Imagem de capa: Captura de tela do vídeo com entrevista da tripulação Artemis no dia 9 da missão.
(Narrativa ficcional pelo Comandante Reid Wiseman com base em dados reais da missão.)
O último dia completo no espaço
Esse dia foi o último dia inteiro da Artemis II ainda no espaço.
A nave Orion já estava bem próxima da Terra, em trajetória calculada para a reentrada no dia seguinte.

Este foi o dia em que a missão entrou no que chamamos de “modo irreversível”. Após certos procedimentos, não há mais grandes correções possíveis.
Tudo precisa estar perfeito.
Como comandante, tenho que tomar a decisão final e autorizar a reentrada.
Para isso, conduzi a Revisão Final de Prontidão para Reentrada, autorizando oficialmente a sequência de retorno. A pergunta que tenho que responder é:
A tripulação, a nave Orion e o ambiente externo estão realmente prontos para atravessar a atmosfera agora?
A revisão confirma se tudo que já foi preparado ainda está válido naquele instante.
Estado da nave Orion
- Sistema de controle de atitude (RCS) operacional
- Computadores de voo no modo de reentrada
- Sistemas elétricos e baterias dentro dos parâmetros
- Proteção térmica (escudo de calor) não apresenta indicações anômalas
- Configuração correta de massa e centro de gravidade
- Cabine pressurizada e selada
Prontidão da tripulação
Cada astronauta confirma:
- Traje Orion Survival System Suit (OCSS) selado e com fluxo correto
- Luvas, capacete, comunicação e refrigeração funcionando
- Postura correta no assento (posição anti‑G)
- Sistemas pessoais de emergência armados
Em termos simples: todos fisicamente prontos para suportar a desaceleração e o aquecimento.
Trajetória e ambiente externo
Com dados fornecidos pelo Controle da Missão e sensores de bordo, confirma‑se:
- Corredor de reentrada (“entry corridor”) dentro dos limites
- Ângulo de entrada aceitável (nem muito raso, nem muito íngreme)
- Condições previstas do local de pouso (oceano) aceitáveis
- Nenhuma restrição ativa de segurança de voo
Isso garante que a nave não vai quicar na atmosfera nem sofrer aquecimento excessivo.
Comunicação e planos de contingência
Antes do blackout:
- Última comunicação clara com Houston
- Modos automáticos confirmados para perda de sinal
- Procedimentos de contingência revisados (caso algo saia do nominal)
Isso implica na verificação do escudo térmico, em ajustes finais na trajetória de retorno e na despedida da nave que foi nossa casa.

Nesse dia, não executo tanto, mas autorizo e aprovo todas as etapas para finalmente dizer:
A nave está pronta, a tripulação está pronta. Vamos voltar.
Nosso piloto Victor Glover trabalha intensamente na geometria da reentrada e no controle de precisão da nave, que inclui:
- Fazer a verificação final da trajetória de entrada,
- Conferir o ângulo de ataque da Orion
- Monitorar a velocidade de encontro com a atmosfera.
Ele faz a avaliação dos dados de navegação orbital e a confirmação de que nenhuma correção residual será necessária. Depois da separação do módulo de serviço, não há mais propulsão principal. Se algo estivesse fora do lugar, já não haveria como “consertar”.
A Orion não freia com motores. Ela chega muito rápida, acelera um pouco mais pela gravidade da Terra e só então, começa a desacelerar brutalmente por causa da atmosfera.
A Terra não “freia” a nave. Quem freia a Orion é a atmosfera.
E isso acontece em algumas etapas.
No espaço profundo, com distâncias maiores do que 100.000 km da Terra, a velocidade varia de 10 a 11 km/seg. (ou de 36.000 a 40.000 km/h). Nessa fase, a nave está “caindo” para a Terra e a gravidade da Terra começa a acelerar a Orion. Aqui não há atmosfera, então nada freia. A velocidade é controlada somente por gravidade e trajetória.
Na aproximação da Terra, de 20.000 km até 1.000 km de altitude, a velocidade aumenta gradualmente e chega ao máximo pouco antes da reentrada, com um valor típico antes do contato com a atmosfera de 11,0 km/seg. ou 39.600 km/h.
A nave fica mais rápida quando chega perto da Terra — não mais lenta.
O início da reentrada atmosférica, a cerca de 120 km de altitude, é o ponto oficial de reentrada. E a velocidade inicial é de cerca de 39.600 km/h. O que muda aqui não é a velocidade, mas o ambiente.
O ar começa a existir e provoca uma compressão violenta do ar e a formação do plasma ao redor da cápsula. A partir daqui toda desaceleração vem do atrito com o ar, não de motores.
A fase de desaceleração hipersônica ocorre de 120 km a 40 km de altitude. Esta é a fase mais violenta da missão. É quando a Orion perde milhares de km/h em poucos minutos e sofre até 4–5 G de desaceleração. E com o atrito, a temperatura do escudo térmico chega a cerca de 2.700 a 5.000 °C. No final dessa fase, a velocidade típica chegará a Mach 3 ou Mach 2, com cerca de 2.000 a 1.500 km/h.
É quando ocorre o famoso blecaute de comunicações.
A fase de queda supersônica para subsônica ocorre de 30 a 10 km de altitude. É quando a velocidade cai abaixo da velocidade do som. Os paraquedas piloto são acionados e depois os grandes paraquedas principais. E a velocidade cai de supersônica (300 km/h) para subsônica (150 km/h)
A fase Splashdown ocorre quando chega ao nível do mar, com velocidade final de 30 km/h. Uma velocidade suficiente para manter a cápsula intacta, não ferir a tripulação e permitir o resgate em segurança.
Nesse dia, precisamos preparar a nave para essa grande queda e redução de velocidade.
Testando os trajes de reentrada
A nossa especialista Christina Koch faz a preparação humana para passar por essas etapas. Ela faz uma avaliação física final de cada tripulante, coordena a transição para uso contínuo dos trajes espaciais.
E verifica a pressurização, as comunicações e a ventilação dos trajes.
Rever a postura corporal para a reentrada e monitora o estresse e fadiga de toda a equipe. Daqui para frente, o corpo humano entra em um ambiente hostil: desaceleração elevada, vibração, calor extremo e ruído intenso. Christina garante que a equipe esteja o melhor possível.
Encerramento dos Experimentos
Nosso especialista Jeremy Hansen faz o encerramento definitivo da fase científica. Ele finaliza e desliga os experimentos científicos, faz o armazenamento seguro do experimento AVATAR e a organização final de dados e mídias, incluindo o registro das últimas horas em microgravidade. Este foi o último dia da história em que Jeremy flutuou no espaço nesta missão. Cada ação foi pensada para não comprometer a cabine durante a reentrada.
Até finalmente, as 19h33min, iniciar a separação do Módulo de Serviço Europeu do Módulo de Comando.
O módulo de serviço foi descartado em uma trajetória que o levou à destruição.
A partir desse ponto, apenas o Módulo de Comando continuou e apenas o escudo térmico protegeria a tripulação. Este é um dos momentos mais marcantes da missão.
Explorar é avançar, mas retornar exige disciplina. Nesse dia, nada foi feito para brilhar — tudo foi feito para sobreviver.
Para ver os melhores momentos desse dia, selecionados pela NASA, veja o vídeo abaixo.

