Imagem de capa: Os motores do módulo de serviço da Orion estão em destaque nesta imagem de voo da missão Artemis II. Tirada de uma câmera montada em uma asa de painel solar, o maior é o motor do sistema de manobra orbital, cercado por oito propulsores auxiliares menores. Crédito: NASA.
Preparação para o lado oculto da Lua
Nesse quinto dia, a nave Orion já estava muito próxima da Lua.
Esse foi o último dia completo de preparação antes do momento mais delicado da missão: o sobrevoo do lado oculto da Lua, quando ficaríamos sem comunicação com a Terra.
Esse dia teve três objetivos centrais:
- Garantir que a nave podia operar de forma autônoma.
- Preparar a tripulação para um período de isolamento.
- Revisar todos os sistemas críticos antes da máxima distância da Terra.
Eu, como comandante, tive que:
- Conduzir uma revisão geral de prontidão da missão.
- Verificar procedimentos para perda temporária de comunicação.
- Coordenar a execução de checklists finais do sobre voo lunar.
- Validar a sequência automática de navegação durante o sobrevoo.
- Liderar briefings internos da tripulação.
Durante o sobrevoo, não há contato com Houston e todas as decisões precisam ser tomadas a bordo.
E o comandante tem autoridade total. Foi o dia em que assumi plenamente o papel de líder autônomo em espaço profundo.
“Depois desse ponto, somos nós, a nave e a física.”

A trajetória está correta?
Nosso piloto Victor Glover realizou a verificação da trajetória e o controle fino da nave.
| Marco da missão | Data / Fase | Distância à Terra (km) | Distância à Lua (km) | Observações físicas |
| Lançamento | 1 abril 2026 | 0 | 384 .000 | Orion ainda em órbita baixa terrestre |
| Órbita terrestre inicial | poucas horas após | 6.600 | 378.000 | Distância medida ao centro da Terra |
| Injeção translunar (TLI) | 1 dia após lançamento | 30. 000 | 355 .000–360 .000 | Trajetória direcionada à Lua |
| Meia distância Terra–Lua | 2 dias de voo | 190. 000 | 190. 000 | Equidistante de Terra e Lua |
| Aproximação lunar | 5 dias | 380. 000 | 50 .000 a 20.000 | Distância decresce rapidamente. |
Já estávamos bem mais perto da Lua.
Suas responsabilidades principais foram:
- Confirmar parâmetros da trajetória de aproximação lunar.
- Monitorar a velocidade e orientação da Orion.
- Checar os limites de combustível e margens de correção.
- Preparar procedimentos manuais de contingência.
- Treinar respostas rápidas a alertas simulados.
No lado oculto da Lua não há GPS, não há comunicação em tempo real e apenas sensores, a Matemática e a Física mantêm a nave segura.

Quem está atraindo mais a nave Orion: a Terra ou a Lua?
A influência gravitacional da Terra diminuiu ao longo desses 5 dias e a da Lua cresceu ao longo do trajeto.
Utilizando a lei da gravitação universal de Newton, para um objeto que parte da Terra rumo à Lua, a aceleração gravitacional é:
Tabela — gravidade da Terra e da Lua ao longo do trajeto
| Distância ao centro da Terra (km) | Gravidade da Terra (m/s²) | Gravidade da Lua (m/s²) |
| 10. 000 | 3,99 | 0,00004 |
| 20 .000 | 1,00 | 0,00004 |
| 30 .000 | 0,44 | 0,00004 |
| 40 .000 | 0,25 | 0,00004 |
| 50 .000 | 0,16 | 0,00004 |
| 100. 000 | 0,04 | 0,00006 |
| 150. 000 | 0,02 | 0,00010 |
| 200. 000 | 0,01 | 0,00020 |
| 250. 000 | 0,006 | 0,00046 |
| 300. 000 | 0,004 | 0,00153 |
| 326. 000 | 0,0035 | 0,0035 |
| 350. 000 | 0,00325 | 0,00414 |
| 360. 000 | 0,00308 | 0,00824 |
| 370. 000 | 0,00291 | 0,0237 |
326 000 km é o ponto onde as gravidades da Terra e da Lua se igualam.
Perto da Terra, a gravidade terrestre domina completamente e até mesmo a 100 000 km, a Lua ainda exerce influência quase desprezível. A Lua só começa a ‘mandar’ gravitacionalmente quando a nave está muito próxima dela. A maior parte do caminho é ainda território gravitacional da Terra.
Após o ponto de igualdade, a Lua passa a dominar o movimento. É por isso que missões usam correções pequenas nessa região.
Comparando com a gravidade da Terra
Vamos considerar que 1g seja a gravidade da Terra em sua superfície, como é a gravidade ao longo da viagem?
Tabela — gravidade em múltiplos de 1 g
| Distância da Terra (km) | Gravidade da Terra (g) | Gravidade da Lua (g) |
| 10. 000 | 0,41 g | 0,000004 g |
| 20 .000 | 0,10 g | 0,000004 g |
| 30 .000 | 0,045 g | 0,000004 g |
| 40 .000 | 0,025 g | 0,000004 g |
| 50 .000 | 0,016 g | 0,000004 g |
| 63.700 | 0,010 g Praticamente ausência de peso | 0,000005 |
| 100. 000 | 0,0039 g | 0,000006 g |
| 150. 000 | 0,0018 g | 0,000010 g |
| 200. 000 | 0,0010 g Ambiente típico de órbita | 0,000020 g |
| 250. 000 | 0,0006 g | 0,000047 g |
| 300. 000 | 0,0004 g | 0,00016 g |
| 326. 000 | 0,00036 g | 0,00036 g |
| 350. 000 | 0,00033 g | 0,00042 g |
| 360. 000 | 0,00031 g | 0,00084 g |
| 370. 000 | 0,00030 g | 0,0024 g |
Durante quase todo o trajeto, a nave Orion está em microgravidade — milésimos de g. Entre Terra e Lua, a nave passa a maior parte do tempo entre: 0,004 g e 0,0003 g.
Victor tem o papel essencial em garantir que se algo saísse do esperado, a tripulação conseguiria intervir manualmente.
Construa um modelo em escala da Terra, da Lua e suas distâncias
Imagine que a Terra seja uma bola com 20 centímetros de diâmetro.
Que tamanho seria a Lua e a que distância a Lua estaria da Terra?
Monte um modelo em escala para visualizar o espaço (distância) entre a Terra e a Lua durante a Missão Artemis II.

A nave Orion tem um diâmetro real da cápsula com cerca de 5 metros. Nessa escala, ela teria cerca de 0,08 micrômetros.
Isso significa que ela seria invisível a olho nu e muito menor que um fio de cabelo (média de 70 µm) e um grão de poeira.
Se a Terra fosse uma bola de futebol, a Orion seria menor que uma bactéria.
A Saúde está Perfeita?
A especialista Christina Koch continuou o monitoramento humano e a prontidão física. Suas principais atividades foram:
- Avaliar a fisiologia de toda a tripulação.
- Monitorar a fadiga, o estresse e a adaptação emocional.
- Verificar o estado físico antes do dia mais exigente.
- Checar vestimentas, cintos e equipamentos pessoais.
- Acompanhar a exposição acumulada à radiação.

O sexto dia seria longo, emocionalmente intenso e com alta carga cognitiva. Christina tinha a função de garantir que os pilotos estavam tão prontos quanto a nave.
Fazendo História
O especialista Jeremy Hansen continuou no registro histórico, a realizar experimentos e fazer a observação lunar inicial. Ele teve que:
- Organizar as câmeras e sensores ópticos.
- Planejar as janelas (momentos) de observação lunar.
- Preparar protocolos fotográficos do lado oculto.
- Fazer o registro detalhado do estado da nave e da tripulação.
- Continuar no apoio científico ao experimento AVATAR.
Jeremy teve um papel único: transformar a missão em dados, imagens e conhecimento que serão usados por décadas.
Ele ajudou a garantir que nada do encontro histórico com a Lua fosse perdido.

O Experimento AVATAR
Nesse quinto dia 5, o experimento AVATAR já estava totalmente exposto à radiação de espaço profundo, continuou funcionando de forma passiva e teve seus parâmetros verificados pela tripulação.
O foco do dia foi confirmar a integridade do experimento, a estabilidade térmica e o registro contínuo dos efeitos celulares.
Esse dia fechou o “pacote científico” antes da passagem lunar.
Todos em forma!?
A tripulação inteira participou de exercícios físicos leves (economia de energia) e fez revisões de emergência. Tivemos conversas internas de alinhamento e fizemos registros de áudio e vídeo pessoais.
Foi um dia de preparação mental para o isolamento temporário.
Naquela noite, todos sabiam que o próximo dia teria momentos de silêncio absoluto da Terra.
Veja os melhores momentos do quinto dia da Missão Artemis II

