Missão Artemis II: Dia 4

Imagem de capa: Jeremy Hansen captura uma imagem através da cobertura da câmera que protege a janela 2 da espaçonave Orion. A cobertura da câmera, essencialmente uma cortina com um orifício para a passagem da lente, é usada para evitar que a luz da cabine se reflita nos vidros da janela. Crédito da imagem: NASA.

A Terra agora cabe inteira na janela da nave.

Como comandante, eu continuo a supervisão do cronograma do dia, e faço a verificação da navegação e trajetória da nave, coordeno as comunicações com Houston e faço registros fotográficos da Terra em afastamento.

O comandante Reid Wiseman (em primeiro plano), e o especialista Jeremy Hansen da missão Artemis II, praticam fotografia lunar no Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston, 2025. Crédito: Foto: Kelsey Young.

As câmeras Nikon

Nós usamos manualmente câmeras fotográficas profissionais daNikon, principalmente DSLRs Nikon D5, além da introdução experimental de uma Nikon Z9. Além disso, existem câmeras fixas externas da nave.

A Nikon D5 foi a principal câmera fotográfica operada manualmente para registrar a Terra, a Lua e o interior da cápsula Orion.

O modelo foi lançado em 2016, e muito testado em missões espaciais. Ela tem sensor full‑frame (20,8 MP) com excelente faixa dinâmica, com um desempenho excepcional em ISO alto, crucial em ambientes de iluminação extrema. Tem um corpo mecânico robusto, menos sensível a falhas em ambiente de radiação e já foi “qualificada em voo” pela NASA em missões anteriores da ISS e do programa Artemis.

Essas características fazem da D5 uma câmera confiável em radiação cósmica, microgravidade e ciclos térmicos, fatores muito mais críticos que “tecnologia de ponta”.

Uma pequena porção da Terra se ilumina contra a escuridão do espaço nesta foto tirada por um membro da tripulação da Artemis II através de uma janela da espaçonave Orion. Crédito: NASA.

A Nikon Z9 esteve a bordo da Artemis II de forma experimental para testar sensores mirrorless modernos em ambiente de espaço profundo. O objetivo foi de avaliar: o impacto da radiação cósmica, o comportamento do sensor empilhado (stacked CMOS) e a confiabilidade sem obturador mecânico.

A Z9 faz parte do caminho para a Câmera Lunar Universal Portátil, o sistema que será usado em missões futuras com pouso. Na Artemis II, ela não substituiu a D5, mas funcionou como teste tecnológico para a Artemis III.

As configurações e lentes das câmeras favorecem o registro da Terra inteira, janelas da Orion e imagens de contexto científico, e não apenas fotografia artística tradicional.

Nesse dia, capturei imagens icônicas da Terra vista de longe, incluindo registros das auroras boreal e austral visíveis ao mesmo tempo, algo extremamente raro e possível apenas fora da órbita baixa.

Jeremy Hansen captura uma imagem através da cobertura da câmera que protege a janela 2 da espaçonave Orion. A cobertura da câmera, essencialmente uma cortina com um orifício para a passagem da lente, é usada para evitar que a luz da cabine se reflita nos vidros da janela. Crédito da imagem: NASA.

É a primeira vez desde 1972 (Apollo 17) que fotografamos auroras de fora da magnetosfera externa próxima da Terra, com visão global do planeta. Nas fotos divulgadas, é possível observar: Aurora Boreal no hemisfério norte, Aurora Austral no hemisfério sul, a Terra inteira, como disco completo, um anel luminoso verde contínuo, seguindo os polos magnéticos.

Foi como ver arte em movimento. Essas imagens não são apenas simbólicas; elas ajudam a validar câmeras e sensores ópticos da Orion, a treinar documentação visual para futuras missões lunares e a reforçar a comunicação científica e educacional da missão.

Verificando trajetória e órbita

Nosso piloto Victor Glover fez verificação da estabilidade da órbita de transferência, acompanhou a atitude da nave (sua orientação no espaço), fez testes cognitivos de tempo de reação e atenção e me deu apoio na interpretação de dados de navegação.

No espaço profundo, a nave passa longos períodos em voo “silencioso”, e pequenas correções precisam ser detectadas cedo. Por isso, o piloto deve manter alto desempenho cognitivo mesmo em rotina repetitiva. Esses dados ajudam a planejar escalas de trabalho e descanso para missões mais longas.

Monitorando nossa Saúde fora da proteção da Terra

Nossa especialista Christina Koch continuou o monitoramento fisiológico e deu continuidade às pesquisas científicas. Ela aplicou questionários fisiológicos, monitorou a adaptação ao sono em espaço profundo, acompanhou a exposição à radiação e verificou os experimentos biomédicos ativos.

Ela tem um papel central em registrar como o corpo humano reage após alguns dias contínuos em microgravidade e fora da proteção significativa do campo magnético da Terra.

O risco da radiação é medido em sievert (Sv) e leva em conta: a energia da radiação, o tipo de partícula (fótons, prótons, íons pesados) e o efeito biológico no corpo humano.

1 sievert representa uma quantidade de radiação suficiente para causar efeitos biológicos graves em humanos. Por isso, na prática, quase sempre usamos valores bem mais baixos, como:

  • milisievert (mSv = 0,001 Sv)
  • ou microsievert (µSv = 0,000001 Sv).

Na Terra, somos protegidos pela atmosfera espessa e o campo magnético da Terra. Isso resulta que sofremos o risco de radiação de 2,4 a 3,0  mSv por ano ou  de 0,06 a 0,08  mSv em 10 dias. Esse valor inclui radiação natural do solo, do ar (radônio) e cósmica filtrada pela atmosfera.

Durante a Artemis II, a nave saiu da magnetosfera terrestre, ficando exposta a: radiação Cósmica Galáctica contínua; partículas solares energéticas intermitentes; e breves passagens pelos cinturões de Van Allen.

A Orion conta com blindagem significativa, validada na missão Artemis I não tripulada.

Com isso, a dose total esperada para a Artemis II é da ordem de 15 a 25 mSv em 10 dias

AmbienteDose em ~10 dias
Superfície da Terra0,07 mSv
Missão Artemis II15–25 mSv

Um astronauta da Artemis II recebe cerca de 200 a 350 vezes mais radiação em 10 dias do que uma pessoa na Terra no mesmo período. A comparação não é apenas quantitativa, mas qualitativa pois na Terra: predominam fótons de baixa energia. E no espaço profundo: há prótons e íons pesados (HZE), biologicamente mais danosos por unidade de dose.

Para contextualizar:

Exposição aproximadaDose
Dose natural anual média (Terra)2–3 mSv
Tomografia computadorizada (TC)5–20 mSv
Astronauta em missão curta no espaço profundo10–30 mSv
1 sievertMuito alto – risco sério à saúde
4–5 sievert (sem tratamento)50% de mortalidade
>8 sievertGeralmente letal

1 sievert é uma dose muito alta de radiação, definida para expressar risco biológico real, e valores dessa ordem só aparecem em acidentes graves ou cenários extremos.

A NASA não pode permitir que um astronauta se aproxime desse valor durante a sua carreira. Daí, ser importante monitorar esse risco durante toda a viagem. Os dados coletados na Artemis II são essenciais para definir limites de duração de missões, ajustar a blindagem de futuras naves e projetar protocolos médicos para missões futuras.

Nosso especialista Jeremy Hansen fez testes de comunicação com atraso perceptível, estruturou o registro de dados operacionais, deu apoio contínuo ao experimento AVATAR e organizou imagens, vídeos e logs de bordo. Jeremy teve um papel-chave na documentação científica sistemática do dia — algo fundamental em testes de voos, onde cada detalhe é analisado após o retorno.

Nesse dia, o experimento AVATAR passou a permanecer exposto continuamente à radiação de espaço profundo, operando sem intervenção direta, apenas com monitoramento e registro das respostas celulares em tecidos humanos artificiais.

10 Coisas sobre os Chips de Órgãos

  1. Chips de órgãos ou tecidos do tamanho de um pen drive são usados ​​para estudar como os tecidos humanos respondem a estressores extremos (como radiação) e tratamentos terapêuticos (como produtos farmacêuticos). 
  2. Os chips contêm culturas de células que modelam as estruturas e funções de tecidos e órgãos humanos específicos — como pulmões, coração, pâncreas e fígado — e podem ser interligados para simular sistemas fisiológicos inteiros, como o sistema circulatório sanguíneo. 
  3. Chips de órgãos podem ser produzidos a partir de células humanas adultas doadas por voluntários. 
  4. São criadas a partir de uma simples coleta de sangue, células da pele ou culturas de células armazenadas.   
  5. As células podem ser diferenciadas em tipos celulares especializados dos tecidos que os pesquisadores desejam estudar.  
  6. Fatores de estresse no espaço, como a microgravidade e a radiação, podem acelerar alterações associadas a doenças, como aterosclerose e perda óssea, que normalmente levam muitos anos para se manifestarem na Terra — permitindo que os pesquisadores estudem as causas dessas alterações muito mais rapidamente.  
  7. Como os chips de órgãos são feitos diretamente de células humanas, eles são considerados modelos mais “autênticos” para comparar dados científicos e biomédicos e podem ser usados ​​para entender por que e como o corpo humano se adapta às mudanças no ambiente de voo espacial e a outras condições extremas. 
  8. A pesquisa com órgãos em microchips pode ser usada para desenvolver medidas preventivas aprimoradas e criar tratamentos médicos personalizados para humanos, tanto na Terra quanto no espaço. 
  9. A NASA, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (CARDA), os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) e outras agências governamentais norte-americanos estão colaborando em pesquisas com órgãos em microchips para obter dados científicos fundamentais e preencher lacunas críticas no conhecimento da biologia humana. 
  10.  A NASA enviou chips de órgãos à Lua pela primeira vez na Missão Artemis, o que permitirá aos pesquisadores coletar informações sobre os efeitos de diferentes níveis de gravidade e da radiação do espaço profundo.   

O objetivo é entender como tecidos sensíveis, como medula óssea, reagem ao ambiente fora da magnetosfera — uma das grandes limitações para missões longas. A medula óssea é responsável pela produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Isso faz da medula uma amostra ideal para diagnosticar doenças e avaliar como o sistema imunológico de uma pessoa responde aos tratamentos.

Mantendo a forma

E todos continuaram participando de exercícios físicos obrigatórios, questionários de fadiga, avaliação de humor e bem‑estar e das rotinas de manutenção da cabine.

Essas tarefas ajudam a responder uma pergunta central do programa Artemis:

“É possível manter desempenho humano estável durante vários dias em espaço profundo?

Veja os melhores momentos do quarto dia da Missão Artemis II no vídeo transmitido pela NASA abaixo:

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