Imagem de capa: Ursula M. Franklin em laboratório, com microscópio ao fundo. Fonte: SquareSpace.
Em 2026, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (Brasil) vai celebrar o tema Mulheres na Ciência. Vamos aproveitar para divulgar ações voltadas para Mulheres e Diversidade na Ciência.
Iniciaremos, com os posteres educativos do Programa Woman in STEM, Diversity in STEM, uma iniciativa canadense da Ingenium que visa engajar, promover e manter o interesse de jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Essas pessoas sempre fizeram contribuições importantes para as áreas de STEM ao longo da história, mas a desigualdade persiste, especialmente nos mais altos escalões da academia e da indústria.
Sua missão é contribuir para os esforços internacionais em prol da equidade em STEM, celebrando conquistas e defensores, e lançando luz sobre preconceitos persistentes, muitas vezes implícitos. Existem múltiplas barreiras estruturais e culturais que contribuem para essa situação, e as causas são complexas. A Ingenium reconhece isso e desenvolve diversas estratégias sustentáveis e de longo prazo para engajar jovens mulheres, pessoas não binárias e outras pessoas diversas em STEM.
O objetivo da iniciativa é combater a sub-representação em STEM e contribuir para os esforços em prol da equidade nessas áreas.
Apresentamos aqui a série de pôsteres educativos criados pela Ingenium, com cada semana, um pôster da série, usado com permissão.
Ursula Martius Franklin
O compromisso da Dra. Franklin com sua pesquisa e trabalho humanitário permitiu que ela causasse impactos significativos no mundo das STEM e da vida cotidiana.
Sua pesquisa sobre elementos radioativos encontrados em dentes de crianças levou a uma melhor compreensão dos riscos dos testes nucleares.

Para Me Conhecer Melhor
Narrativa ficcional baseada na biografia e fatos reais da cientista.
Olá, meu nome é Ursula Martius Franklin, e fico muito feliz em poder contar minha história a vocês.
Quero que saibam, desde o início, que a ciência não pertence a um tipo de pessoa.
Ela pertence a quem faz perguntas — e, se vocês estão ouvindo esta história, é porque já começaram a fazer as suas.
Nasci em 1921, como Ursula Maria Martius, na cidade de Munique, na Alemanha.
Desde cedo, aprendi que o mundo pode ser ao mesmo tempo belo e injusto.
Meu pai, Albrecht Martius, era um arqueólogo luterano alemão e minha mãe, Ilse Maria Martius (nascida Sperling), era historiadora da arte, de origem judaica. Por ser judia, vivi minha juventude em meio às dificuldades da Segunda Guerra Mundial.
Eu fui enviada a um campo de trabalho forçado, enquanto meus pais foram enviados a campos de concentração diferentes. Felizmnte, a minha família sobreviveu ao Holocausto e conseguimos nos reunir novamente em Berlim após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Esses anos me ensinaram algo muito importante: o conhecimento e a ética caminham juntos.
A ciência, para mim, nunca poderia ser separada da responsabilidade com a vida humana.
Depois da guerra, decidi seguir aquilo que sempre me fascinou: a física e os materiais que compõem o mundo. Emigrei para o Canadá, onde continuei meus estudos e realizei meu doutorado na Universidade de Toronto.
Tornar-me cientista não foi simples — especialmente sendo mulher em um ambiente masculino, mas aprendi que perseverar também é uma forma de coragem científica.
Como pesquisadora e professora de metalurgia e ciência dos materiais, estudei como os materiais se formam, se transformam e contam histórias sobre o passado.
A ciência, para mim, era uma lente para compreender tanto a natureza quanto a sociedade.
Em determinado momento da minha carreira, meu trabalho tomou um rumo que mudaria minha vida. Comecei a pesquisar elementos radioativos presentes nos dentes de crianças, especialmente o Estrôncio‑90. Esses elementos não estavam ali por acaso: vinham dos testes nucleares realizados no mundo todo.
O Estrôncio e os dentes
O Estrôncio é um elemento químico muito parecido com o Cálcio. Nosso corpo usa cálcio para formar ossos e dentes. Por ser parecido, o estrôncio pode “enganar” o corpo e entrar no lugar do cálcio. Assim, quando uma pessoa (especialmente crianças) entra em contato com estrôncio, ele pode ficar preso nos dentes e ossos enquanto eles estão se formando.
Explosões nucleares produzem substâncias radioativas. Uma delas é o estrôncio‑90, que é radioativo e perigoso. Depois das explosões, esse estrôncio cai no chão com a poeira radioativa, e contamina: o solo, a água, o capim, o leite.
O caminho até os dentes:
- O estrôncio‑90 cai no solo.
- As plantas absorvem.
- As vacas comem as plantas.
- O estrôncio vai para o leite.
- Crianças bebem o leite.
- O estrôncio entra no corpo e fica nos dentes em formação.
Dentes infantis não se renovam, então guardam um “registro” do que a criança absorveu. Cientistas passaram a medir estrôncio‑90 em dentes de leite. Quanto mais estrôncio nos dentes, mais poluição nuclear havia no ambiente.
Isso ajudou a provar que os testes nucleares estavam afetando pessoas comuns, longe dos locais das explosões.
Os dentes das crianças estavam nos contando uma história silenciosa, mas urgente — a de que decisões tomadas longe das pessoas tinham impactos diretos sobre seus corpos e seus futuros.
Essa pesquisa ajudou a aumentar a consciência pública sobre os perigos da radiação nuclear, contribuindo para debates que levaram a acordos internacionais de limitação de testes atômicos. Foi quando percebi, de forma muito clara, que a ciência pode — e deve — servir à vida cotidiana.
Defensora da Paz e de Mentes Éticas
A paz não é a ausência de guerra.
A paz é a ausência de medo.
Ursula Franklin, em The Ursula Franklin Reader.
Ao longo dos anos, também me tornei uma defensora da paz, da justiça social e da participação das mulheres na ciência. Acreditei, e continuo acreditando, que a tecnologia não é neutra: ela molda a forma como vivemos, nos comunicamos e cuidamos umas das outras. Por isso, precisamos de mais vozes diversas fazendo ciência — vozes como as de vocês.
Gosto de provocar algumas reflexões em minhas palestras e coletâneas sobre Ética e Filosofia da Ciência.
Em The Real World of Technology (1989-1999), eu redefini “tecnologia” não como máquinas, mas como: conjuntos de práticas, organizações e modos de pensar.
E também separei dois tipos de tecnologias:
- As tecnologias holísticas mais artesanais, com autonomia do trabalhador.
- As Tecnologias prescritivas fragmentadas, hierárquicas e controladoras.
Em Pacifism as a Map (2014), defendo o pacifismo como um método ético de análise tecnológica. E introduzo as ideias de que ciência e tecnologia produzem efeitos morais independentemente da intenção do cientista pois Ciência e Tecnologia nunca são moralmente neutras.
Em Thoughts and Afterthoughts (2014), apresento uma discussão sobre a Ética Pública da Ciência, voltada ao debate público, e não apenas acadêmico.
Em Ensaios sobre Objeção de Consciência Tecnológica, defendo o direito de cientistas e cidadãos recusarem participar de sistemas tecnológicos destrutivos como a defesa da recusa ao pagamento de impostos destinados à guerra como uma questão ética.
Baseado em minha experiência como física e sobrevivente do nazismo, defendo que:
O maior fracasso ético da ciência moderna é sua acomodação à guerra!
Deixo aqui algumas para você refletir:
Pacifismo é uma forma ativa de viver, não uma recusa de agir.
Que mapa você está seguindo quando age?
Tecnologia é um modo de organizar o mundo.
Onde a tecnologia decide por mim sem que eu perceba?
Quem controla o processo controla as pessoas.
Algumas tecnologias empoderam, outras mandam obedecer. Você sabe reconhecer?
O silêncio também é um sistema.
Que vozes não foram ouvidas na ciência?
A paz precisa ser praticada todos os dias.
Que prática você realizou hoje?
Conhecimento cria responsabilidade.
Como garantir essa responsabilidade social da ciência?
E quero encerrar com algo muito importante:
Vocês não precisam ser gênios para serem cientistas.
Vocês precisam ser curiosas, persistentes e éticas.
A ciência precisa de meninas que façam perguntas difíceis, que observem o mundo com atenção e que se preocupem com as consequências do conhecimento que produzem.
Se um dia vocês se perguntarem se pertencem a esse lugar, lembrem-se:
A ciência também pertence a quem sonha em torná-la melhor!

