Mulhere STEM: Amanda Vincent

Imagem de capa: Cavalo-Marinho-Raiado (Hippocampus erectus), © Hunter Stevens, Califórnia, 2025. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.

Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.

Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.

O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.

Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.

Poster Ingenium original (em inglês): https://diversityinstem.ingenium.ca/portfolio-item/amanda-vincent/#toggle-id-1

(biografia em primeira pessoa, inspirada na trajetória de Amanda Vincent)

Meu nome é Amanda Claire Jane Vincent, sou bióloga marinha, pesquisadora e conservacionista.

Ao olhar para trás, percebo que minha trajetória foi guiada por uma combinação de curiosidade científica, amor pela natureza e uma profunda preocupação com o futuro do oceano e das pessoas que dependem deles. Hoje sou conhecida pelo trabalho com cavalos marinhos, mas essa paixão nasceu muito antes de eu imaginar que dedicaria minha vida a esses fascinantes peixes.

Infância

Nasci e cresci no Canadá, em uma família que valorizava o conhecimento, a observação da natureza e a educação. Desde muito pequena, fui incentivada a fazer perguntas sobre o mundo ao meu redor. Meus pais nunca desencorajaram minha curiosidade. Pelo contrário, ensinaram-me que aprender era uma aventura permanente.

Passei boa parte da infância observando animais, plantas e paisagens naturais. Eu gostava de compreender como a vida funcionava e como todos os seres vivos estavam conectados. Essa atenção ao mundo natural moldou minha forma de pensar e se tornou a base da minha futura carreira científica.

Quando entrei na universidade, escolhi estudar Zoologia.

Concluí meu Bacharelado com Honras em Zoologia na University of Western Ontario, no Canadá. Foi nesse período que comecei a compreender a enorme diversidade da vida animal e a importância da pesquisa científica para a conservação da natureza.

Durante minha formação, aprendi que a ciência não consiste apenas em responder perguntas. Ela também exige coragem para formular novas perguntas que ninguém havia feito antes.

Após a graduação, iniciei estudos de pós-graduação na University of British Columbia, onde aprofundei meus conhecimentos em zoologia. Embora esse mestrado não tenha sido concluído, a experiência foi importante para consolidar meu interesse pela pesquisa e preparar o caminho para os estudos doutorais.

O doutorado em Cambridge

Minha formação científica ganhou uma nova dimensão quando fui aceita para realizar o doutorado na University of Cambridge, no Reino Unido. Ali desenvolvi pesquisas em zoologia e tive a oportunidade de trabalhar com pesquisadores de destaque internacional. Minha tese abordou a ecologia reprodutiva dos cavalos-marinhos, um tema praticamente inexplorado na época.

Foi durante esses anos que nasceu minha ligação definitiva com os cavalos-marinhos. Quanto mais eu os estudava, mais fascinada ficava. Eles apresentavam comportamentos únicos, incluindo um fato extraordinário: são os machos que carregam e dão à luz os filhotes.

Quando comecei minhas pesquisas, pouco se sabia sobre cavalos-marinhos em seu ambiente natural. Decidi então fazer algo que ninguém havia feito antes: estudá-los diretamente debaixo d’água. Tornei-me a primeira bióloga a realizar estudos sistemáticos de cavalos-marinhos em seu habitat natural.

Quanto mais mergulhava, mais descobria a fragilidade dessas espécies. Observei que muitos cavalos-marinhos estavam desaparecendo devido à degradação dos habitats, à pesca excessiva e ao comércio internacional.

Também fui a primeira pesquisadora a documentar a dimensão global do comércio de cavalos-marinhos. Descobri que milhões desses animais eram capturados todos os anos para mercados de medicina tradicional, aquários e souvenires. Aquela constatação mudou minha vida.

Percebi que produzir conhecimento científico não era suficiente.

Era necessário agir.

Ao longo da minha carreira, trabalhei em numerosos países em desenvolvimento, convivendo com pescadores, comunidades costeiras, comerciantes e governos. Essas experiências transformaram minha visão sobre conservação.

Aprendi que proteger a biodiversidade não significa ignorar as necessidades humanas. Pelo contrário, a conservação só funciona quando reconhecemos que as pessoas também dependem dos recursos naturais para sobreviver. Essa compreensão passou a orientar toda a minha atuação profissional.

Muitas vezes enfrentei desafios significativos. Houve momentos em que faltavam recursos financeiros para a pesquisa. Em outras ocasiões, precisei convencer autoridades e organizações internacionais da necessidade de proteger espécies que poucos conheciam. Também encontrei resistência de setores econômicos preocupados com possíveis restrições à exploração dos recursos marinhos.

Apesar dessas dificuldades, permaneci convencida de que a ciência deveria servir para promover mudanças concretas.

Em 1996, fundei o Project Seahorse, o primeiro programa internacional dedicado especificamente à conservação dos cavalos-marinhos. O projeto nasceu do desejo de unir pesquisa científica, políticas públicas e participação comunitária para proteger ecossistemas costeiros.

Desde então, trabalhamos com pesquisadores, governos, organizações ambientais, indústrias e comunidades locais em diversos países. O objetivo sempre foi encontrar soluções realistas para conciliar desenvolvimento humano e conservação marinha.

Para conhecer espécies de cavalos marinhos da América, consulte os guias:

– Em inglês, https://projectseahorse.org/wp-content/uploads/2021/06/AmericasIDGuide_Final1.pdf

– Em espanhol, https://projectseahorse.org/wp-content/uploads/2021/06/SeahorsesoftheAmericas_Spanish2019_Final_V2.pdf

E artigos científicos de pesquisadores brasileiros em https://www.iucn-seahorse.org/cites-toolkit-countries#Brazil

– E os sites de projetos brasileros:

– do Projeto Cavalo Marinhos, do Rio de Janeiro em https://www.projetocavalosmarinhos.com.br/cavalosmarinhos

– do Projeto Hippocampus, em https://projetohippocampus.org/

E a nossa colaboradora brasileira Dra. Tacyana Oliveira, professora associada da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), com interesse principal na integração de informações ecológicas e etnobotânicas em estratégias de conservação para proteger cavalos marinhos e seus habitats no Brasil. Sua pesquisa concentra-se em avaliações e monitoramento populacional, uso do habitat e comportamento, particularmente em estuários de mangue. Tacyana também tem grande interesse em conhecimentos ecológicos locais, pesca, comércio e usos de cavalos-marinhos. Ela lidera o desenvolvimento de um plano de ação nacional para a espécie brasileira. É graduada em Biologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui mestrado e doutorado em Zoologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde estudou ecologia e bioacústica de cavalos marinhos.  X: @Tacy_Oliveira1

E as incríveis fotos de espécies de cavalos marinhos em https://www.iucn-seahorse.org/seahorse-species (a maioria da plataforma iNaturalist). Um excelente material visual para trabalhar com estudantes.

Leia o livro O Camaleão dos Mares, disponível em https://cienciaviva.org.br/o-camaleao-dos-mares/

Após concluir meu doutorado, fui pesquisadora visitante na Alemanha e na Suécia, experiências que ampliaram minha perspectiva internacional. Em seguida, atuei como Senior Research Fellow na University of Oxford, onde aprofundei minhas pesquisas em ecologia e conservação.

Em 1996, retornei ao Canadá para integrar o corpo docente da McGill University. Alguns anos depois, assumi a prestigiosa posição de Canada Research Chair in Marine Conservation na University of British Columbia, onde continuei desenvolvendo pesquisas e formando novas gerações de cientistas.

Reconhecimento internacional

Ao longo dos anos, tive a honra de receber diversos prêmios e reconhecimentos. Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando me tornei a primeira pessoa dedicada à conservação dos oceanos a receber o Indianapolis Prize, considerado o principal prêmio mundial para conservação animal.

Também passei a liderar iniciativas globais ligadas à IUCN (International Union for Conservation of Nature), contribuindo para a proteção de espécies marinhas e para a formulação de políticas internacionais de conservação.

Atualmente sou presidente do Comitê de Conservação Marinha da Comissão de Sobrevivência de Espécies (CSE) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e também presidente do Grupo de Especialistas em Cavalos-Marinhos, Peixes-Cachimbo e Dragões-Marinhos da CSE da UICN.

Uma missão para o futuro

Se existe uma lição que aprendi ao longo da vida, é que a conservação não depende apenas dos cientistas. Ela depende de todos nós.

Os cavalos-marinhos foram apenas o começo da minha jornada. Eles me ensinaram que pequenas espécies podem revelar grandes desafios globais. Também me mostraram que é possível unir ciência, comunidades locais e ação política para construir um futuro mais sustentável.

Hoje continuo acreditando que sempre sabemos o suficiente para agir. Podemos continuar aprendendo, mas não podemos esperar para proteger aquilo que corre o risco de desaparecer.

O oceano precisa de conhecimento, mas precisa, acima de tudo, de compromisso e esperança.

Na costa brasileira, são reconhecidas atualmente três espécies de cavalos-marinhos (gênero Hippocampus):

Cavalo-marinho-de-focinho-longo (Hippocampus reidi)

  • É a espécie mais comum do Brasil.
  • Ocorre ao longo de praticamente todo o litoral brasileiro.
  • Vive tanto em ambientes marinhos quanto em estuários e manguezais.
  • Pode apresentar diversas cores, como amarelo, laranja, vermelho e marrom.

Cavalo-Marinho-de-Focinho-Longo (Hippocampus reidi), © Alexandre Ornellas, Rio de Janeiro, 2024. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Cavalo-marinho-raiado (Hippocampus erectus)

  • Possui focinho de tamanho intermediário.
  • Também apresenta registros ao longo de grande parte da costa brasileira.
  • Habita principalmente ambientes marinhos costeiros.

Cavalo-Marinho-Raiado (Hippocampus erectus), © Hunter Stevens, Califórnia, 2025. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

Cavalo-marinho-de-focinho-curto (Hippocampus patagonicus)

  • Tem distribuição mais restrita.
  • No Brasil, ocorre principalmente nas regiões Sudeste e Sul.
  • Foi reconhecido mais recentemente como integrante da fauna brasileira.

Cavalo-Marinho-Patagônico (Hippocampus patagonicus). © Gonzalo Bravo, Buenos Aires, AR, 2021. Acervo iNaturalist. Licença CC-BY-NC-4.0.

O Brasil abriga algumas das populações mais importantes de Hippocampus reidi do mundo. Os cavalos-marinhos brasileiros estão sob pressão devido à degradação de manguezais, captura para comércio e turismo inadequado.

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