Imagem de capa: A Terra iluminada contrastando com a escuridão do espaço, é vista através da janela da espaçonave Orion nesta fotografia tirada pela tripulação da Artemis II no terceiro dia de sua jornada rumo à Lua. Crédito da imagem: NASA.
(Narrativa ficcional pelo Comandante Reid Wiseman com base em dados reais da missão.)
Rumo à Lua: A Injeção Translunar (TLI)

No terceiro dia, nossa nave Orion já havia deixado a órbita da Terra e estava em trajetória para a Lua, após a injeção translunar. Foi o primeiro dia completo em espaço profundo, fora do “casulo” da órbita baixa terrestre. O foco do dia foi responder a uma pergunta:
“Estamos realmente prontos para viver e trabalhar fora da proteção do ambiente terrestre?”

O Sono no espaço
A actigrafia utiliza um dispositivo portátil (actígrafo), semelhante a um relógio de pulso, que contém acelerômetros que registram movimentos corporais continuamente. A partir desses dados, algoritmos estimam quando a pessoa está acordada ou dormindo, além de métricas como duração do sono, eficiência e fragmentação. Ela mede: horários de início e fim e duração do sono, despertares noturnos, eficiência do sono, a regularidade de sono e vigília e os níveis de atividade física diária. Essas variáveis são essenciais para entender desalinhamentos biológicos, como jet lag, trabalho em turnos ou exposição a ambientes extremos.
A NASA usa actigrafia há mais de 20 anos como ferramenta para monitorar sono, fadiga e desempenho cognitivo durante missões espaciais. O sono é um desafio no espaço, por exemplo, a Estação Espacial Internacional (ISS) tem 16 amanheceres e entardeceres a cada 24 horas. Não há um ciclo natural de luz–escuridão. Além disso, a microgravidade, ruído e carga de trabalho dificultam o sono e há um alto risco de desalinhamento circadiano e privação de sono. E todos esses fatores afetam a atenção, a memória, o tempo de reação e a segurança operacional.
Nossa especialista Christina Koch monitora os ritmos de sono.
Os trajes estão funcionando?
Christina realizou, ainda, testes dos trajes espaciais da Orion Crew Survival System (Sistema Orion de Sobrevivência da Tripulação, OCSS, em inglês). Ela, por já ter passado quase um ano no espaço, tinha experiência prática para detectar detalhes que sensores não captam, como desconforto, pontos de pressão e fadiga.
Ela avaliou o conforto térmico dos trajes, testou mobilidade dos braços, pernas e mãos, verificou qualidade de ventilação interna, testou comunicação por rádio com o traje pressurizado e simulou períodos prolongados de uso. Esses trajes são usados durante lançamento e reentrada e precisam funcionar perfeitamente em emergências. Eles serão base para versões futuras usadas em missões lunares.
O OCSS é um traje pressurizado usado dentro da nave — diferente dos trajes de caminhada espacial. Ele foi desenvolvido especificamente para: lançamento, fases dinâmicas de voo, eventual perda de pressão da cabine, reentrada hipersônica e pouso no oceano e espera por resgate. Na Artemis II, ele é usado de forma ativa, inclusive em testes em órbita, algo inédito para esse tipo de traje em missões lunares modernas.
O OCSS é projetado para manter um astronauta vivo por até 6 dias caso a cabine da Orion perca totalmente a pressão no espaço profundo — tempo necessário para um retorno de emergência da Lua até a Terra.
Cada traje:
- Mantém pressão interna parcial suficiente para evitar ebulição de fluidos corporais.
- Fornece oxigênio contínuo.
- Remove dióxido de carbono exalado.
- Controla temperatura e umidade internas.
O OCSS possui: interface dedicada de fornecimento de O₂, sistema de ventilação forçada e dutos internos que removem CO₂ do capacete. O traje mantém a atmosfera respirável mesmo se a cabine sofrer falhas locais. O controle é feito automaticamente, com monitoramento nos painéis da nave e nos sensores biomédicos do astronauta.
O OCSS usa um Liquid Cooling Garment (LCG) — uma roupa interna com microtubulações de fluido refrigerante, semelhante a uma “segunda pele térmica”. Esse sistema: remove calor corporal, evita suor excessivo e mantém fluxo térmico estável mesmo com o traje pressurizado.
O capacete do OCSS foi redesenhado em relação aos trajes do Ônibus Espacial: ele é mais leve e reforçado estruturalmente, com redução de ruído interno, é melhor integrado às comunicações da Orion e tem um campo de visão otimizado para operação em assentos reclinados.
A cor laranja intenso do traje não é estética: ela garante máxima visibilidade no oceano, caso a tripulação precise aguardar resgate após o pouso.
O traje é de Nomex – uma fibra aramida desenvolvida pela DuPont, conhecida por ser:
- Resistente ao fogo e ao calor
- Autoextinguível (não continua queimando)
- Leve e respirável
- Muito durável
Diferente de tecidos comuns, o Nomex não derrete nem pinga quando exposto a chamas — ele forma uma camada isolante que protege a pele.
Diferentemente dos trajes antigos (tamanhos P/M/G), o OCSS é feito sob medida para cada astronauta, mas ajustável. É projetado para permitir alcance de controles mesmo pressurizado com zíper reforçado, articulações redesenhadas e compatibilidade com telas sensíveis ao toque fazem parte dessa evolução.
O Crew Survival System não funciona isoladamente. Durante reentrada e splashdown, o conjunto traje + assento + estrutura da cápsula atua como um sistema único de proteção humana.
Pilotar sozinhos no espaço
Eu, como comandante, liderei as simulações operacionais mais sensíveis do dia. Verificamos possíveis emergências como:
- Falha temporária dos sistemas automáticos com a simulação de correção manual de trajetória translunar. Nessa simulação, eu e o piloto Victor assumimos o controle direto do Orion, segundo o manual de Manobra de Correção de Trajetória (TCM, em inglês). Utilizamos: controladores manuais, dados de navegação óptica e inercial e solução de atitude sem automação completa.
- Perda parcial de energia e a redistribuição manual de cargas elétricas,
- Demonstração de pilotagem manual em espaço profundo,
- Simulação de preparação para entrada em órbita lunar,
- e a tomada de decisão com atraso de comunicação.
O objetivo é verificar se nossa tripulação consegue: corrigir a trajetória rumo à Lua sem o piloto automático, manter precisão de apontamento e estabilidade do veículo e operar em ambiente quando a Terra deixa de ser o piloto e passa a ser um observador atrasado.
Eu fico com a autoridade final sobre execução e abortagem e o monitoramento de envelope térmico e regras de voo. E o piloto Glover com o controle primário de atitude e a entrada manual de parâmetros de queima simulada.
Conexão profunda com a nave
Como a nave já estava longe da Terra, os comandos de Houston chegavam com atraso perceptível, exigindo autonomia da tripulação — exatamente o que será necessário em missões futuras. O piloto Victor Glover ficou responsável por avaliar como os astronautas interagem fisicamente e cognitivamente com a nave. Ele realizou testes de resposta dos controles manuais, de leitura e interpretação de alertas visuais e sonoros, testes de tempo de reação e avaliação de carga cognitiva.
Em espaço profundo, pequenos erros podem virar grandes rapidamente. Portanto, o piloto precisa entender a nave intuitivamente e os sistemas precisam ajudar, não atrapalhar. Victor registrou observações detalhadas para engenheiros ajustarem o software e o layout dos painéis em versões futuras da Orion.
Os Experimentos do Dia
O especialista Jeremy Hansen teve papel central na organização científica do dia.
Ele preparou o ambiente para os experimentos biológicos, com registro detalhado de horários, condições e eventos e fez uma documentação fotográfica e em vídeo.
Ele atuou como elo entre ciência, operação e registro histórico da missão — algo essencial em voos experimentais.

Jeremy deu apoio técnico ao experimento AVATAR (A Virtual Astronaut Tissue Analog Response) onde Christina Koch fez o monitoramento biológico indireto e Jeremy Hansen deu suporte operacional e registro do dados fisiológicos de toda a tripulação.
No AVATAR:
- Os chips de tecido humano cultivado em laboratório são ativados.
- Os tecidos são derivados de células previamente doadas pelos próprios astronautas.
- É realizado um monitoramento passivo durante exposição dos tecidos à radiação de espaço profundo.

O objetivo é estudar como a radiação, a microgravidade e o ambiente fora da magnetosfera terrestre afetam tecidos sensíveis, especialmente medula óssea, que é crucial para o sistema imunológico. Esses dados serão analisados após o retorno à Terra, mas o funcionamento correto do experimento em voo era crítico.
Para saber mais sobre o sistema, clique em AVATAR.
E ver uma transmissão especial da missão no terceiro dia , no vídeo abaixo.

