artemis II. Naquele momento, Christina já estava mais distante do nosso planeta do que qualquer mulher jamais esteve.  Crédito: NASA.

Narrativa ficcional pelo Comandante Reid Wiseman com base em dados reais da missão.

Dia 2: Testando nossa nave… e a nós mesmos

Reid Wiseman, astronauta da NASA e comandante da Artemis II, durante treinamento de preparação pós-inserção e desorbitação. Crédito: NASA/Mark Sowa. Licença CC-BY-NC-ND-2.0.

Cerca de 25 horas depois do lançamento, ocorre a Injeção TransLunar (TLI) que é a grande queima do motor que nos tira da órbita da Terra e nos coloca numa viagem de três dias até a Lua.

E nós passamos o dia testando tudo.

Como comandante, eu testei a pilotagem manual da Orion, assumindo o controle direto da nave, testei a resposta aos comandos manuais e avaliei a estabilidade, a rapidez e a precisão do voo. Esses testes são importantes, pois se sistemas automáticos falharem em futuras missões lunares, o comandante precisa pilotar a nave “na mão”.

A Terra vista da janela da cápsula Orion durante a missão Artemis II. Crédito: NASA / Reid Wiseman

Também fizemos um teste importante chamado Manobra Proximity Operations (Operações de Aproximação), onde o nosso piloto Victor Glover participou comigo dos testes de controle manual e fez simulações de aproximação e posicionamento fino da nave e treino de acoplamento — algo essencial para futuras missões que vão pousar na Lua.

Pensem nisso como aprender a estacionar uma nave espacial… sem freios.

Esses testes preparam as tripulações para acoplar a Orion a um módulo de pouso lunar, algo que será essencial nas próximas missões Artemis.

Astronauta da NASA Victor Glover. Crédito NASA.

O nosso especialista da missão, Jeremy Hansen fez testes de comunicação com a Terra via a Deep Space Network (Rede de Espaço Profundo) para avaliar atrasos nos sinais, a clareza de voz e de dados transmitidos e realizar os ajustes necessários nos procedimentos de comunicação com Houston.

A distância média Terra-Lua é de 384.400 km, considerando a velocidade dos sinais (ondas de radio) como a velocidade da luz, temos os seguintes atrasos nessa distância média:

  • Atraso de ida: ~1,28 s
  • Atraso de Ida e volta: ~2,56 s

Isso explica por que comunicações lunares ainda permitem conversas quase em tempo real, com apenas um pequeno “eco” perceptível. Entretanto, isso precisa ser considerado no controle dos sistemas e operações pois com a alta velocidade da nave, 1 ou 2 segundos pode significar uma grande diferença na posição ou orientação da nave.

A Rede de Espaço Profundo (DSN, em inglês), é uma rede internacional de antenas gigantes de comunicação por rádio (telefonia e internet) usada para se comunicar com sondas e espaçonaves que estão muito longe da Terra, no espaço profundo.

A Rede tem três funções principais: Comunicação, Navegação e Científica.

Ela é composta por três complexos, distribuídos de forma estratégica ao redor do planeta para garantir comunicação 24 horas por dia enquanto a Terra gira. Elas ficam em Goldstone (Califórnia, EUA), em Madrid (Espanha) e em Canberra (Austrália). Cada complexo tem várias antenas, incluindo algumas com 70 metros de diâmetro, entre as maiores do mundo.

As espaçonaves ou sondas espaciais estão muito distantes e transmitem sinais extremamente fracos. As antenas enormes são necessárias para captar esses sinais quase imperceptíveis e enviar comandos suficientemente fortes para atravessar o espaço. Por exemplo, um sinal enviado a Marte pode levar entre 4 e 24 minutos para chegar, dependendo da posição da Terra e de Marte.

A maioria das grandes missões espaciais depende da DSN, como: as Voyager 1 e 2 (as mais distantes da Terra), as rovers em Marte (Perseverance, Curiosity), os satélites em órbita de Júpiter e Saturno e as missões a asteroides e cometas

Embora seja administrada pela NASA, a Deep Space Network também é usada pela Agência Espacial Europeia (ESA), Agências espaciais do Japão e de outros países e missões científicas internacionais.

Jeremy também fez registros da missão, tirando fotografias da Terra, fazendo vídeos do interior da Orion e dando apoio na organização de dados para análise posterior.

Fotografia da Terra, tirada pelo comandante da Artemis II, Reid Wiseman, logo após a missão concluir a queima do motor para orbitar a Lua. Crédito: NASA / Reid Wiseman

A especialista de missão Christina Koch fez uma avaliação do Sistema de Controle Ambiental e de Suporte à vida (ECLSS, em inglês).

Christina:

  • monitorou o oxigênio (O₂), o gás carbônico (CO₂) da nave.
  • verificou a temperatura e a umidade na nave.
  • analisou o conforto e a segurança da cabine
  • e registrou as reações fisiológicas da tripulação, com testes médicos iniciais de pressão arterial, equilíbrio e adaptação à microgravidade).
A astronauta da NASA e especialista da missão Artemis II, Christina Koch, observa a Terra da janela da espaçonave Orion a caminho da Lua durante a missão Artemis II. Naquele momento, Christina já estava mais distante do nosso planeta do que qualquer mulher jamais esteve.  Crédito: NASA

Controle de Oxigênio (O₂)

O oxigênio respirável da Orion é armazenado em tanques de alta pressão localizados no Módulo de Serviço, fornecido pela Agência Espacial Europeia (ESA). Esse oxigênio é distribuído ao Módulo da Tripulação por válvulas e reguladores automáticos que mantêm a pressão parcial de O₂ em níveis equivalentes aos da Terra (em cerca de 21%).

Sensores espalhados pela cabine monitoram continuamente: concentração de oxigênio, pressão interna e possíveis vazamentos. Se houver qualquer desvio, o sistema ajusta automaticamente o fluxo ou alerta a tripulação via painéis digitais.

Christina participa ativamente dos testes em voo desses sensores, alarmes e procedimentos de contingência, validando se os dados apresentados aos astronautas são confiáveis para futuras missões.

Remoção do Gás Carbônico (CO₂)

O CO₂ exalado pelos astronautas é potencialmente perigoso se for acumulado. A Orion utiliza unidades regeneráveis de remoção de CO₂ e umidade, baseadas em absorventes químicos reutilizáveis (derivados de amônia), diferentemente dos cartuchos descartáveis usados no programa Apollo.

Suas características principais são: remoção contínua de CO₂, capacidade de regeneração (menos consumo de suprimentos) e operação automática, com supervisão da tripulação. O sistema mantém o CO₂ bem abaixo de níveis que causariam fadiga, dor de cabeça ou perda cognitiva.

Christina executa procedimentos de verificação operacional, observando desempenho, ruído, consumo energético e resposta do sistema em diferentes fases do voo, além de relatar qualquer variação fisiológica percebida pela tripulação.

Controle de Temperatura

A Orion enfrenta extremos térmicos: mais de +120 °C quando exposta ao Sol e menos de −150 °C no lado oposto. Para manter a cabine entre 18 °C e 27 °C, a nave usa um sistema ativo de controle térmico, com: loops de fluido refrigerante, radiadores externos e isolamento térmico passivo (MLI). O calor gerado por eletrônicos e pelos próprios astronautas é transportado e dissipado para o espaço por radiação infravermelha.

Christina contribui avaliando o conforto térmico real da cabine (zonas quentes/frias), comparando com modelos de engenharia e ajudando a ajustar parâmetros para missões mais longas, como a Artemis III.

Controle de Umidade

A respiração e o suor dos astronautas aumentam rapidamente a umidade interna. A Orion mantém a umidade relativa em torno de 30–70%, evitando: condensação em painéis elétricos, crescimento microbiano e desconforto respiratório. O excesso de umidade é removido junto com o CO₂ e convertido em água líquida, que pode ser tratada e reutilizada no sistema.

Christina monitora a integração entre controle de umidade, ventilação e reciclagem de água, identificando impactos no bem-estar da tripulação e na eficiência do sistema fechado de suporte à vida.

A Artemis II é a primeira missão tripulada em espaço profundo desde 1972, e seu foco não é a exploração científica, mas a validação humana e técnica da Orion. O desempenho do ECLSS, testado diretamente por astronautas como Christina Koch, define se:

  • missões lunares de longa duração são seguras.
  • astronautas poderão permanecer dias ou semanas sem reabastecimento.
  • o modelo pode ser adaptado para Marte.

A Artemis II é a primeira missão humana fora da órbita baixa da Terra desde 1972 e o corpo humano reage diferente nesse ambiente. Todos nós participamos de exercícios físicos obrigatórios pois ninguém escapa da “academia espacial”, realizamos testes cognitivos de atenção e de tempo de reação), com treinamento para emergências e avaliação da fadiga e do sono. Esses dados serão usados para planejar futuras missões mais longas no espaço.

A espaçonave Orion tirou esta selfie enquanto estava a caminho da Lua, usando uma câmera montada em uma de suas asas do painel solar durante uma inspeção externa de rotina. Crédito: NASA

Nesse segundo dia, testamos se nós, humanos, conseguimos controlar, viver e decidir dentro de uma nave em espaço profundo.

Não era sobre ir longe, mas sobre fazer tudo direito!

Veja os melhores momentos do segundo dia, transmitidos pela NASA no vídeo abaixo.

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